Foto: Elvert Barnes/Flickr

 

Uma onda de terror pelo globo tem chacoalhado as nações mais poderosas do mundo. Como resultado desses trágicos eventos e da cultura do medo que os políticos ansiam para explorar, muitas pessoas sentem que uma ameaça existencial está próxima.

Para piorar a situação, uma teoria experimental e influente comprovada pela psicologia social prevê que, enquanto uma ameaça existencial pairar, o mundo continuará ainda mais dividido e cada vez mais hostil. A Teoria da Gestão de Terror (TMT, na sigla em inglês) explica como e por que eventos que evocam pensamentos sobre morte fazem as pessoas se agarrarem às suas culturas e visões de mundo mais fortemente - ao lado daquelas com a mesma nacionalidade, identidade étnica ou política, enquanto se opõem agressivamente àquelas que não são.

Consequentemente, o aumento expressivo de mortes e ataques de terror ao redor do mundo cria uma condição psicológica radical para um movimento nacionalista de extrema direita que estimula preconceito, intolerância e hostilidade contra quem é diferente.

O surgimento do nacionalismo europeu, o Brexit no Reino Unido e o presidente eleito nos Estados Unidos Donald Trump são as mais recentes demonstrações do TMT, proposto primeiramente pelos psicólogos sociais nos anos 1980 e derivado do antropólogo cultural Ernest Becker, ganhador do Prêmio Pulitzer por seu trabalho na área de filosofia e psicológica, “A Negação da Morte” (1973).

A grande ideia de Becker era de que boa parte da ação humana é motivada pelo medo da morte. Diferentemente de outros animais, com uma maior falta de cognição e habilidade de reflexão, os humanos reconhecem o momento inevitável de sua própria morte. O conflito que resulta dessa percepção e o desejo natural de viver produzem uma desarmonia cognitiva que causa um profundo horror e ansiedade. De acordo com Becker, os humanos inventaram a cultura como um tipo de amortecedor para o terror. Ao adotar visões culturais que assumem que a vida tem significado e valor, pode-se efetivamente gerenciar o medo subconsciente que está sempre borbulhando abaixo da superfície.

Enquanto as religiões oferecem um caminho para a imortalidade por meio da crença na vida após a morte, a visão de mundo não religiosa - como as ideologias políticas e identidades nacionais - fornece um caminho para uma imortalidade simbólica. Uma imortalidade simbólica refere-se a fazer parte de algo maior que a existência individual, como um grande país ou um movimento que possui um objetivo e identidade coletivos. Boa parte do esforço humano é dedicado a ações que podem ajudar alguém a ser lembrado pelos grupos ou sociedades após sua morte.

É claro que não importa quão lógica ou intrigante uma teoria possa parecer, isso é apenas uma especulação que não são previsões testadas e confirmadas por experimentos e avaliações. O que pode ser mais impressionante sobre o TMT é seu sucesso em laboratório. Centenas de estudos empíricos têm fornecido suporte ao confirmar algo chamado de importância da hipótese da mortalidade.

De acordo com essa hipótese, se nós realmente adotamos uma visão cultural de mundo que controla o medo da morte - como o TMT supõe - logo a lembrança da morte deveria produzir ações que serviriam para fortalecer a fé em nossas visões de mundo. Especificamente, essa lembrança deveria motivar pessoas a investir mais em grupos ao qual elas pertencem e, por outro lado, em agir de modo mais agressivo em direção àqueles que possuem uma visão cultural de mundo e identidade étnica ou nacional diferentes. 

Um experimento particularmente divertido usou molho picante para medir esse fenômeno. Estudantes foram divididos em dois grupos e então designados a escrever uma redação sobre morte ou outro tema mais inofensivo. Então foram apresentados a alguém que poderia ter ou não divergência em relação a suas visões políticas, e depois decidir entre essas pessoas quem deveria consumir o molho picante. Os resultados foram ao encontro da hipótese da mortalidade e do TMT, os participantes que escreveram sobre morte escolheram as pessoas que não compartilharam de suas visões de mundo para consumir o molho picante, diferentemente dos que estavam no grupo de controle.

Outro importante estudo de mortalidade sobre agressividade conduzido em universidades americanas e iranianas mostra resultados perturbadores. Um grupo de estudantes foi instruído a anotar, o mais especificamente possível, o que eles acreditavam que aconteceria fisicamente com eles quando morressem, e também a descrever quais emoções iriam ser despertadas nesse momento. Participantes do grupo de controle deram respostas similares a uma dor de dente. Os resultados mostram que os estudantes iranianos eram mais resignados ao pensar na morte em um ataque contra os Estados Unidos, enquanto os que estavam no grupo de controle tinham ideias contrárias. Do mesmo modo, a lembrança da morte fez com que os estudantes americanos que se identificavam politicamente de forma mais conservadora estivessem resignados a ataques militares contra nações estrangeiras que poderiam matar centenas de civis. 

A partir desses resultados, é fácil ver como as nações que estão sob ataque podem rapidamente crescer mais divididas e aumentar a hostilidade contra culturas consideradas diferentes. Na verdade, estudantes têm mostrado que a lembrança da morte pode aumentar o nacionalismo e intensificar o preconceito entre outros grupos. Evidências sugerem que a lembrança da morte pode inclusive influenciar eleições, levando a votos favoráveis ao candidato de direita. Cinco semanas antes da eleição presidencial dos EUA de 2004, cientistas conduziram um estudo com os eleitores de Nova Jersey para saber se a lembrança da morte influenciava a votação diretamente. Os participantes foram questionados com a mesma pergunta sobre morte que os estudantes iranianos no estudo anteriormente mencionado, enquanto aqueles que estavam no grupo de controle receberam, paralelamente, questionamentos sobre assistir televisão. Os resultados foram surpreendentes. Os eleitores que foram estimulados a pensar na morte disseram que votariam em George W. Bush, o presidente radical e conservador, com uma margem de 3 para 1; já os que foram estimulados a pensar sobre assistir televisão disseram que votariam no candidato de esquerda, John Kerry. Esses resultados podem ajudar a explicar por que, após o ataque de 11 de Setembro de 2001, Bush foi de uma das menores taxas de aprovação para tornar-se extremamente popular entre os Republicanos e os Democratas.

Então, o que exatamente isso significa no mundo hoje? Se essa onda de terror continuar, a Teoria da Gestão de Terror prevê que as sociedades vão ter um crescimento exponencialmente mais caótico e dividido. O aumento desse tipo de agressividade contra outros pensamentos diferentes produz uma tendência que favorece a guerra à paz. O nacionalismo de direita vai crescer junto com o preconceito e a intolerância. O fundamentalismo islâmico vai evoluir enquanto a onda de ataques terroristas crescer de forma mais frequente. A tensão entre as nações vai aumentar, grupos étnicos e políticos vão liderar mais conflitos, criando um ciclo devastador de suspeitas e violência.

Porém, é crucial que não percamos o otimismo nesses tempos difíceis. Ao nos tornarmos cientes do efeito divisor que a lembrança da morte e a ameaça existencial têm em todos nós, poderemos começar a dar passos no sentido de nos defender contra isso. Depois de cada ataque terrorista, devemos trabalhar para unir grupos de diferentes nacionalidades, etnias e visões de mundo. Devemos ajudar a construir pontes entre comunidades diferentes, e desencorajar ideias como as de banimento a imigrantes. E devemos estar conscientes da forma como os políticos usam essa cultura do medo e propaganda para manipular eleitores. Tais esforços, combinados a um temperamento calmo, podem ajudar a controlar o medo da morte de forma a preservar a racionalidade, a compaixão e a paz.

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Bobby Azarian é um neurocientista cognitivo, pesquisador no Visual Attention and Cognition Lab na Universidade de George Mason, e um escritor científico que teve trabalhos publicados na “The Atlantic”, “The New York Times” e “Scientific American”, entre outras. Sua pesquisa está incluída em publicações como “Cognition & Emotion and Psychonomic Bulletin & Review”. Além de administrar o blog “Science Is Sexy”.

ESTAVA ERRADO: O trecho em que mencionava a popularidade de George W. Bush após o 11 de setembro estava sem o complemento, dando um sentido errado à referência sobre sua taxa de aprovação. O erro foi corrigido às 11h15 de 28 de novembro.