10 perguntas e respostas sobre a varíola dos macacos

O ‘Nexo’ detalha pontos-chave sobre o surto da doença no Brasil e no mundo, os principais sintomas e cuidados para evitar a transmissão

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    Considerada uma emergência de saúde global pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde 23 de julho, a varíola dos macacos já tem cerca de 1.200 casos confirmados no Brasil. A situação do país, que confirmou a primeira morte pela doença em 29 de julho, foi descrita como preocupante pela entidade.

    O óbito foi um de poucos registrados fora do continente africano, onde a varíola dos macacos é endêmica. O Ministério da Saúde brasileiro anunciou a compra de vacinas contra a doença, mas não há previsão de imunizar a população de forma massiva.

    A doença tem baixa letalidade e transmissão mais difícil que o vírus que causa a covid-19, mas oferece riscos e demanda cuidados diferentes, segundo autoridades de saúde. Neste texto, o Nexo responde a dez perguntas sobre a situação da doença no Brasil e no mundo, os sintomas, a letalidade e as formas de prevenção.

    O que é a varíola dos macacos?

    A varíola dos macacos é uma zoonose viral, ou seja, uma doença que tem origem em animais. Ganhou o apelido porque foi identificada pela primeira vez em macacos de laboratório. É considerada endêmica em regiões da África. O primeiro caso em humanos foi registrado na República Democrática do Congo, em 1970. Desde então, ela se tornou relativamente comum na África Central e na África Ocidental.

    O vírus causador pertence à mesma família (poxvírus) e subgrupo (ortopoxvírus) da varíola humana – muito mais letal e erradicada em 1980 com auxílio da vacinação. As doenças têm semelhanças nos sintomas e na evolução do curso clínico do hospedeiro em humanos, mas a varíola dos macacos geralmente é leve, e não costuma trazer grandes complicações.

    Qual a situação da doença no mundo?

    O número de casos confirmados no mundo passa de 20 mil, em 78 países, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) de sexta-feira (29). Até sábado (30), foram três mortes confirmadas fora do continente africano e cinco na África no atual surto. Além do Brasil, a Espanha confirmou dois óbitos relacionados à doença.

    A OMS declarou a varíola dos macacos uma emergência sanitária global em 23 de julho. A decisão é um alerta para os países monitorarem a doença e implementarem ações para conter a circulação do vírus.

    Segundo especialistas, como já existem muitos estudos sobre a varíola dos macacos, trata-se de uma situação diferente de quando surgiu a covid-19, até então uma doença nova. O alerta é de que o sucesso do combate ao surto depende da rápida ação do poder público.

    Qual a situação do Brasil?

    Mais de 1.200 casos foram confirmados no Brasil até sábado (30), com a maioria das ocorrências nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O primeiro óbito num paciente com a doença foi confirmado na sexta-feira (29), na capital mineira.

    O Ministério da Saúde está tratando a varíola dos macacos como surto e criou um comitê de acompanhamento da doença. O surto é o primeiro estágio da evolução de contágio, antes da epidemia e pandemia, como é o caso da covid-19 atualmente. Ocorre quando há um aumento repentino do número de casos de uma doença em uma região específica. O primeiro caso de contaminação no país foi confirmado em São Paulo há menos de dois meses, em 8 de junho.

    A líder técnica da OMS para a doença, Rosamund Lewis, disse em 26 de julho que a situação no Brasil “é muito preocupante” e que os casos podem estar subnotificados por falta de testagem. O país tem poucos laboratórios autorizados a fazer exames.

    Quais os sintomas da varíola dos macacos?

    Os primeiros sintomas são febre, dor de cabeça, dores musculares, fadiga e inchaço nos linfonodos (conhecido popularmente como “íngua”). Em geral, de um a cinco dias após o início da febre aparecem lesões na pele, que são chamadas de exantema ou rash cutâneo (manchas vermelhas). Inicialmente elas aparecem na face e vão se espalhando para outras partes do corpo. As lesões vêm acompanhadas de coceira.

    Segundo a OMS, no entanto, muitos casos em áreas recentemente afetadas não estão apresentando esse quadro clínico típico, o que exige atenção redobrada. Características que fogem a esse sintomas incluem:

    • apenas algumas ou mesmo uma única lesão na pele
    • lesões na área genital ou do ânus que não se espalham mais
    • lesões que aparecem em diferentes estágios de desenvolvimento
    • aparecimento de lesões antes do início da febre, mal-estar e outros sintomas

    Segundo o Ministério da Saúde, quem tiver sintomas deve procurar uma unidade de saúde, informar os contatos próximos e isolar-se o mais rápido possível.

    Como acontece a transmissão?

    A transmissão da doença se dá por contato próximo com uma pessoa infectada, especialmente se há contato com lesões de pele, secreções respiratórias, fluidos corporais, ou objetos, tecidos e superfícies utilizados pela pessoa contaminada.

    Apesar do aumento recente de casos, a varíola dos macacos não costuma ser transmitida tão facilmente. O Centro de Controle de Doenças dos EUA reforça que os cientistas ainda estão conduzindo estudos para entender se o vírus pode ser transmitido por pessoas assintomáticas e quão comum é a transmissão por vias respiratórias.

    A doença afeta mais os homens?

    Atualmente, homens que tiveram relações sexuais com outros homens configuram grande parte dos casos registrados e há um padrão de transmissão associado com a atividade sexual, conforme estudo publicado no The New England Journal of Medicine conduzido em 16 países. Por isso, autoridades sanitárias consideram importante que homens gays e bissexuais fiquem alertas ao risco de contágio.

    Mas a varíola dos macacos não está restrita a esse público, e há uma preocupação em não criar estigmas que possam ampliar preconceitos e prejudicar o combate à doença. O secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, reforçou na sexta-feira (29) que qualquer pessoa pode contrair o vírus. “A principal forma de transmissão é o contato pele com pele”, disse.

    A varíola dos macacos causa complicações e mortes?

    De acordo com a OMS, nos últimos anos a taxa de letalidade da varíola dos macacos ficou entre 3% e 6% nos países endêmicos. No surto atual, o número de mortes registrado até agora é de menos de 10 casos, entre cerca de 20 mil infectados. A entidade estima que 10% dos pacientes tiveram de ser internados por causa da enfermidade no mundo.

    Alguns grupos estão mais vulneráveis a complicações, segundo autoridades de saúde: é o caso de recém-nascidos, crianças de até oito anos, grávidas e pessoas com imunossupressão (que têm o sistema imunológico enfraquecido). De acordo com a OMS, possíveis complicações incluem pneumonia, confusão mental e infecções de pele e oculares.

    A primeira morte registrada no Brasil foi de um homem de 41 anos que, segundo o Ministério da Saúde, tinha câncer, estava internado em Belo Horizonte e fazia quimioterapia, além de sofrer com um caso grave de imunossupressão.

    Qual a situação entre crianças?

    Atualmente o Brasil tem três casos da doença confirmados em crianças, todos em São Paulo – duas meninas de seis anos de idade e um menino de quatro anos. Segundo o secretário municipal de Saúde, Luiz Carlos Zamarco, os pacientes estão sendo monitorados e têm sintomas leves. Apresentaram bolhas na pele (vesículas), dilatação nos gânglios e febre.

    Ao jornal Estado de Minas, o pediatra, epidemiologista, mestre em medicina tropical e professor emérito da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais José Geraldo Leite Ribeiro disse que “as formas mais graves de monkeypox ocorrem nas crianças, nas gestantes, inclusive, com risco de atingir o feto, e nas pessoas que têm imunodeficiência”. Ele reforçou que esse conhecimento é baseado na forma da doença endêmica na África, mas que é “provável” que esse padrão se reproduza em outros países.

    Como se prevenir da doença?

    Segundo autoridades sanitárias, a principal forma de proteção é evitar contato direto com pessoas contaminadas. O Centro de Controle de Doenças dos EUA lista três passos para se proteger:

    • Evitar o contato pele a pele com pessoas com erupções cutâneas que se parecem com as da varíola dos macacos, e não encostar nas feridas
    • Evitar o contato com objetos e materiais usados por alguém com a doença, como utensílios domésticos, roupas e lençóis
    • Lavar as mãos com frequência ou usar álcool em gel, especialmente antes de comer e tocar o rosto, e depois de usar o banheiro

    Dada a concentração de casos entre homens que se relacionam com outros homens, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, defendeu em 23 de julho recomendações comportamentais como reduzir o número de parceiros sexuais até a contenção do surto. “A melhor forma de frear a taxa de transmissão é reduzir o risco de exposição. Isso significa fazer escolhas seguras para você e para os outros”, disse.

    Quais tratamentos e vacinas estão disponíveis?

    O tratamento para a varíola dos macacos é baseado em suporte clínico e medicação para alívio da dor e da febre. Os sintomas costumam durar entre duas e quatro semanas, e desaparecem sozinhos. Um antiviral chamado tecovirimat, que bloqueia a disseminação do vírus, já é usado em alguns países, mas ainda não está disponível no Brasil.

    “A varíola dos macacos causa uma erupção cutânea que pode ser desconfortável, pode causar coceira e pode ser dolorosa. Portanto, a coisa mais importante ao cuidar de alguém com essa doença é cuidar da pele e de quaisquer sintomas que alguém possa ter”

    Rosamund Lewis

    líder técnica da OMS para a varíola dos macacos

    A farmacêutica dinamarquesa Bavarian Nordic tem uma vacina específica contra a doença, que já começou a ser usada em alguns países mas ainda tem produção limitada.

    O Ministério da Saúde brasileiro anunciou um acordo para importar 50 mil doses da vacina. A previsão é que as primeiras cheguem em setembro, e sejam aplicadas em profissionais de saúde que lidam com a doença e pessoas que tiveram contato com infectados. A aquisição será feita por meio de convênio com a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).

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