Qual o legado de Jô Soares para o humor brasileiro

Humorista e apresentador morreu aos 84 anos. Foi pioneiro tanto em formatos, quanto nos temas abordados

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    Temas

    O “Gordo” se foi: Jô Soares morreu nesta sexta-feira (5), aos 84 anos. O humorista, apresentador e ator estava internado desde o dia 28 de julho no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para tratar uma pneumonia. A causa da morte ainda não foi divulgada.

    O anúncio foi feito por Flávia Pedra, ex-esposa de Jô, e pela assessoria de imprensa do hospital. “Agradeço aos senhores Tempo e Espaço, por terem me dado a sorte de deixar nossas vidas se cruzarem. Obrigada pelas risadas de dar asma, por nossas casas do meu jeito, pelas viagens aos lugares mais chiques e mais mequetrefes”, escreveu Pedra.

    Jô foi uma das figuras mais importantes do humor brasileiro, sendo pioneiro em trazer ao país formatos consagrados de se fazer comédia e por tratar de temas sensíveis durante o período da ditadura militar (1964-1985).

    Neste texto, o Nexo explica qual foi o legado de Jô Soares para o humor brasileiro.

    Dos sonhos de diplomacia à TV

    Jô sonhava em ser diplomata. José Eugênio Soares nasceu em 16 de janeiro de 1938 e era filho único do empresário Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares. Ele estudou na Suíça, e via na diplomacia – profissão de seu bisavô materno, Filipe José Pereira Leal, ex-governador do Espírito Santo – o caminho a seguir.

    Na infância e início da adolescência, estudou no Lycée Jaccard, na Suíça, visando a diplomacia. Porém, durante o período escolar, percebeu que seu humor natural e a criatividade eram mais atrativos.

    Em 1956, estreou na TV como roteirista e, posteriormente, ator da “Praça da Alegria”, humorístico criado por Manoel de Nóbrega e que existe até os dias de hoje sob o nome de “A Praça é Nossa”. Desde então, ele nunca abandonou a carreira artística, sendo ator, escritor, diretor e apresentador.

    Jô foi pioneiro em duas ocasiões: em 1965, criou, ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega, a “Família Trapo”, primeira sitcom do Brasil. O formato de comédia televisionada com situações inusitadas do cotidiano já estava consagrado nos EUA com sucessos como “I Love Lucy” (1951), mas ainda era inédito no país.

    Posteriormente, em 1988, foi o responsável por trazer ao Brasil os talk shows noturnos, também grandes sucessos nos Estados Unidos. Começou com o “Jô Soares Onze e Meia”, no SBT, e, entre 2000 e 2016 comandou o “Programa do Jô”, na Globo.

    Quando deixou a TV, em 2016, viveu uma vida reclusa, com poucos trabalhos. Sua última empreitada foi dirigir a peça “A noite”, em 2018.

    Em sua vida pessoal, Jô foi casado três vezes. Ele teve um único filho, Rafael Soares, que morreu em 2014. Ele era autista e, nas poucas vezes que Jô falou publicamente sobre ele, descreveu Rafael como sendo genial, e comparando-o ao protagonista do filme “Rain Man”, de 1988, no qual Dustin Hoffman interpreta um gênio autista.

    As fases de Jô Soares

    Jô, o ator

    Como ator, Jô apareceu em uma novela – “Ceará contra 007”, da Record em 1967, interpretando o protagonista Jaime Blonde, paródia do espião James Bond –. Também atuou em 29 filmes e em 28 peças de teatro, que iam de textos clássicos de Shakespeare à produções autorais como “Brasil, da censura à abertura”, de 1981. Um momento marcante de sua carreira cinematográfica foi a participação na chanchada “A mulher de todos”, de 1969, como o Doktor Plirtz. O longa é considerado um dos 100 melhores filmes nacionais já feitos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

    Jô, o humorista

    Como humorista e roteirista de humor, Jô teve três principais programas: o primeiro foi “Faça humor, não faça guerra”, de 1971 a 1973, na Globo; o segundo foi “Viva o gordo”, também da Globo, entre 1981 e 1987; e, por fim, “Veja o gordo”, do SBT, entre 1988 e 1990. Foram nesses programas, todos sucessos absolutos, que alguns personagens icônicos de Jô surgiram, como o Capitão Gay, e os religiosos, ao lado de Paulo Silvino.

    Jô, o apresentador

    Em 1988, querendo experimentar novos formatos, Jô propôs a Silvio Santos a criação de um talk show inspirado nos programas de entrevistas noturnos dos EUA. Surgiu então o “Jô Soares Onze e Meia”, que ficou 12 anos no ar. Em 2000, saiu do SBT e retornou à Globo com o “Programa do Jô”, que foi exibido por 16 anos. Todos foram sucesso de audiência.

    Jô, o escritor

    Por influência do autor Rubem Fonseca (1925-2020), Jô escreveu seu primeiro romance em 1995. “O Xangô de Baker Street” é uma paródia das histórias do detetive Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle. Posteriormente, assinou mais quatro romances. O último foi “As esganadas”, de 2011.

    O legado de Jô para o humor brasileiro

    Além do pioneirismo com formatos, Jô também foi importante ao abordar temas sensíveis durante os anos finais da ditadura militar.

    Um personagem como o Capitão Gay, assumidamente homossexual, mas cuja orientação sexual não era o alvo das piadas, era algo inédito e até certo ponto, pioneiro na TV aberta de um país que ainda é profundamente homofóbico. “Sim! Capitão Gay! Gay que quer dizer alegria, gay que quer dizer super-herói, gay que quer dizer assumido como eu”, dizia os personagens nas esquetes.

    “Uma vez um deputado em Recife me telefonou e disse ‘Você não sabe como é difícil ser gay aqui no nordeste”, disse Jô ao programa Conversa com Bial em 2018. “E ele queria que eu subisse no palanque com ele vestido de Capitão Gay.”

    Depois da redemocratização, Jô permaneceu tocando em temas políticos, sem se esquivar de posicionamentos. Em 2014, um membro da plateia de seu programa manifestou apoio ao então deputado Jair Bolsonaro. O apresentador rebateu na hora. “Quem é que gritou esse absurdo?”, questionou. “Eu já ouvi muita bobagem na minha vida, mas essa supera.”

    Entre 2019 e 2020, Jô publicou, no jornal Folha de S.Paulo, uma série de cartas abertas a Bolsonaro, falando de temas como o nazismo e a tentativa do presidente em indicar seu filho Eduardo para ser embaixador do Brasil nos EUA.

    Para o comediante e professor de comédia Fábio Lins, Jô deixou um legado de inspiração para todas as gerações de humoristas que vieram depois dele. “Todos os artistas e comediantes que eu conheço viam uma entrevista com o Jô como o auge da carreira”, disse ao Nexo. “O Jô está no imaginário das pessoas, está no inconsciente coletivo.”

    “Para a minha geração de humoristas, que estava ali no começo do stand-up, ele também foi muito importante por fazer o quadro ‘Humor na caneca’. Eu participei, vários outros participaram. Era um selo de garantia do nosso trabalho.”

    “E tudo o que ele fez antes do programa de entrevistas também marcou gerações e gerações. Foi uma figura muito importante”, afirmou Lins.

    Na visão de Luiz Zanin Oricchio, jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, Jô foi um artista múltiplo. “Fazia de suas entrevistas diálogos com os entrevistados. Como se fossem conversas de bar. Não chamava ninguém de senhor e provoca uma intimidade instantânea, o que pode ser intimidante para gente mais travada. Perguntava e comentava no mesmo nível dos entrevistados”, afirmou em texto publicado nesta sexta-feira (4).

    “Tanta inteligência, distribuída por tantos campos de atuação, o mantiveram à tona mesmo quando os tempos foram mudando. Jô fez sucesso durante mais de meio século, o que é reservado a poucos”, disse.

    Camila Appel, jornalista, escreveu na Folha de S.Paulo, enxerga um legado genial deixado pelo humorista. “Jô Soares tinha o humor como visão de mundo e se estabeleceu como um dos artistas mais conhecidos do Brasil, à disposição todas a noites na casa das pessoas, entretendo e informando, para sempre se despedir com o beijo do gordo.”

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