Como Taiwan põe EUA e China em tensão diplomática

Presidente da Câmara dos Representantes americana visita território chinês que luta por independência, mesmo após ameaças de retaliação por parte do governo de Pequim

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    Em meio a uma viagem a países asiáticos, a presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, visitou nesta terça-feira (2) Taipei, capital de Taiwan, território anexado pela China que reivindica independência. A viagem ocorreu mesmo após ameaças de represália por parte do governo de Pequim.

    Essa é a primeira visita de um chefe de Parlamento americano a Taiwan em 25 anos. A última foi do republicano Newt Gingrich, que ocupava o mesmo cargo de Pelosi e foi a Taipei em 1997.

    Trata-se de um movimento relevante da terceira mais alta autoridade eleita dos EUA - depois do presidente Joe Biden e da vice, Kamala Harris - que deve aumentar a tensão entre as duas maiores potências econômicas globais.

    Neste texto, o Nexo mostra as reações de Washington e Pequim, explica a situação de Taiwan e traz avaliações de especialista em estudos da Ásia sobre o choque diplomático.

    Reações à visita de Pelosi a Taiwan

    A escalada de tensão entre EUA e China começou uma semana antes da visita de Pelosi. Em meio à expectativa da viagem da parlamentar, os presidentes dos EUA, Joe Biden, e da China, Xi Jinping, tiveram uma conversa tensa na quinta-feira (28), por telefone, durante a qual o chinês disse ao americano que os EUA estavam “brincando com fogo”.

    Em maio, o próprio Biden deu uma declaração contraditória ao concordar com a política de “uma única China”, mas dizer que defenderia militarmente a ilha se fosse necessário.

    “A China adotará seguramente medidas fortes em defesa de sua soberania e integridade nacional. Os EUA precisam respeitar o princípio da ‘China única’, os três comunicados sino-americanos e manter a promessa de Joe Biden de não apoiar a independência de Taiwan”, declarou Zhao Lijian, integrante do Ministério das Relações Exteriores chinês.

    Outra porta-voz da pasta de Relações Exteriores do país asiático, Hua Chunying, disse que “os EUA carregarão a responsabilidade e pagarão o preço por minar a soberania e a segurança da China”.

    Washington condenou as ameaças chinesas, mas também tentou diminuir a escalada de tensão, alegando que o gesto de Pelosi, ao qual Biden se opôs, não representa uma mudança na política externa americana.

    “Não há razão para Pequim transformar uma potencial visita consistente com a política de longa data dos EUA em algum tipo de crise ou conflito, ou usá-la como pretexto para aumentar a atividade militar agressiva dentro ou ao redor do Estreito de Taiwan”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional americano, John Kirby, em declaração à imprensa. A visita de Pelosi é especialmente polêmica porque ela é crítica do governo chinês. Por isso a viagem foi considerada uma provocação.

    “Essa afronta relativiza o princípio basilar das relações com Pequim, que é de ‘uma única China’. É um atentado aos olhos de Pequim à ideia de uma China única e indivisível”, disse Renan Holanda, professor relações internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisador do Instituto de Estados da Ásia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

    Quem é Pelosi

    Pelosi, de 82 anos, é a personagem central no mais recente imbróglio diplomático entre Estados Unidos e China. A democrata fez história em 2007, ao se tornar a primeira mulher presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, cargo para o qual foi eleita novamente em 2019. Isso faz dela a segunda na linha sucessória do país.

    Ela é malvista por Pequim por ter participado em 1991 de um protesto na praça da Paz Celestial contra um massacre de estudantes, que ocorreu em 1989. Além disso, Pelosi visitou o Tibet, região autônoma chinesa, em 2015, tem falado regularmente sobre questões de direitos humanos em relação ao país e se encontrou com o Dalai Lama, que Pequim considera um separatista violento.

    A congressista também manifestou apoio ao movimento pró-democracia em Hong Kong, região que mantém certa autonomia em relação ao governo de Pequim, em 2019.

    “A visita de nossa delegação congressual honra o comprometimento inabalável dos EUA com o apoio à vibrante democracia de Taiwan”, disse Pelosi ao desembarcar. “A solidariedade da América com os 23 milhões de habitantes de Taiwan é mais importante hoje do que nunca, pois o mundo enfrenta uma escolha entre autocracia e democracia.”

    Taiwan para China

    A ilha de Taiwan ficou sob controle chinês pela primeira vez no século 17, quando a dinastia Qing passou a administrá-la. Em 1895, eles entregaram a ilha ao Japão depois de perder a primeira guerra sino-japonesa, mas tomou novamente o território em 1945, depois que o Japão perdeu a Segunda Guerra Mundial.

    Com a revolução em 1949, os comunistas liderados por Mao Tsé-tung criaram a República Popular da China no continente. Diversos representantes do governo capitalista de Chiang Kai-shek, derrotado pelo exército comunista, se refugiaram em Taiwan e criaram a República da China na ilha. Desde então a ilha é considerada uma província rebelde por Pequim.

    Na época, Taipei mantinha relações diplomáticas com diversos países e assento na ONU (Organização das Nações Unidas) até meados da década de 1970, quando alguns países argumentaram que o governo de Taipei não podia mais ser considerado um representante genuíno das centenas de milhões de chineses que viviam na China continental.

    Em 1971, a ONU mudou o reconhecimento diplomático de Taipei para Pequim, que passou a ser o único representante da China perante o organismo internacional. Washington reconheceu Pequim e estabeleceu formalmente relações diplomáticas em 1979, mas desde então mantêm relações com a ilha, sem o devido reconhecimento diplomático.

    Taiwan tem constituição própria, governo democraticamente eleito, PIB (Produto Interno Bruto) e forças armadas. Contudo, apesar de ter todas as características de um estado independente e um sistema político distinto da China, Taiwan permanece como território chinês.

    Um ponto relevante é o econômico. Grande parte dos equipamentos eletrônicos usados no dia a dia das pessoas, como telefones, computadores e relógios, usa semicondutores fabricados pela TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company). A empresa domina mais da metade do mercado mundial do setor. Autoridades americanas e europeias têm feito apelos a Taiwan desde o fim de 2020, na tentativa de persuadir a empresa a colaborar com os interesses nacionais de outros países.

    O governo chinês, contudo, vem aumentando a pressão diplomática e militar contra a ilha desde 2016, quando Tsai Ing-wen se elegeu presidente. Ela é a favor da independência de Taiwan.

    Guerra na Ucrânia: China e Rússia

    A invasão da Ucrânia pela Rússia mexeu no tabuleiro da geopolítica internacional, com países ocidentais, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, se alinhando a Kiev e Moscou buscando alianças em países africanos e asiáticos, como a China e a Turquia.

    Embora não tenha uma posição deliberada a favor da Rússia, os sinais de Pequim em apoio a Moscou são claros. Xi Jinping se recusou a condenar a invasão russa no Conselho de Segurança da ONU e pela mídia internacional e criticou o que considerou um “abuso” de sanções ao país vizinho. Diante disso, os países têm ampliado as parcerias militar e econômicas.

    “Não ficou deliberado por parte da China ficar do lado da Rússia, mas é o movimento que tem sido feito. Há um paralelo muito imediato entre a questão da Crimeia para a Rússia e de Taiwan para a China”, afirmou Holanda.

    Em apoio à China, Moscou afirmou nesta terça-feira (2) que a viagem de Pelosi é uma provocação a Pequim e se disse solidário ao país asiático, em uma crítica aos EUA. “Isso está provocando a uma situação na região e levando a um aumento das tensões. Vemos isso, todos os países notaram”, disse Dmitry Peskov, porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, em declaração à imprensa. “A extrema sensibilidade [da China] a essa questão é compreensível e absolutamente justificada”.

    O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, já havia reiterado que Moscou apoia a política de “uma única China”. “Não temos nenhum problema em defender o princípio da soberania da China”, disse.

    Quais as dimensões da tensão

    Desde o governo do ex-presidente americano Donald Trump, do partido Republicano, a tensão entre EUA e China aumentou. A retórica agressiva e a política protecionista de Trump, sobretudo contra produtos chineses, acirrou os ânimos com Pequim.

    “Sob Biden, a tensão arrefeceu, mas há um consenso na visão da elite norte-americana de que a China precisa ser contida”, disse o professor da UERJ.

    Holanda destacou dois pontos sensíveis da tensão que envolve os dois países: a questão tecnológica, com a Huawei e a tecnologia 5G, e os arranjos geopolíticos para a contenção do país asiático na região do Indo-Pacífico feito pelos EUA, com o Quad (Diálogo Quadrilateral de Segurança), grupo informal que envolve EUA, Austrália, Japão e Índia, e o pacto militar conhecido como Aukus, que envolve EUA, Reino Unido e Austrália.

    “Todos esses países estão sendo atraídos para blocos de contenção à China desde o governo Barack Obama. Mas, com Biden, houve uma reestruturação da estratégia de contenção, o que tem incomodado Pequim”, disse o professor da UERJ.

    Holanda avaliou que um enfrentamento militar não é do interesse de nenhum dos dois países. Ele avalia que haverá um aumento da tensão no âmbito da retórica, de sanções chineses a Taiwan e uma maior mobilização militar de EUA e China.

    “Não é do interesse de nenhuma das partes, vide o baque que seria na economia internacional que caminha para uma recessão, e os dois países serem interdependentes. Eles estão entre os maiores parceiros comerciais um do outro”, afirmou.

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