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Donald Trump vence a eleição nos EUA: a reação de acadêmicos ao redor do mundo

A eleição de Trump vai, definitivamente, fortalecer as redes neoconservadoras e fundamentalistas, alterando o balanço político global em direção ao familiarismo e nacionalismo, e se distanciando dos direitos humanos e da sociedade aberta

Donald J. Trump declarou vitória na eleição presidencial dos EUA. O candidato subiu ao palco em Nova York, pouco antes das 3h da manhã no horário local, para anunciar que sua rival, Hillary Clinton, havia lhe telefonado reconhecendo a derrota.

“Os homens e as mulheres esquecidos do nosso país não mais o serão”, disse o presidente eleito a um salão lotado de apoiadores no Hotel Hilton.

“Nós vamos ter boas relações com todas as nações que quiserem ter boas relações conosco”, ele complementou.

O que essa assombrosa virada significa para o resto do mundo? “The Conversation Global” pediu a um painel de acadêmicos internacionais uma reflexão sobre a eleição de Trump a fim de discutir a relevância desse evento para a região de cada um deles.

‘México vai enfrentar dificuldades com Trump’

Salvador Vázquez del Mercado

Professor de metodologia de pesquisa e opinião pública na Universidade Nacional Autônoma do México

Donald Trump venceu as eleições contra todas as expectativas - exceto as de seus apoiadores. A falha em prever sua vitória, parecida com o que aconteceu com o Brexit, com certeza vai assombrar as agências de pesquisa de opinião, afetando a confiança do público por um bom tempo.

As consequências de sua vitória serão, é claro, bem mais graves do que a crise nas previsões. Mesmo se Trump colocar em prática apenas uma fração de suas promessas de campanha - que parecem muito mais prováveis agora que ambas as câmaras do Congresso serão controladas pelos republicanos - os mercados vão reagir de forma bastante negativa, e o peso mexicano, que já sofreu uma significativa depreciação, deve cair ainda mais. E essas são só as consequências de curto prazo da vitória de Trump.

O muro ao longo da fronteira entre EUA e México pode ser impossível de construir, e os milhões de imigrantes sem documentos nos EUA podem não ser deportados imediatamente. E, esperamos, Trump não vai ativar os códigos nucleares. Mas sua vitória ainda assim traz problemas importantes para o futuro dos mexicanos e diversas outras minorias vivendo nos EUA, que foram constantemente criminalizadas durante sua campanha.

Para o México, o fim do Nafta levaria a uma severa restrição de comércio com os EUA, o que, aliado a um esperado crescimento nas taxas de juros ao sul da fronteira e uma redução nas remessas de dinheiro enviadas pelos mexicanos vivendo ao norte, levaria muito provavelmente a uma pesada crise econômica.

No longo prazo, a relação entre México e Estados Unidos passará por uma importante reconfiguração dado que, quando janeiro chegar, Trump provavelmente colocará em prática uma postura agressiva contra o país. O futuro é incerto, e, no curto prazo, bastante complicado.

‘O fim do projeto de democracia liberal?’

Janjira Sombatpoonsiri

Professora de Relações Internacionais da Universidade Thammasat

A subida de Trump ao poder deve colocar um ponto final à democracia liberal propagada pelos EUA e por seus aliados ocidentais na era pós-Guerra Fria. A Tailândia é um bom lugar para observar a trajetória e as consequências do fim desse projeto.

Tendo sido dominada por governos militares, a Tailândia passou por um processo de democratização no início dos anos 1990. Ela se juntou a outros países da América Latina, Ásia e Europa Oriental na chamada “terceira onda da democracia”. Nesse período, tiveram espaço a proliferação de grupos da sociedade civil e a institucionalização de ideias progressistas, particularmente sobre direito e justiça. Infelizmente, governos eleitos foram acusados de corrupção e ineficiência. E a classe média de Bangkok perdeu sua paciência, exigindo o retorno de um governo militar forte.

A presidência de Trump potencialmente envia uma mensagem a governos autoritários na Tailândia e em outras sociedades de que algumas normas intrínsecas às democracias liberais podem, agora, ser suspensas. É provável que a administração de Trump seja mais silenciosa com relação à repressão a grupos de direitos e dissidentes na Tailândia, e em outros lugares. A pressão americana para que a atual junta militar tailandesa promova eleições também pode diminuir.

Na era da democracia antiliberal, lutar pela manutenção de normas será mais difícil na Tailândia que em outros lugares. Se a democracia liberal não é mais defensável e o autoritarismo não é uma opção, forças progressistas ao redor do mundo precisam ajustar o ritmo e criar uma nova alternativa política que vai além dessa rua sem saída.

‘Para Israel, menos tensão, mas menos segurança’

Jonathan Rynhold

Professor e diretor do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Bar Ilan, em Israel

Sob Donald Trump, as relações entre EUA e Israel devem ser mais suaves que com Obama. Contudo, nas entrelinhas, Israel estará menos segura.

Há três razões para isso: primeiro, o temperamento errático de Trump; segundo, suas constantes mudanças de opinião com relação à política do Oriente Médio; e terceiro, e mais importante, seus instintos isolacionistas.

Ainda que Trump tenha dito coisas contraditórias sobre as relações Israel-Palestina, ele deve prestar menos atenção à questão e, com isso, dar mais liberdade ao governo de direita israelense em assuntos como os assentamentos. Paradoxalmente, isso vai encorajar o Obama a promover uma resolução no Conselho de Segurança da ONU sobre o assunto, em uma perspectiva que muito preocupa o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Israel se beneficia muito de um EUA internacionalista. Quando os americanos adotam uma postura mais reservada, como fizeram com Obama, o vácuo é preenchido por mais instabilidade e forças hostis. Trump é mais isolacionista que Obama, e questionou abertamente se os EUA deveriam manter os compromissos que têm com seus aliados. Isso deve encorajar os inimigos de Israel. Mesmo assim, Israel pode cuidar de si mesma, e o medo de um EUA pouco confiável deve levar Egito e Arábia Saudita a aprofundar suas cooperações estratégicas com Israel.

Finalmente, Israel enxerga o Irã como sua maior ameaça. Trump disse que adotaria uma postura mais dura com o Irã, mas no meio tempo, sua abordagem pouco engajada permitiria que o Irã aumentasse seu poder, consequentemente multiplicando os custos de enfrentá-lo no futuro.

‘Trump, um incentivo a regimes não-liberais na Europa’

Andrea Peto

Professora do Departamento de Estudos de Gênero na Universidade Central Europeia, na Hungria

Weronika Grzebalska

Socióloga especializada em militarismo, nacionalismo, violência política e políticas de direita na Academia Polonesa de Ciências

Para a Europa Central e Oriental, a vitória de Trump é um sinal verde para a consolidação de regimes majoritariamente não-liberais que prometem às pessoas um sentimento de segurança existencial ao custo das liberdades individuais, de direitos das minorias e das prestações de contas.

A eleição de Trump vai, definitivamente, fortalecer as redes neoconservadoras e fundamentalistas, alterando o balanço político global em direção ao familiarismo e nacionalismo, e se distanciando dos direitos humanos e da sociedade aberta. Estados enfraquecidos como a Polônia e a Hungria, onde a transição democrática privilegiou medidas à favor do livre mercado em detrimento de medidas sociais e culturais são as mais vulneráveis à perda de uma voz forte, democrática e à favor dos direitos humanos.

A derrota de Clinton deve servir também como um despertar aos últimos apoiadores cabeça-dura do status quo neoliberal na Europa Central e Oriental. Aqueles que ainda acreditam que as viradas contra o liberalismo na Polônia e na Hungria são apenas uma reviravolta local e provisória, que pensam ainda ser possível voltar às soluções políticas da era anterior ao não-liberalismo, terão que repensar suas posições.

Com a vitória de Trump, apoiadores dos direitos humanos são empurrados para uma situação duplamente difícil. Eles não apenas precisam proteger as pequenas provisões que ainda lhes restam e criar um espaço de resistência, mas também, ao mesmo tempo, precisam reformular sua mensagem. Essa mensagem precisa ser diferente da era pré-Trump, que foi a prisão de um discurso político tecnocrático e pretensamente racional por tempo demais. Pelo contrário, essa mensagem deve reavivar ideologias importantes e oferecer visões políticas igualmente cativantes, capazes de encantar novamente os eleitores.

‘Trump e a Índia’

Subarno Chattarji

Professor associado de estudos americanos na Universidade de Nova Delhi, na Índia

De certa forma, ainda é muito cedo para pensar no impacto da presidência de Donald Trump nas relações Índia-EUA. Contudo, é possível distinguir alguns padrões em comum entre as eleições indianas de 2014 e a americana de 2016.

A eleição de Trump representa a vitória de um homem forte - “eu sozinho posso resolver tudo” - se colocando contra a mídia e as elites políticas e intelectuais, com as quais o sistema está “aparelhado”. Sua vitória é um indicativo das inseguranças e ressentimentos de uma maioria que deseja o regresso a uma América “original”, melhor e mais pura, que era majoritariamente branca e onde todos conheciam o seu lugar.

Ainda que o isolacionismo, o excepcionalismo e a xenofobia americana não sejam novas, elas encontram uma expressão única com Trump. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, foi, de forma similar, eleito sob as premissas e promessas de melhores dias e a ideia de um homem forte e carismático liderando a nação para sair do atoleiro da pobreza, desemprego, políticas seculares, elites, apaziguamento de minorias, etc.

Assim como Trump, a atual liderança política indiana é a representação de uma mentalidade de nós-contra-eles, intolerante com os dissidentes, com o pensamento crítico, ou com instituições inconvenientes. Como era de se esperar, Trump tem muitos fãs na Índia, e entre imigrantes indianos nos EUA.

‘A visão da Europa’

Richard Maher

Pesquisador de segurança internacional, teoria da integração europeia e relações exteriores da Europa no Centro Robert Schuman de Estudos Avançados, na Itália

Em uma incrível virada eleitoral, Donald Trump venceu Hillary Clinton e se tornou o 45º presidente dos Estados Unidos. Virtualmente todas as previsões antes das eleições sugeriam uma vitória confortável ou até mesmo decisiva de Clinton. Em vez disso, Trump - um homem que muitos líderes e cidadãos europeus enxergam como manifestamente desqualificado e despreparado para a posição - se tornará em janeiro o presidente da única superpotência mundial.

A vitória de Trump está com certeza sendo recebida pelas capitais europeias nesta manhã com alarme, choque e pavor. Trump chamou a aliança da OTAN de “obsoleta”, se referiu ao presidente russo Vladimir Putin com admiração, e disse que a votação britânica de junho de 2016 pela saída da União Europeia foi “algo admirável”.

Diferentemente dos EUA, o público europeu foi brutalmente contra a ideia de Trump na presidência. Em uma pesquisa publicada pela “Economist” em 8 de novembro que mostrava como outros países votariam nas eleições americanas, grandes maiorias se colocaram a favor de Clinton. Segundo uma pesquisa da Pew Research publicada em junho, maiorias arrasadoras de europeus disseram que “não tinham confiança” que Trump “faria as coisas certas no que diz respeito aos assuntos globais”.

Agora, líderes europeus precisam antecipar como a administração de Trump vai afetar as relações entre os dois atores e os muitos desafios em comum enfrentados por Estados Unidos e Europa: uma Rússia cada vez mais assertiva, uma crise migratória implacável que ameaça deixar a Europa em pedaços, e o futuro do Reino Unido na União Europeia.

Mais amplamente, a eleição de Trump coloca em questão o futuro da liderança global dos EUA. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, os Estados Unidos, junto com parceiros europeus-chave, construíram e sustentaram uma ordem internacional aberta e sustentada por leis, definida pelo livre comércio, alianças militares e instituições internacionais como as Nações Unidas e o Banco Mundial. Com a vitória de Trump, o futuro dessa ordem internacional liberal está em xeque.

‘O que a vitória de Trump significa para o sudeste asiático’

William Case

Professor de política comparada da Universidade da Cidade de Hong Kong

Com tantos países da região já pendendo para o lado chinês, a eleição de Donald Trump para a presidência americana importa para o sudeste asiático? Sim, ao menos um pouco.

Para entender como, basta imaginar o impacto que teria a eleição de Hillary Clinton. Ela manteve um forte interesse no comércio, ainda que forçada pelos eleitores, ao longo de sua campanha, a recuar com relação à Parceria Trans-Pacífica. Ela denunciou de forma vigorosa a tomada chinesa do Mar do Sul da China, mesmo quando aqueles que reclamavam no sudeste asiático começaram a ceder à pressão. E ela ainda mantinha alguma boa vontade com relação à Indonésia - e Mianmar - que Barack Obama foi capaz de criar. Portanto, Clinton pode ter diminuído, ainda que não revertido, o avanço sufocante da China sobre o sudeste asiático.

Afinal de contas, o sudeste asiático não é uma preocupação prioritária dos EUA. Mas, para a China, é. E a China oferece incentivos irresistíveis a líderes da região, nomeadamente, investimentos praticamente infinitos e empréstimos para estradas de alta velocidade, portos e redes de energia. Para ter certeza, quando as contas chegarem e as zonas de comércio exclusivo estiverem acabadas, os cidadãos devem lamentar os termos firmados por seus líderes. Mas, até lá, a presidência de Hillary Clinton já teria acabado.

Em contraste, com Donald Trump na Casa Branca, a entrada do sudeste asiático na órbita chinesa deve acelerar. De fato, seu repúdio às relações comerciais e seu comprometimento com a segurança parecem deixar os países da região sem alternativa. E sua vitrola antimuçulmana deixa as coisas ainda piores, especialmente na Indonésia, Malásia e Filipinas.

A presidência de Trump, portanto, vai acelerar a participação chinesa no crescimento do sudeste asiático. Mas o interessante é que os custos disso para a região devem vir à tona muito mais cedo.

‘Questões no Mar do Sul da China vão para banho-maria’

Jay Batongbacal

Professor de direito da Universidade das Filipinas

A tomada presidencial de Donald Trump pode marcar o fim da Pax Americana no Pacífico asiático e derrubar qualquer barreira ao crescimento da China como uma proeminência regional.

Ações isolacionistas e com foco localizado implementadas por sua administração, à medida que tentam cumprir as promessas de campanha, devem provavelmente deixar questões como o Mar do Sul da China em banho-maria. Os padrões de cerceamento de relações externas, típico da Asean [Associação de Nações do Sudeste Asiático], levará seus membros a gravitar ao redor da China de forma ainda mais forte.

O rebalanceamento do papel americano na Ásia promovido por Barack Obama, e os comprometimentos estabelecidos pelo país na região, também podem ser severamente prejudicados pelo fato de Trump não gostar da importância que as alianças de segurança têm no projeto de liderança política e econômica global dos EUA. O único obstáculo a essas possíveis mudanças promovidas por Trump deve ser o fato de que a política geoestratégica dos EUA para o Pacífico asiático foi um assunto largamente bipartidário no congresso americano.

Mas os laços tênues de Trump com o Partido Republicano, a ausência de uma real liderança por lá, e sua falta de compromisso com os ideais republicanos colocam em questão a responsividade e a efetividade dessa política com relação a poderes regionais mais sólidos e coordenados, como China e Rússia, que terão uma oportunidade única de preencher qualquer vazio deixado pela retirada americana.

Para as Filipinas e seu presidente Rodrigo Duterte, essa é uma boa coincidência, uma vez que acomoda sua tantas vezes expressa desconfiança com relação aos EUA, sua aversão à influência americana, aos comentários do país às suas políticas domésticas.

 

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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