Foto: Ayana T. Miller/Flickr/ Creative Commons

Trollar pode ser algo que se espalha de uma pessoa para outra
 

“Fracasse na vida. Que você se exploda.”

Comentários como esse, encontrado em um artigo da CNN sobre qual é a percepção que as mulheres têm de si mesmas, são prevalentes na internet hoje, seja no Facebook, Reddit ou em um site de notícias. Tal comportamento pode ir de ofensas e xingamentos a ataques pessoais, assédio sexual ou discurso de ódio.

Uma recente pesquisa sobre a internet da Pew mostrou que quatro em cada dez usuários já foram molestados na rede. Muitos mais já testemunharam comportamentos desse tipo. A “trollagem” já se tornou tão disseminada que diversos sites chegaram até a remover completamente a área de comentários.

Muitos acreditam que a trollagem é trabalho de uma minoria pequena e falastrona de indivíduos sociopatas. Essa crença tem sido reforçada não apenas na mídia, mas também em estudos sobre trollagem cujo foco eram entrevistas com esses indivíduos. Alguns estudos mostraram que trolls têm predisposições pessoais e biológicas, tais como sadismo e uma propensão a procurar um excesso de estímulos.

Mas e se os trolls não nasceram trolls? E se eles forem pessoas comuns como você e eu? Em nossa pesquisa, descobrimos que pessoas podem ser influenciadas a ponto de trollar outras, dadas as circunstâncias propícias em uma comunidade online. Ao analisar 16 milhões de comentários feitos na CNN.com, e conduzindo um experimento online controlado, identificamos dois fatores principais que podem levar pessoas comuns a trollarem.

Como se forma um troll?

Recrutamos 667 participantes através de uma plataforma online de colaboração coletiva (“crowdsourcing”). Pedimos a eles que primeiro respondessem a um questionário, depois lessem um artigo e participassem de uma discussão. Cada participante viu o mesmo artigo, mas alguns foram trazidos a uma discussão que havia começado com comentários de trolls, enquanto que outros viram comentários neutros. Aqui, a trollagem foi definida por meio do uso de diretrizes padrões de comunidade - por exemplo, xingamentos, ofensas, racismo ou assédio. O questionário fornecido de antemão podia ser fácil ou difícil.

Nossa análise dos comentários na CNN.com ajudou a verificar e ampliar essas observações experimentais.

O primeiro fator que parece influenciar a trollagem é o humor da pessoa. Em nosso experimento, pessoas com humores negativos tinham uma propensão muito maior de começar a trollar. Também descobrimos que a trollagem recua ou expande de acordo com a hora do dia e o dia da semana, em sincronia com os padrões humanos naturais de humor. A trollagem é mais frequente tarde da noite, e menos frequente de manhã. A trollagem tem seu maior pico na segunda-feira, no início da semana de trabalho.

Hora da trollagem

A proporção de posts marcados tem seu pico tarde da noite, de acordo com um estudo de comentários na CNN.com

Além disso, descobrimos que um estado de humor negativo pode persistir para além dos eventos que despertaram esses sentimentos. Suponhamos que alguém participe de uma discussão em que outras pessoas escreveram comentários de trollagem. Se aquela pessoa depois vai participar em outra discussão, mesmo sem relação com a primeira, ela tem maior probabilidade de trollar naquela discussão também.

O segundo fator é o contexto de uma discussão. Se a discussão começa com um “comentário troll”, então ela tem duas vezes mais chance de ser trollada posteriormente por outros participantes em comparação com uma discussão que não começa com um comentário troll.

Na verdade, comentários de trolls só crescem em volume. Quanto mais comentários de troll em uma discussão, maior a probabilidade de futuros participantes também trollarem a discussão. De modo geral, esses resultados mostram como os comentários iniciais em uma discussão estabelecem um precedente forte e duradouro para a trollagem posterior.

Quisemos saber se, ao usar esses dois fatores, poderíamos prever quando a trollagem iria ocorrer. Usando algoritmos de aprendizado de máquina (técnica de inteligência artificial), pudemos prever se uma pessoa estava prestes a trollar em quase 80% das vezes.

Um ponto interessante é que o humor e o contexto da discussão juntos formaram um indicador muito mais forte da trollagem do que a identificação de indivíduos específicos como trolls. Em outras palavras, a trollagem é causada muito mais pelo ambiente da pessoa do que por algum traço inerente.

Já que a trollagem é decorrente da situação, e pessoas comuns podem ser influenciadas a trollar, esse tipo de comportamento pode acabar se espalhando de pessoa para pessoa. Um único comentário de troll em uma discussão - talvez escrito por uma pessoa que acordou de mau humor - pode desencadear humores piores de outros participantes, e ainda mais comentários de troll em outros lugares. À medida que esse comportamento negativo continua a ser propagado, a trollagem pode acabar se tornando a regra em comunidades se não for controlada.

Contra-atacando

Apesar dos resultados preocupantes, existem diversas maneiras em que esta pesquisa pode nos ajudar a criar melhores espaços online para a discussão pública.

Ao entender o que leva à trollagem, podemos agora prever melhor quando ela tem mais chances de acontecer. Isso pode nos permitir identificar discussões com potencial de conflito antes que aconteçam e fazer alertas prévios a moderadores, que então podem intervir nessas situações agressivas.

Algoritmos de aprendizado de máquina podem também processar milhões de posts muito mais rapidamente que qualquer humano. Ao treinar computadores para que localizem comportamento troll, podemos identificar e filtrar conteúdo indesejável com uma velocidade muito maior.

Intervenções sociais também podem reduzir a trollagem. Se permitirmos às pessoas retirarem comentários recentes, podemos ser capazes de minimizar o arrependimento causado por uma postagem feita no calor do momento. Alterar o contexto da discussão através da priorização de comentários construtivos pode aumentar a percepção de civilidade. Mesmo o ato de fixar (“pinar”) um post sobre regras da comunidade no topo de uma página de discussão ajuda, como mostrou um recente experimento conduzido no Reddit.

Ainda assim, há muito mais trabalho a ser feito com relação à trollagem. Entender o papel da trollagem organizada pode limitar alguns tipos de comportamento indesejável.

A trollagem também pode variar em severidade, de palavrões a bullying direcionado, necessitando respostas diferentes.

É também importante diferenciar o impacto de um comentário troll da intenção do autor: o troll queria prejudicar outros ou estava apenas tentando expressar um ponto de vista diferente? Isso pode ajudar a separar indivíduos indesejáveis daqueles que apenas precisam de ajuda para comunicar suas ideias.

Quando há um colapso das discussões online, não são apenas os sociopatas os culpados. A falha também é nossa. Muitos trolls são apenas pessoas como nós que estão tendo um dia ruim. Entender que somos responsáveis tanto pelas conversas inspiradoras como pelas deprimentes que temos na rede é fundamental para produzir discussões online mais produtivas.

The Conversation