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Adão e Eva (1526) por Lucas Cranach
 

Qual foi a última vez em que você se viu tentado, mesmo que momentaneamente, a fazer algo um pouquinho imoral? A mentir, trair a confiança de um amigo, furar a fila ou pegar um pouco mais do que a sua cota? Topo apostar que foi hoje. Talvez na última hora. Tentações maiores nos rondam também, especialmente aquelas envolvendo sexo e dinheiro. E, apesar disso, frequentemente e em uma proporção impressionante, nos erguemos acima dessas tentações e agimos de maneira moral. Mas como é que a batalha interna contra a tentação afeta como nossos atos são vistos pelos outros? Quem é uma pessoa melhor: aquela que age moralmente quando é tentada ou a que nem chega a ser tentada?

Existem duas vertentes de filosofia moral que, falando de maneira solta, fazem previsões opostas a respeito de quais tipos de ações serão vistas como mais morais. Um argumento, associado a Aristóteles, é que uma pessoa verdadeiramente moral irá querer fazer a coisa certa com total sinceridade e nenhuma parte dela será tentada a agir de modo imoral. Outro argumento, associado a Immanuel Kant, é que uma ação é verdadeiramente moral apenas se não é algo que você quer fazer - do contrário, uma pessoa está apenas agindo de acordo com seus desejos, e embora o resultado possa ser positivo, não deveria ser considerado especialmente moral. Esses filósofos discutem sobre quais ações deveríamos ver como mais morais. Mas qual dessas visões melhor captura como pessoas comuns realmente ponderam a respeito de moralidade?

Para responder à pergunta e desvendar de que modo as pessoas pensam sobre superar tentações ao longo da vida, minha equipe recrutou mais de 250 crianças, com idades de três a oito anos, e quase 400 adultos. Foi solicitado a cada participante que considerasse vários cenários adequados a crianças em que apareciam dois personagens que agiam moralmente. Uma história, por exemplo, descrevia duas crianças que tinham quebrado algo que pertencia à sua mãe. As duas crianças queriam contar a verdade, e queriam fazer a coisa certa. Uma criança também estava tentada a mentir para escapar do castigo, mas disse a verdade, ainda que com dificuldade. A outra criança achou fácil contar a verdade e não se sentiu tentada a mentir porque não estava preocupada com o castigo. Perguntamos, então, quais dos dois contadores da verdade tinha uma moral mais merecedora de elogios.

Encontramos uma diferença marcante relacionada ao amadurecimento: crianças de três a oito anos julgavam que alguém que faz a coisa certa sem experimentar desejos imorais é moralmente superior a alguém que faz a coisa certa depois de superar desejos conflitantes - mas adultos tiveram a intuição oposta. E esses julgamentos apareceram em algumas tentações imorais diferentes, incluindo mentir, não ajudar um irmão ou quebrar uma promessa. Eles apareceram em casos em que perguntamos qual personagem deveria ser recompensado por suas ações, qual personagem tinha “melhor caráter” ou qual personagem tinha maior probabilidade de agir moralmente no futuro.

Que adultos favorecessem o personagem em conflito foi de certa forma surpreendente, porque muitas pesquisas prévias revelaram que adultos julgam intenções e desejos negativos como moralmente passíveis de culpa. Entretanto, identificamos situações em que adultos dão mais crédito moral a pessoas que têm alguns desejos negativos, em vez de apenas desejos positivos. Isso pode ser porque, como Kant, os adultos veem o desejo de agir imoralmente como um componente essencial do que constitui um ato verdadeiramente moral, em vez de uma ação prazerosa que por acaso tem um resultado positivo. Nessa visão, é apenas quando queremos ser maus que temos a habilidade de fazer uma boa escolha.

Claro que existem tipos de tentações imorais que os adultos podem condenar de modo tão duro quanto as crianças. Por exemplo, é improvável que uma pessoa que é tentada a molestar uma criança mas que supera essa tentação seja vista como mais moral do que alguém que nunca foi tentado a molestar uma criança. Desvendar as características das tentações que levam ao reconhecimento moral e as das que conduzem à condenação é algo que estamos examinando mais de perto em seguidos estudos.

Enquanto isso, nossas descobertas até agora sugerem que as crianças começam com uma psicologia moral aristoteliana, julgando indivíduos que não têm dificuldades com decisões morais como sendo mais morais do que aqueles que têm. Mas algum tempo depois dos oito anos, elas transicionam para um enquadramento mais kantiano, julgando o valor das ações morais de acordo com a dificuldade que os atores tiveram com as ações.

Então o que muda com a idade?

Uma possibilidade é que crianças não têm experiências pessoais com conflitos internos. À primeira vista, isso parece estranho -  é certo que crianças frequentemente se comportam mal, então pode parecer que elas devem passar pela tentação de agir imoralmente o tempo todo. Mas pode ser que não seja comum que crianças se defrontem simultaneamente com o desejo de ser más e o desejo de ser boas, e que ganhar experiência com esse tipo de conflito interno pessoal à medida que ficam mais velhas as ajuda a dar valor a isso, ou pelo menos a não condená-lo nos outros. Um fator relacionado pode ser uma crescente apreciação da força de vontade em si.

Finalmente, e de forma intrigante, pode ser que as crianças naturalmente prefiram pessoas com um eu unificado. À medida que envelhecemos, entretanto, conseguimos apreciar as nuances de uma personalidade mais complexa, que permite tanto a tentação quanto a força de vontade para superá-la.

Então, na próxima vez em que você se encontrar, de maneira culpada, enfrentando tentações imorais, relaxe. Você pode até receber louvações a mais de seus amigos adultos, contanto que você faça a coisa certa no final. Seus filhos, por outro lado, estarão lhe julgando duramente!

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Christina Starmans é pós-doutora associada em psicologia na Universidade de Yale. Sua pesquisa foca no raciocínio de crianças e adultos a respeito do mundo social, incluindo tópicos como o eu, moralidade, posse, justiça e sabedoria.