Quais os limites para o jornalismo de fofoca no Brasil

Caso envolvendo a atriz Klara Castanho, o jornalista Léo Dias e o site Metrópoles levantou discussões sobre as questões éticas do noticiário de celebridades

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Um caso envolvendo a atriz Klara Castanho (“De volta aos 15”) levantou discussões sobre os limites éticos e morais do jornalismo de fofoca no Brasil.

    Tudo começou no dia 23 de junho, quando, durante entrevista, a apresentadora Antônia Fontenelle disse que “uma atriz” tinha engravidado e entregue o bebê à adoção. Um mês antes, o blogueiro Matheus Baldi já tinha ventilado a história, dando a entender que a figura em questão se tratava de Castanho. No sábado (25), a atriz veio a público e revelou que foi estuprada e, após o parto, deixou a criança sob tutela de uma nova família.

    Os detalhes acerca do caso indicavam que o jornalista Léo Dias, do site Metrópoles, tinha sido o responsável pela informação se espalhar nos bastidores da indústria de celebridades, algo que ele admitiu posteriormente. Para profissionais e pesquisadores de comunicação, a questão era de cunho privado, e não poderia ser divulgada sem a autorização da atriz, como aconteceu. No domingo (26), Léo Dias e o Metrópoles publicaram pedidos de desculpas.

    Neste texto, o Nexo aborda quais são as questões éticas que rondam o caso e traz a análise de especialistas em comunicação sobre os limites da cobertura jornalística de celebridades.

    O caso Klara Castanho

    No dia 24 de maio, o blogueiro Matheus Baldi, durante live, falou que sabia da história de uma “atriz mirim” que tinha engravidado e entregue o bebê à adoção depois do parto. Castanho tem 21 anos, e a fala do influenciador dava pistas de que podia se tratar dela.

    Um mês depois, no dia 23 de junho, a apresentadora Antonia Fontenelle participava de uma entrevista e citou a mesma história, com um tom agressivo. “Essa atriz de 21 anos engravidou, trabalhou durante a gravidez, pariu o filho e não quis nem olhar na cara do filho”, disse.

    No sábado (25), Klara Castanho veio a público em uma carta aberta no Instagram, explicando a situação. “Esse é o relato mais difícil da minha vida”, escreveu. “Fui estuprada. Relembrar esse episódio traz uma sensação de morte, porque algo morreu em mim. Passei por todos os trâmites: psicóloga, Ministério Público, juíza, audiência. Todas as etapas obrigatórias. Um processo que, pela própria lei, garante sigilo para mim e para a criança.”

    “No dia em que a criança nasceu, eu, ainda anestesiada do pós-parto, fui abordada por uma enfermeira que estava na sala de cirurgia. Ela fez perguntas e ameaçou: ‘Imagina se tal colunista descobre essa história’. Quando cheguei no quarto, já havia mensagens do colunista, com todas as informações. Ele só não sabia do estupro. Eu conversei com ele, expliquei tudo o que tinha acontecido. Ele prometeu não publicar.”

    O Conselho Federal de Enfermagem disse em nota que a enfermeira – cuja identidade é desconhecida publicamente – violou o código de ética da profissão e poderá perder o registro profissional.

    Após a publicação da carta aberta, Léo Dias publicou uma nota aprofundando o caso e dando mais detalhes do trâmite. Nela, disse que conversou com a atriz assim que recebeu a informação – vinda da profissional do hospital.

    A nota repercutiu negativamente nas redes sociais. O assunto foi mencionado mais de 422 mil vezes no Twitter em 48 horas, segundo dados da ferramenta Tweet Binder. Análise feita pelo Nexo a partir de dados da plataforma mostram que 77% dos tuítes sobre o tema tinham um teor negativo em relação ao jornalista. Na madrugada de segunda-feira (27), a hashtag #LeoDiasDemitido estava no topo dos assuntos mais comentados na rede social a nível nacional.

    O texto foi retirado do ar, e Dias publicou outra nota, dessa vez pedindo desculpas à atriz. “Na conversa, Klara me relatou a violência de que foi vítima. E sua decisão de entregar a criança para a adoção. Me pediu que eu não escrevesse sobre o assunto. E eu, prontamente, me comprometi com ela a não expor a história publicamente”, disse em texto do domingo (26).

    “O relato de Klara foi tão impactante, aquela história era tão perturbadora, que, em um ato irrefletido, me ofereci para adotar a criança. E, desde aquele momento, esta história não saiu da minha cabeça. Confidenciei isso a duas pessoas próximas.”

    “Mesmo que eu soubesse de tudo desde o início, eu não deveria ter escrito nenhuma linha sobre esta história ou ter feito qualquer comentário sobre algo que não tenho o direito de opinar. Apesar da minha proximidade com o fato, reconheço que não tenho noção da dor desta mulher. E, por isso, peço, sinceramente, perdão à Klara.”

    O site Metrópoles também publicou um pedido de desculpas pela divulgação do caso. “Sobre o episódio de Klara Castanho, erramos. O Metrópoles não deveria ter permitido que o colunista Leo Dias, que publica suas colunas no portal, desse detalhes sobre o triste caso envolvendo uma mulher em situação de extrema vulnerabilidade.”

    “Não há justificativa que sustente o argumento do interesse público em conhecer detalhes sobre uma história em que os únicos interessados são a vítima e seus familiares. E, neste caso, a Justiça e o Ministério Público, que intercederam para ajudar Klara no processo de adoção da criança. Em relação à Klara Castanho, praticamos mau jornalismo.”

    Privacidade e sensacionalismo

    O caso levantou discussões sobre a ética jornalística em torno da conduta dos profissionais que fizeram circular a informação sobre a atriz, mesmo sem o consentimento dela.

    A profissão de jornalista não conta com um Conselho Federal ou uma Ordem capazes de punir o profissional que apresenta má conduta, como acontece com enfermeiros, médicos e advogados. O jornalismo não é uma ciência exata, e as decisões partem de discussões entre repórteres, editores e diretores de redação.

    Apesar de não ter um órgão mediador, há um código de ética do jornalismo, que diz em seu artigo sexto: “É dever do jornalista divulgar os fatos e as informações de interesse público [...] respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão.”

    No artigo 11º, o código diz o seguinte: “O jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes.”

    As orientações não foram seguidas no caso da atriz – como o próprio Metrópoles admitiu, foi um caso de mau jornalismo.

    O jornalismo de fofoca se baseia em mostrar o cotidiano e a vida privada de celebridades – pessoas que estão sob os olhos públicos e que conquistaram alguma fama ao longo do tempo. Nessa seara, há uma tensão entre o que o público desse tipo de conteúdo deseja saber e o direito da celebridade, enquanto indivíduo, ter sua privacidade preservada.

    Esse tipo de sensacionalismo é impulsionado mais ainda pelo modelo de distribuição do jornalismo online, que, para atrair anunciantes, depende de cada vez mais cliques, o que incentiva a produção de conteúdo que não necessariamente são exemplos do chamado interesse público. Em um ambiente digital onde diversas fontes de informação e entretenimento disputam a atenção dos usuários, conseguir o clique pode ser valioso.

    “Empresas jornalísticas têm adotado o caça-cliques como o padrão da indústria”, afirma estudo da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, publicado em julho de 2021. “As interações com esse tipo de conteúdo servem de assunto social para os usuários e de baliza para a produção de mais conteúdo pelos veículos.”

    Apesar do caça-cliques ser um fenômeno novo, a busca desenfreada pela atenção dos leitores não é nova. No século 19, veículos de comunicação usaram do sensacionalismo para alavancar as vendas. Naquela época, os crimes urbanos eram o motor de vendas – a ponto do empresário William Randolph Hearst, magnata de jornais nos EUA ter dito que “se algo sangra, vende” em uma ocasião.

    Os limites do jornalismo de fofoca

    Se feito de maneira ética, o jornalismo de celebridades é legítimo, segundo Roberto Baptista, advogado, ex-consultor do Ministério da Justiça (2012-2013) e um dos professores do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “É um assunto que atende as demandas de parte do público e faz parte da liberdade de expressão”, disse ao Nexo. “De fato as pessoas públicas têm uma esfera de privacidade um pouco menor do que pessoas que não têm exposição midiática.”

    De acordo com Baptista, no entanto, no caso de Klara Castanho houve uma violação do direito à privacidade da atriz, garantido constitucionalmente. A revelação da história quebrou sigilos garantidos pela Justiça e dados relativos à saúde da atriz e do bebê – informações que são consideradas de cunho sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados, e só podem ser divulgados com decisão judicial ou com o consentimento do indivíduo a quem dizem respeito.

    Quando a divulgação é feita de forma irregular, é passível de indenização por danos morais, conforme prevê o Código Civil. “Nesse caso específico, claramente houve uma violação, o que obviamente não está protegido pela liberdade de expressão e de imprensa”, disse Baptista.

    Para Geane Alzamora, professora do curso de jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais, para além da esfera legal, a conduta de Léo Dias, Matheus Baldi e Antônia Fontenelle nem podem ser consideradas como exercício da profissão.

    “O que aconteceu foi uma violação dos preceitos universais do jornalismo”, disse ao jornal Estado de Minas nesta segunda-feira (27). “O que difere o jornalismo de qualquer informação produzida na internet ou página de fofoca ou ruído é a checagem. No princípio de ética profissional e respeito à cidadania, todas as informações devem ser checadas com todos os envolvidos antes de vir a público. Esse é o princípio do jornalismo que foi violado.”

    Baptista acredita que o pedido de desculpas de Léo Dias e do site eram necessários, mas não foram suficientes. “Tenho para mim que qualquer ação que parta da atriz sem dúvida vai gerar indenizações por danos morais, que são evidentes nesse caso.”

    O caso de Klara Castanho não é o único – e não deve ser o último – em que há uma espetacularização da vida privada de celebridades em busca de audiência. O tratamento midiático da cantora Britney Spears nos anos 2000 é um exemplo marcante que recentemente foi revisitado, gerando uma reavaliação de responsabilidades da mídia no período e da forma como mulheres acabam sendo mais penalizadas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.