Qual o papel que a China exerce no Sri Lanka

Governo chinês trabalhou pela ascensão da dinastia Rajapaksa ao poder e agora se adianta para oferecer crédito para a recuperação de um país devastado por essa mesma gestão

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    O Sri Lanka faliu economicamente em 12 de abril. O presidente do país, Gotabaya Rajapaksa, fugiu de avião para Cingapura na quarta-feira (13), dois meses depois de o irmão dele, o primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa, ter renunciado. A população ocupou os prédios públicos, incluindo a residência oficial da dupla que governou o país por mais de 15 anos.

    A ascensão e queda da dinastia dos Rajapaksa acompanha a história da influência da China no país. A potência asiática é a maior credora individual das dívidas cingalesas e a maior investidora nas obras de infraestrutura que, tocadas pela administração dos Rajapaksa, criaram as condições para que a família ascendesse ao poder, governasse por anos e, no fim, caísse em desgraça, com as contas esfrangalhadas pelos efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia.

    Neste texto, o Nexo mostra qual a situação do Sri Lanka e dimensiona, a partir de uma entrevista com um estudioso do tema, a importância da China neste contexto.

    Qual a situação do Sri Lanka

    O Sri Lanka vive sua maior crise econômica e política desde que deixou de ser colônia do Reino Unido, em 1948. O colapso teve início com os efeitos negativos da pandemia sobre o turismo, que é o motor da economia nacional, e se acentuou com os efeitos da guerra na Ucrânia sobre a economia mundial, especialmente sobre a disponibilidade dos combustíveis na bomba e com o preço do produto – um problema que provoca efeito em cascata em todos os setores da economia.

    Mapa_Sri

    Além disso, nos últimos anos, os irmãos Rajapaksa criaram um excêntrico programa de agricultura orgânica em escala industrial que revelou-se um fracasso. Eles proibiram a importação de diversos fertilizantes e defensivos agrícolas, o que diminuiu a produtividade e os lucros do setor, e impactou a disponibilidade de alimentos.

    Em 12 de abril, o governo decretou moratória, o que significa ter notificado os credores de que não dispõe mais de recursos para seguir pagando o que deve. A medida dificultou ainda mais a obtenção de novos empréstimos internacionais, e a economia local mergulhou numa espiral descendente.

    A dívida total é de US$ 51 bilhões (R$ 261 bilhões na cotação desta quinta-feira, 14 de maio), dos quais US$ 31 bilhões (R$ 159 bilhões) são devidos à Índia e à China. A bancarrota empurrou o país na direção do FMI (Fundo Monetário Internacional), que estuda um plano emergencial de socorro.

    O presidente do Sri Lanka não é visto em público desde 9 de julho, quando milhares de pessoas invadiram a casa dele, na capital, Colombo. Na quarta-feira (13), ele tentou fugir com a esposa e com o irmão dele, Basil Rajapaksa, ex-ministro das Finanças, para os EUA, via Dubai, mas todos foram barrados pelos agentes de imigração do próprio país. Horas depois, conseguiram partir num voo militar para Cingapura, passando antes pelas Ilhas Maldivas.

    O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, que tinha assumido o posto no lugar de Mahinda Rajapaksa, foi nomeado presidente interino do país. Em seu primeiro discurso em cadeia de rádio e TV, nesta quarta-feira (13), ele decretou toque de recolher e declarou: “Não podemos permitir que os fascistas tomem o controle”. Wickremesinghe deve tentar ficar no poder até a próxima eleição, que está marcada para 2024.

    Qual a importância da China neste contexto

    Com a moratória cingalesa, a China – que já é o principal credor individual do Sri Lanka e financia diversas grandes obras de infraestrutura no país – correu para oferecer US$ 3 bilhões (R$ 16,3 bilhões no câmbio desta quinta-feira, 14 de julho) em créditos suplementares, de acordo com fontes do governo em Colombo ouvidas pelo jornal americano The Wall Street Journal. A oferta é uma tentativa de Pequim de evitar que o Sri Lanka recorra ao FMI.

    Maurício Santoro, professor de relações internacionais na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), especialista em China, disse ao Nexo, por telefone, nesta quinta-feira (14), que os chineses tiveram papel central na ascensão da família Rajapaksa ao poder e querem continuar sendo protagonistas agora, no momento em que o país busca um desfecho para esta crise.

    O caso do Sri Lanka é, segundo ele, um exemplo do papel cada vez mais ativo que a China desempenha em relação a países em desenvolvimento, e reflete também os dilemas que esse maior envolvimento engendra, não apenas pela rivalidade que desperta nos EUA, na Europa e nas instituições ocidentais, como o FMI, mas também pelos problemas que esse protagonismo pode causar para os próprios interesses chineses, que se veem ameaçados em situações de grande instabilidade, incerteza e perturbação interna, como acontece no Sri Lanka.

    “A China colocou muito dinheiro no Sri Lanka, um país que é instável politicamente, que saiu de uma guerra civil em 2009, trazendo consigo feridas recentes e muito profundas”, disse Santoro, referindo-se ao conflito entre forças do governo e rebeldes do movimento guerrilheiro Tigres para a Libertação do Tamil-Eeelam, que, dos anos 1980 aos anos 2000, reivindicavam a criação de um território autônomo para sua minoria étnica, mas foram massacrados numa ofensiva marcada por inúmeras violações do direito internacional, liderada pelo agora ex-primeiro-ministro, Mahinda Rajapaksa.

    O investimento chinês no Sri Lanka é, sobretudo, em grandes obras de infraestrutura, como portos, usinas de geração de energia e um estádio de cricket, esporte que faz sucesso no país, herança da colonização britânica. A estratégia segue um modelo replicado em mais de cem outros países que a China inclui num ambicioso projeto internacional de interligação logística em escala global – o chamado “One Belt, One Road” (um cinturão, um caminho) ou simplesmente “Belt and Road”, (cinturão e caminho), que também recebe o significativo apelido informal de Nova Rota da Seda, em referência ao que existia no século 1º a.C.

    Santoro diz que “o fato de a China investir tanto num país tão instável levantou questionamento sobre se esses projetos chineses de infraestrutura eram rentáveis economicamente em si mesmos, se eles se justificavam economicamente, ou se eram apenas uma busca de Pequim por influência política, porque a localização do Sri Lanka no Índico é estratégica”.

    De acordo com ele, “os chineses apostaram muito nessa família que estava no poder desde 2005, uma verdadeira dinastia política. Um dos símbolos dessa aposta foi a construção de um grande porto em Hambantota [cidade natal e reduto eleitoral da família Rajapaksa]. A ideia era que esse porto rivalizasse em importância com a capital, Colombo, mas é uma obra que até agora não deu certo. Vários outros projetos tiveram o mesmo problema, como o estádio que foi feito para sediar competições internacionais de cricket, e não conseguiu retorno financeiro. Muito disso foi transformado em grandes elefantes brancos agora”.

    As pretensões e as ações chinesas

    Os investimentos chineses têm um fim econômico em si, que é de gerar oportunidades de negócio e lucro, mas têm também um fim político, que é o de projetar influência, e um fim militar, que é o de criar bases de apoio para eventuais desdobramentos das forças chinesas na região do indo-pacífico.

    Do ponto de vista econômico, Santoro diz que “muitos desses investimentos não tinham uma avaliação de risco, e agora isso aparece como um sinal de alerta para o governo chinês. Afinal, colocar muito dinheiro num país em desenvolvimento instável traz riscos e resulta em coisas ruins para a própria China”.

    Do ponto de vista político, “a China aparece como uma potência que apoia os governos que estão no poder naquele momento, mas que não se mostrou interessada em promover mudanças de regime”, como os EUA fazem, de uma maneira que foi explicitada pelo ex-assessor de Segurança Nacional na administração Donald Trump (2016-2020), John Bolton, numa entrevista à emissora CNN, nesta terça-feira (12).

    A China, ao contrário, “apoia quem está no poder e faz acordos com todo mundo, sem impor condicionantes de direitos humanos, por exemplo. Nós não vemos ainda a China se envolvendo em ações clandestinas para derrubar governos. É mais uma postura de trabalhar com todos, independentemente da ideologia. Agora, no Sri Lanka, eles passaram anos apostando no mesmo grupo político. Será que farão acordos tão rápidos com os substitutos?”, reflete Santoro.

    Do ponto de vista militar, não há mais que especulações sobre a importância que o Sri Lanka poderia ter para a China. Santoro diz que “discutiu-se que esse porto, construído na cidade natal da família Rajapaksa [Hambantota], poderia se tornar uma base naval para reabastecimento militar chinês, mas é algo que está nos rumores”.

    Hoje, só existe uma base chinesa no exterior, que é a Djibouti, inaugurada em 2017. Em paralelo, a China vem propondo acordos de cooperação que atrelam oportunidades comerciais a cláusulas de defesa com países do Indo-Pacífico. Esses acordos são secretos. É difícil saber com precisão o conteúdo, mas vazamentos recentes e informações veiculadas por fontes da inteligência americana dizem que esses documentos preveem a possibilidade de a China desembarcar tropas nesses países, sob pretexto de proteger seus investimentos em casos de grandes revoltas, como acontece no Sri Lanka.

    Mapa das Ilhas Salomão

    O acordo mais ruidoso nesse sentido é o que a China assinou em abril com o governo das Ilhas Salomão – considerado pelos rivais americanos como uma ameaça à estabilidade no sudeste asiático, do ponto de vista dos interesses de Washington. Tratados semelhantes vêm sendo propostos por Pequim a outros países da mesma região.

    “Faz sentido pensar que essa expansão [econômica da China] venha acompanhada de um aumento da presença militar no exterior, inclusive para proteger seus investimentos. Se o país investiu milhões num porto não vai ficar passiva diante do risco de esse porto ser destruído numa guerra civil”, diz o pesquisador da Uerj.

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