Foto: Milner Moshe /Commons Wikimedia

o "contraditório" Jean-Paul Sartre
 

Você já se perguntou quantos pensamentos contraditórios tem em um dia? Quantas vezes seus pensamentos contradizem suas ações? Com que frequência seus sentimentos se opõem a seus princípios e crenças? Na maior parte do tempo, não enxergamos nossas próprias contradições - geralmente é mais fácil observar tais inconsistências nos outros. Mas, assim como eu, você está cheio de contradições. Nós humanos somos estruturalmente feitos de contradições, vivendo pacificamente, às vezes dolorosamente, com nossos eus paradoxais. Walt Whitman acertou quando ele escreveu em “Canção de mim mesmo” (1855):

Eu me contradigo?
Pois bem, então eu me contradigo,
(sou amplo, contenho multidões)

Pense sobre o que significa comprar aparelhos tecnológicos ao mesmo tempo em que se é contra trabalho infantil e lixo ambiental; ou sobre condenar o roubo, e aí baixar música e filmes ilegalmente. Pense sobre aqueles que discorrem sobre o respeito à vida privada, e momentos depois postam fotos pessoais no Facebook. Existem ambientalistas que estão constantemente em aviões; operadores do mercado financeiro que se importam com a pobreza; e padres que dão sermões, mas que perderam a fé. Sebastián Marroquín lembra de seu pai cantando canções de ninar enquanto pegava no sono - e seu pai era o senhor das drogas Pablo Escobar, o maior matador da história da Colômbia. Viver uma vida contraditória é profundamente, talvez definitivamente, humano.

A historiadora feminista americana Joan Wallach Scott argumenta que o que caracteriza um pensador crítico é sua habilidade “de apontar o dedo para as contradições”, mas pensadores críticos não escapam tampouco à contradição. Em seu livro “Le génie du mensonge” (2016)  (“O gênio das mentiras”, em tradução livre) - o filósofo francês François Noudelmann retrata Michel Foucault invocando a “coragem da verdade” enquanto escondia sua doença fatal, e Jean-Paul Sartre, o intelectual engajado, desempenhando um papel muito ambíguo durante o período Vichy (quando a França foi ocupada pelos alemães na Segunda Guerra e parte do país foi administrada por um governo fantoche).

Hoje, alguns acadêmicos globalizados têm negócios lucrativos fazendo a crítica ao capitalismo. Talvez contradições são um ingrediente necessário para estimular a criatividade intelectual. Enquanto a maior parte dos humanos se esforça para manter um senso de unidade psicológica, as contradições produzem brechas desestabilizadoras no eu. Conscientes ou inconscientes, essas fissuras alimentam a inspiração criadora, que pode ser interpretada como uma maneira de resolver ou sublimar oposições internas. Acredito que isso possa ser dito de todas as áreas da criação. Talvez arte, literatura, ciência ou filosofia não seriam possíveis sem contradições pessoais internas e o desejo de resolvê-las.

Existe alguém que viva de acordo com o princípio estóico de Plutarco, em “acordo perfeito entre as máximas dos homens e sua conduta”? Não, mas isso não é sempre motivo para uma crise. Categorizamos sabedoria, práticas e emoções. Em certos domínios da vida, alguns comportamentos e pensamentos são aceitáveis, mas não em outros. Por exemplo, mentir pode ser visto como um ato heróico quando o objetivo é proteger vítimas de um regime brutal, mas em um relacionamento amistoso é insuportável. Em laboratórios, cientistas podem produzir pesquisas baseadas em evidências dentro do contexto de suas vidas profissionais e depois ir para casa e participar de orações religiosas que lidam com a existência de entidades invisíveis.

Humanos vivem em paz com contradições precisamente por causa da sua capacidade de compartimentar. E quando declarações, ações ou emoções contraditórias saltam de sua caixa contextual, somos muito bons, talvez bons demais, em encontrar justificativas para amenizar a dissonância cognitiva. Um amigo meu ambientalista, a quem eu apontei que fumar não é um ato ecológico, costumava responder: “Eu sei, David, mas eu fumo cigarro de enrolar!”, como se cigarros enrolados fossem menos tóxicos que os industriais e não dependessem da destrutiva indústria da exploração do tabaco - que ele, claro, condena.

Contradições são onipresentes em nossa vida intrapessoal e são particularmente visíveis quando crenças fortes entram em cena, como fé, moralidade, militância, e assim por diante. Na Guiné e no Laos, onde conduzi minha pesquisa etnográfica, a maior parte das pessoas está convencida da existência de entidades espirituais que podem se transformar em uma multiplicidade de formas incompatíveis, capazes de se transformar ontologicamente em animais, plantas ou objetos, ou até de ficarem invisíveis, tudo sem a menor preocupação com a contradição. Nossa cultura popular conta com zumbis, mortos e vivos ao mesmo tempo, e robôs com emoções por demais humanas. De fato, nossas mentes são cheias dessas entidades imbuídas de qualidades contraditórias, que desafiam o “princípio da não contradição”. Ao mesmo tempo em que se imagina ser impossível ser A e não-A, na verdade, humanos adoram entidades com propriedades incompatíveis. Como já mostraram psicólogos cognitivos, tais contradições são particularmente atraentes para a mente humana. Elas desafiam expectativas ontológicas centrais que temos a respeito de animais, artefatos ou pessoas. Como resultado, elas carregam saliência e memorabilidade cognitivas importantes.

As coisas se complicam mais quando se avança para além dos limites do eu. A comunicação humana consiste de manobras sutis entre contradições, por exemplo, entre o que se diz e o que é expresso através de gestos e entonações. Como indivíduo, nos esforçamos de modo persistente para interpretar as mensagens contraditórias de nossos interlocutores e decodificar os comportamentos inconsistentes observados na vida social (o antropólogo inglês Gregory Bateson e seus colegas no grupo de Palo Alto, na Califórnia, escreveram lucidamente sobre esses fenômenos).

Existem situações sociais em que ficamos presos em injunções paradoxais, por exemplo quando um professor ordena que seus estudantes “sejam espontâneos!”. Os piores cenários implicam em um “duplo vínculo” em que crianças são inseridas nas demandas emocionais contraditórias de seus pais. Por outro lado, existem também muitas situações não patológicas descritas pelos antropólogos, tais como rituais, onde contradições são desempenhadas e valorizadas como modos de comunicação. Tome como exemplo os antigos rituais judaicos de “estapeamento”, que se realizam quando uma menina menstrua pela primeira vez. No passado, entre judeus do leste europeu, quando uma menina contava para sua mãe que tinha tido sua primeira menstruação, a mãe lhe dava um tapa na cara ao mesmo tempo em que exclamava “Mazel tov!” (parabéns!). Aqui, a natureza contraditória das mensagens constitui a fundação do ritual e os ingredientes necessários para que seja eficiente.

Tendo como ponto de partida o poeta John Keats, o psicanalista Adam Phillips em “Promises, Promises” (2000) descreve três “capacidades negativas” indispensáveis para o amadurecimento humano: a experiência de ser um incômodo, de se perder e de se sentir sem poder. Acrescentaria mais uma à lista: a habilidade de descobrir e aceitar nossas contradições, mesmo que, algumas vezes, lutemos para renunciar a elas.

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David Berliner é professor de antropologia na Universidade Livre de Bruxelas. Sua pesquisa inclui memória social e transmissão cultural. Ele vive em Bruxelas.