Foto: Doc Searls/Wikimedia Commons

A luminária 'alcachofra' de Poul Henningsen no London’s Park Plaza hotel
 

Um produto bem desenhado valoriza igualmente a forma e a função. É agradável de se olhar, fácil de usar e resolve um problema frequente.

Procuramos cinco professores de design e fizemos a seguinte pergunta: qual o produto mais bem desenhado de todos os tempos, e por quê?

Suas respostas variaram de produtos cotidianos e baratos a outros mais novos e caros. Todos têm em comum uma história de tentativa, erro e engenhosidade.

Cortando o brilho

Catherine Anderson, Universidade George Washington

No início dos anos 20, quando o designer dinamarquês Poul Henningsen observou Copenhague à noite, ele lamentou a qualidade da luz na casa das pessoas. Ele notou que os bulbos incandescentes - às vezes, descobertos; às vezes, cercados por um único abajur - criavam “flechas de luz” e um brilho agressivo.

Henningsen resolveu criar um novo design que iria amenizar esse efeito “sombrio”; ele seria “...construído tendo em mente a tarefa mais difícil e nobre: a iluminação doméstica.”

“O objetivo é embelezar a casa e quem mora nela”, ele escreveu, “tornar a noite reparadora e relaxante”.

Sua abordagem era científica. Ele examinou rigorosamente como o uso de múltiplas sombras poderia lançar um brilho caloroso de luz dentro de um cômodo.

Em 1924, nascia sua “luminária PH”.

Foto: Holger Ellgaard/Wikimedia Commons

A luminária de Poul Henningsen
 

Ela é agradável de se olhar. Mas, mais importante, ela emite uma luz que exige pouco do olho - um efeito que é criado pelas múltiplas sombras, que distribuem a luz de modo igual. Isso cria uma aura suave que atenua o contraste entre a fonte de luz e a escuridão em volta.

A luminária estilosa e despojada de Henningsen ganhou uma medalha de ouro na Exibição Internacional de Artes Modernas Decorativas e Industriais. Através dos anos, ela inspirou muitas variações, como a luminária “alcachofra”, e se tornou um produto digno de reis: em 1938, o vagão ferroviário do rei dinamarquês Christian 10 incluiu uma das luminárias de Henningsen.

Tudo isso destaca a força do desenho original, que até hoje pode ser comprado.

Segurando tudo

Lorraine Justice, Instituto de Tecnologia de Rochester

Por anos eu nunca dei muito valor para o simples clipe de papel. Quando criança, eu os torcia até se partirem para pendurar minhas decorações natalinas. Durante a minha adolescência, eu os usava para atirar elásticos nos meus amigos. E nos anos 90, eu os endireitava para ejetar um disquete da gaveta de um computador defeituoso.

Foi só quando me tornei uma estudante de design que percebi que o clipe de papel - oficialmente patenteado como “clipe de papel gem” - era um design quase perfeito: elegante, funcional e feito de aço, um material sustentável e reciclável.

Foto: Dean Hochman/Flickr

11 bilhões de clipes de papel são vendidos - por ano
 

Mas o clipe de papel percorreu um longo caminho até chegar à forma impecável que conhecemos hoje.

O clipe de papel começou como um alfinete que furava os papéis para mantê-los juntos. Os alfinetes afiados espetavam as pessoas no trabalho e eram difíceis de usar. Assim começaram melhorias graduais: o alfinete reto se transformou em algo chamado um alfinete “T”, um dispositivo com um fio horizontal na ponta que permitia que o alfinete fosse empurrado mais facilmente através dos papéis sem que os dedos fossem desnecessariamente espetados. Entretanto, este desenho ainda deixava buracos nos papéis.

No fim da década de 1890, inventores nos Estados Unidos e Europa começaram a trabalhar em novas versões do clipe de papel. Em 1898, Matthew Schooley, um inventor da Pensilvânia, acreditou que havia melhorado o desenho do alfinete ao criar duas voltas no arame. Mas ainda havia um problema: um pedaço de arame se projetava das voltas e prendia e rasgava o papel. Muitos outros inventores introduziram diversos fechos, clipes e desenhos com gravações em metal, todos tentando criar um produto reutilizável que juntasse papéis de forma barata, segura e firme.

Finalmente, em 1899, um inventor de Connecticut chamado William Middlebrook desenhou o clipe de papel tipo “gem”, assim como uma máquina para fabricá-lo, criando assim o clipe que conhecemos hoje.

O icônico desenho de duas voltas tinha flexibilidade o suficiente para manter várias folhas de papel unidas - sem quebrar ou furar dedos ou o papel. Hoje, americanos compram 11 bilhões de clipes de papel todo ano, embora eles não sejam todos usados para prender pedaços de papel - duvido que Middlebrook teria imaginado que sua invenção seria dublê de gancho de ornamento e lançador de elástico.

Esperas de terminal

Craig M. Vogel, Universidade de Cincinnati

Em 1958, o arquiteto Eero Saarinen, que tinha recebido a tarefa de projetar o terminal principal do Aeroporto Internacional de Washington - Dulles, procurou os designers de móveis Charles e Ray Eames - já famosos pela poltrona Eames - com um pedido: ele queria um sistema de assentos públicos para o terminal que fosse barato, robusto, estiloso e versátil.

Em 1962, a equipe de marido e esposa descortinou seu sistema de assentos suspensos em sequência. Apesar de ter sido desenhado para complementar o terminal de Saarinen, era tão prático que rapidamente se tornou umas das soluções de acomodação mais comuns para aeroportos em todo os Estados Unidos - e, posteriormente, no mundo.

Como assentos públicos são intensamente usados, eles precisam ser robustos e de fácil manutenção. Custo é sempre uma questão, por isso designers com frequência ficam sem opções se querem fazer algo que é esteticamente agradável.

Um icônico exemplo dos princípios do design modernista de meados do século 20, o sistema de assentos dos Eames era uma solução elegante e simples para todos esses problemas. Ele pode ser transportado em partes, é fácil de montar e manter, além de ser à prova de modificações.

Foto: Herman Miller/Wikimedia Commons

Se você é um passageiro frequente de aviões, provavelmente reconhecerá os assentos de espera, comuns em terminais de aeroporto ao redor do mundo
 

As cadeiras são robustas mas não têm uma estrutura de suporte desajeitada, o que torna fácil limpar o chão sob os assentos. A configuração é flexível: fileiras podem ter de duas a oito cadeiras.

Além disso, apenas três materiais são usados no design: alumínio, vinil e neoprene (uma borracha sintética). Apesar dos materiais serem baratos, eles têm aparência de caros e sofisticados. A almofada do assento suspenso desliza para dentro do encaixe e nunca rasga. Ao mesmo tempo, a largura do assento acomoda uma ampla gama de tipos de corpo.

E se viajantes perderem seu voo e precisarem passar a noite no terminal, o assento e o encosto formam um ângulo - assim como a poltrona Eames - que permite que o ocupante consiga até tirar uma soneca.

Disque ‘D’ para design

Kalle Lyytinen, Universidade Case Western Reserve

O telefone AT&T Model 500, do desenhista industrial americano Henry Dreyfuss, é um dos produtos mais icônicos e reconhecíveis do século 20. O telefone - junto com seu processo de criação - preconizou muitos dos princípios de design usados hoje.

Telefones de disco - que traziam um discador redondo com buracos para os dedos - apareceram inicialmente no começo do século 20. Mas muitos deles ficavam pregados nas paredes ou necessitavam de dois aparelhos separados para falar ou ouvir.

Além disso, antigos usuários de telefone tinham que ligar para telefonistas, que conectavam usuários na central telefônica. Quando esse processo se tornou automático, os designers precisaram pensar em uma maneira de oferecer uma interface intuitiva, uma vez que usuários iriam discar sequências numéricas mais complicadas (essencialmente fazendo a “transferência” telefônica por conta própria).

Embora modelos mais antigos tenham chegado perto de preencher essa demanda, o modelo 500 elevou o design, acrescentando diversas funções que mudaram para sempre o modo como telefones seriam usados.

O primeiro telefone de disco da AT&T em 1927 (chamado de “telefone francês”) tinha um gancho que integrava o alto-falante e o microfone, mas era desajeitado de usar. Enquanto isso, um modelo anterior de Dreyfuss de 1936, o 302, era feito de metal e tinha um gancho com um formato desconfortável.

Então, em 1949, veio seu Model 500.

Seus avós ainda têm o telefone AT&T Model 500?
 

Empregando nova tecnologia plástica, o gancho do telefone era liso, arredondado e proporcional, um avanço em relação às incômodas versões anteriores. Foi o primeiro a usar letras sob os números no disco - uma dádiva para negócios, já que números de telefones poderiam agora serem anunciados (e lembrados) como frases memorizáveis (pense no 1-800-THE-CARD, da American Express).

O telefone 500 era também o primeiro a passar por um processo de design que utilizava especialistas em ergonomia (conforto) e cognição. AT&T e Dreyfuss contrataram John Karlin, o primeiro psicólogo industrial do mundo, para conduzir experimentos que avaliassem aspectos do design. Por meio de exaustivos testes com consumidores, os designers puderam fazer ajustes minuciosos no produto - mesmo detalhes menores como a colocação de pontos brancos embaixo dos buracos do discador e a extensão do fio.

Junto com suas encarnações posteriores, o telefone chegaria a vender quase 162 milhões de unidades - por volta de uma para cada lar americano - e se tornaria uma presença em salas de estar, cozinhas e escritórios por muitas décadas.

Mudando o modo como trabalhamos e brincamos

Carla Viviana Coleman, Universidade de Maryland, Condado de Baltimore

Os óculos de realidade virtual chegaram recentemente no mercado. Eles não custam barato. A maioria tem preços entre US$ 3 mil e US$ 5 mil.

Mas um desses modelos - o HoloLens, da Microsoft - vendeu milhares de unidades desde seu lançamento em 2016.

O HoloLens permite que usuários interajam com um mundo digital 3D e, simultaneamente, vejam o que está à sua volta no mundo real. Para operar a interface, usuários podem fazer gestos com as mãos, falar ou simplesmente olhar.

O produto foi desenhado com a ergonomia em mente: usuários podem ajustar o tamanho da cabeça, a faixa e os óculos. O peso - distribuído pela área da coroa - previne a pressão no nariz e ouvidos. Usuários podem até usar seus próprios óculos ou um rabo de cavalo no cabelo. Esta é uma diferença fundamental com relação à maioria dos dispositivos de realidade virtual - como o HTC Vive - que são produtos pesados e desajeitados.

Foto: Ramadhanak/Wikimedia Commons

O futuro é holográfico
 

Enquanto é fácil imaginar uma nova geração de videogames sendo projetada para o HoloLens, vários empregados perceberam que os óculos podem melhorar a produtividade no trabalho e facilitar os desafios de certos trabalhos.

Por exemplo, a empresa ThyssenKrupp, que fabrica elevadores e escadas rolantes, começou a fornecer óculos HoloLens para seus técnicos de elevador, avaliando que os óculos permitirão que eles acessem dados de maneira mais eficiente. Os empregados podem realizar várias tarefas, optando por levantar o visor esférico ou mantê-lo em frente de seus olhos conforme necessário - tudo enquanto trabalham em um poço de elevador apertado.

Enquanto isso, escolas médicas estão usando o HoloLens para treinar médicos sem usar cadáveres. A Volvo está usando o produto para desenhar novos modelos de carro.

Se o preço cair, o mercado para este produto - atualmente na casa dos milhares - poderia facilmente se multiplicar por milhões.