Como pessoas viciadas em esportes se parecem com viciados em drogas

Há coisas piores para se tornar viciado, dizem os que zombam, como se o termo ‘viciado’ fosse apenas uma metáfora. No entanto, o vício em esportes é real, não metafórico, e pode ser prejudicial

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Praticar esportes é um aspecto altamente visível da vida no século 21, com uma dimensão normativa. Os esportes geram benefícios para a saúde de seus praticantes, incentivam auto-disciplina, ajudam no desenvolvimento da personalidade e na capacidade de trabalhar em grupo. Os efeitos positivos, fisiológicos e psicológicos do esporte e de uma vida ativa são bem conhecidos cientificamente: melhora da capacidade muscular e cardiorrespiratória, redução de osteoporose e depressão e um aumento na expectativa de vida. Frente a todos esses aspectos positivos, é possível se questionar se há algum aspecto negativo envolvido na prática esportiva.

O vício em esportes soa paradoxal porque geralmente a palavra “vício” é utilizada para se referir a práticas que são reconhecidamente ruins para as pessoas, como o uso de drogas ilícitas, ou o alcoolismo. Mas há de fato um sentido segundo o qual você pode se tornar viciado em exercício físico. Até mesmo atletas medianos podem relatar a sensação de prazer depois de se exercitar, despertada pela liberação de hormônios que geram uma sensação de felicidade como dopamina e a endorfina, que causam mudança no humor. Tais efeitos, que podem ser também produzidos por drogas ilícitas e álcool, podem ter um papel na formação de hábitos. Como em qualquer forma de vício, tais sensações de pico de prazer são importantes enquanto incentivos para uma pessoa ficar presa a um vício, além claro, de outros fatores externos que também contribuem para moldar esse comportamento. Contudo, o vício em esportes não é levado a sério por todos:  “há coisas piores para se tornar viciado em” dizem os que zombam, como se o termo “viciado” fosse apenas uma metáfora. No entanto, o vício em esportes é real, não metafórico e prejudicial.

O vício em esportes possui muitos sintomas em comum com outros tipos de vícios. Ele pode causar danos ao corpo: isto ocorre em decorrência da intensidade, duração e frequência com a qual os treinos são realizados e porque não é dado tempo suficiente ao corpo para descansar da prática esportiva. O esporte pode se tornar uma tal obsessão que as pessoas não conseguem esperar o tempo suficiente para se recuperar de lesões, por exemplo. Incidentes de ataques do coração e osteoporose aumentam com altos níveis de esforços físicos, ou seja, o vício em esportes pode, em certas circunstâncias, colocar as pessoas em situações onde correm o risco de se machucarem.

Mas não se trata apenas de uma questão de danos físicos: os viciados em esportes podem desenvolver um dano psicológico, ao se tornarem altamente dependentes da atividade física e do treino para se sentirem bem, e a vida sem o treino se torna algo sem graça. Ou eles ainda podem desenvolver uma tolerância a esse pico de sensação de alegria e assim precisar, cada vez mais, se exercitar com maior intensidade ou por maior período de tempo para alcançar a mesma sensação de prazer. Quando não se exercitam, podem experimentar efeitos como depressão e ansiedade. Além disso, a prática excessiva de esportes enquanto uma forma de vício pode ter aspectos sociais negativos: viciados cancelam encontros sociais porque preferem treinar a encontrar amigos, familiares e até mesmo, em alguns casos, trabalhar. Ou não estão mentalmente presentes quando estão com outras pessoas, de tão preocupados pensando em como se preparar para a próxima sessão de treinos.

A complexidade do debate sobre o vício em esportes se dá porque, em alguma medida, uma certa quantidade de atividade física e de prática esportiva é benéfica, mas, em altas intensidades pode de fato se tornar algo que causa danos a quem a pratica. Contudo, tais danos ainda não são amplamente reconhecidos ou entendidos, e um dos fatores que contribui para esse cenário é a percepção social de que o vício em esportes difere significativamente de outras formas de vícios.

Mas é simples assim? O vício em esportes é algo que sempre deve ser visto como um motivo de vergonha, ou algo que deve ser tratado e superado? Em outras áreas que envolvem esforço e coragem, danos são tolerados quando se tem em mente o objetivo final de obter um resultado extraordinário. Nesses casos, tais danos são até entendidos como o preço a ser pago para alcançar tal nível de excelência. Muitas bailarinas profissionais destruíram seus pés, por exemplo. Muitos músicos possuem lesões resultantes da intensa prática e em decorrência da repetição de performances. Outro caso ilustrativo são lutadores de boxe profissionais que sofrem danos cerebrais por conta da série de lutas que realizam, e atletas, como jogadores de futebol ou de rugby, que sofrem lesões sérias durante treinamentos de alto rendimento.

Mas essas são pessoas talentosas capazes de realizar coisas belas, excitantes e perigosas, que pessoas comuns nunca conseguirão fazer. Todas essas pessoas são viciadas? Provavelmente não. No entanto, muitas delas vivem numa linha fina entre devoção e vício e ilustram como a devoção obsessiva, para além de níveis ordinários, possui o duplo potencial de gerar resultados extraordinários e danos pessoais significativos. Se nós valorizarmos as conquistas, talvez tenhamos que aceitar que teremos alguns danos colaterais no processo de obtê-las.

Karin Jongsma é uma especialista em bioética no Centro Universitário de Estudos Médicos de Göttingen, na Alemanha. Seus temas de interesse são: identidade, tecnologia e autonomia. Atualmente ela está trabalhando em um projeto de pesquisa sobre a representação coletiva de políticas de saúde.

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