A situação do plano de reeleição de Bolsonaro a 100 dias do voto

Num mês em que acumulou desgastes em diversas áreas, presidente não consegue avançar em pesquisas. Governo discute expandir benefícios para tentar conquistar o eleitorado

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    Pesquisa do Instituto Datafolha realizada entre quarta (22) e quinta-feira (23) mostra estabilidade nas intenções de voto a quase 100 dias das eleições de outubro, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, mantendo ampla vantagem sobre o presidente Jair Bolsonaro, do PL.

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    percentuais é a distância entre Lula e Bolsonaro no primeiro turno, segundo o Datafolha

    Segundo o levantamento, Lula tem 47% das intenções de voto nas respostas estimuladas, enquanto Bolsonaro marca 28%. Em maio, os percentuais eram quase iguais: 48% para o petista e 27% para o atual presidente.

    A oscilação positiva para Bolsonaro ocorre dentro da margem de erro (2 pontos percentuais) e frustra aliados do presidente que previam que ele iria conquistar o favoritismo neste momento da pré-campanha. Ao mesmo tempo, o cenário de estabilidade contraria expectativas de que Bolsonaro pudesse sofrer uma queda maior na disputa, já que o governo acumulou uma série de novos desgastes desde o último levantamento, em maio.

    Neste texto, o Nexo mostra os resultados do Datafolha e traz análises sobre eles, além de recuperar o que assolou o governo desde o último levantamento e explicar o que Bolsonaro tenta fazer para reverter esse cenário.

    Os dados de junho

    A pesquisa de junho mantém o cenário de concentração da disputa entre dois candidatos, seguidos à distância pelos demais, numa espécie de segundo turno antecipado. Num segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o Datafolha aponta que 57% escolheriam o petista, que tem chances de vencer já na primeira rodada.

    Depois de Lula e Bolsonaro, Ciro Gomes (PDT) aparece em terceiro lugar, mas ainda sem alcançar os dois dígitos, com 8%. Os demais candidatos ficaram de 2% para baixo.

    Nesse último grupo se inclui a senadora Simone Tebet (MDB), que, nos arranjos entre o partido dela e o PSDB, assumiu a vaga do tucano João Doria, ex-governador de São Paulo. Os defensores de uma candidatura dela acreditavam que ela tinha um potencial maior para crescer nas pesquisas, mas isso não se concretizou.

    Intenções de voto

    Pesquisa Datafolha mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na frente, com 47% das intenções de voto na pesquisa estimulada. Jair Bolsonaro (PL) tem 28%, Ciro Gomes (PDT) tem 8% e o restante fica entre 2% e 1%.

    Os perfis do eleitorado de cada pré-candidato também se mantiveram os mesmos em relação a maio, mostrando uma polarização desequilibrada, não apenas em termos ideológicos, mas também na divisão do eleitorado. Lula tem ampla vantagem sobre Bolsonaro, por exemplo, entre os seguintes grupos:

    • Habitantes do Nordeste (58% para Lula, contra 19% para Bolsonaro)
    • Mais jovens (54% contra 24%)
    • Menos escolarizados (56% contra 22%)
    • Pessoas com renda de até 2 salários mínimos (56% contra 22%)

    Já entre outros grupos Lula e Bolsonaro ficam um pouco mais próximos. Por exemplo:

    • Habitantes do Sudeste (43% contra 29%)
    • Homens (44% contra 36%)

    Entre a parcela evangélica do eleitorado, uma fatia que tem sido duramente disputada pelos pré-candidatos, Bolsonaro saiu do empate técnico em que estava com Lula e agora tem 40% das intenções de voto. Lula tem 35%.

    Para o cientista político Vítor Sandes, da Universidade Federal do Piauí, o não crescimento de Bolsonaro, no momento atual da campanha, revela um quadro bastante desfavorável ao presidente. “Como presidente da República, era esperada uma recuperação de Bolsonaro, considerando que ele possui acesso a recursos políticos e orçamentários que outros pré-candidatos não possuem”, disse Sandes ao Nexo.

    Ele lembrou que Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara e aliado do governo, afirmou que Bolsonaro ultrapassaria Lula “no final de maio ou junho”.

    Registrada no TSE sob o número 09088/2022, a pesquisa do Datafolha ouviu 2.556 eleitores em 181 cidades e tem nível de confiança de 95%.

    Dificuldades acumuladas

    Desde o último levantamento do Datafolha, em 25 e 26 de maio, o governo federal, que já vem enfrentando vários problemas – como a disparada dos preços dos combustíveis, a alta da inflação, o desemprego ainda elevado e a perda de renda dos brasileiros –, acumulou novos desgastes em campos que vão desde a política socioambiental para a Amazônia a suspeitas de corrupção no MEC.

    Apesar disso, as intenções de voto em Bolsonaro permaneceram estáveis. Uma possível explicação para isso é o fato de que o eleitorado está fazendo, nas eleições de 2022, uma escolha fortemente ideológica, em que “episódios que normalmente serviriam como escândalos vão ter menos importância”. É o que analisa o professor Glauco Peres, do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo).

    “É um voto mais ideológico e menos factual. O eleitor faz a escolha considerando o que Bolsonaro e Lula representam, o projeto de cada um em contraposição ao do outro”, afirmou Peres ao Nexo, destacando “o caráter plebiscitário da eleição”. Ou seja, é possível que a estabilidade se mantenha nos próximos meses.

    O mês de junho

    CRIMES NA AMAZÔNIA

    O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips no Vale do Javari (Amazonas) expôs ao mundo a falta de controle do governo sobre a região e o fracasso da política atual para a Amazônia – uma política que desmontou por diferentes meios a atuação de órgãos especializados, como o Ibama e a Funai, e transferiu para militares a administração da atuação federal na região. Além do aumento no desmatamento, especialistas afirmam que a floresta ficou mais perigosa nos anos recentes. Diante do desaparecimento de Bruno e Dom, Bolsonaro minimizou o caso, e o governo demorou para iniciar as buscas. Houve cobranças internacionais.

    33 MILHÕES COM FOME

    Estudo publicado pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) mostrou que a fome no Brasil em 2022 voltou aos patamares da década de 1990. Mais de 15% da população não tem o que comer, segundo dados coletados até abril. Percentual muito maior vive em insegurança alimentar.

    FILAS DO AUXÍLIO

    Outro número negativo para a gestão Bolsonaro se refere à assistência financeira à população mais pobre. Em janeiro, o governo federal tinha comemorado que havia zerado essa fila. Mas o Mapeamento da Confederação Nacional de Municípios publicado em junho também mostrou que a fila de brasileiros à espera do Auxílio Brasil mais do que dobrou de março para abril, chegando a 2,8 milhões de famílias. O estudo indica que a previsão orçamentária para o Auxílio Brasil em 2022 (R$ 89 bilhões) não é mais suficiente para voltar a zerar a fila, dado o aumento da demanda pelo benefício.

    CRISE NA PETROBRAS

    Diante do novo reajuste dos preços dos combustíveis, Bolsonaro e seus aliados do centrão no Congresso entraram em guerra com o presidente da estatal, José Mauro Coelho, que acabou renunciando. Coelho já havia sido demitido por Bolsonaro em maio, em razão de outro reajuste, mas se mantinha no cargo, enquanto aconteciam os trâmites burocráticos para a sua saída. Bolsonaro, que, apesar de poder, nunca propôs uma mudança na política de preços da empresa, passou a defender uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra a petroleira e seus dirigentes, dizendo-se indignado com os valores da gasolina e do diesel. As ações da estatal caíram com a confusão.

    CASO MEC

    O pastor Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, foi preso preventivamente pela Polícia Federal numa investigação que expõe os indícios de corrupção dentro do governo. As suspeitas são de que Ribeiro operava um esquema no MEC (Ministério da Educação) em que pastores evangélicos sem cargo no governo intermediavam o acesso de prefeitos a verbas públicas em troca de propina. Ribeiro foi solto no dia seguinte, mas aliados de Bolsonaro avaliam que o episódio foi grave e compromete o discurso de “corrupção zero” que Bolsonaro tenta emplacar para se reeleger (embora haja investigações sobre outros ministérios também). No Senado, senadores afirmam ter conseguido o número de assinaturas necessário para a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o MEC. Na sexta-feira (24), o Ministério Público Federal disse ver indícios de interferência de Bolsonaro na investigação da PF e remeteu o inquérito ao Supremo. Uma ligação interceptada antes da operação mostra Ribeiro dizendo que Bolsonaro afirmou ao ex-ministro que ele poderia ser alvo de uma operação.

    A que recorre o presidente

    Estagnado no segundo lugar das pesquisas eleitorais, Bolsonaro se movimenta para ampliar seu eleitorado pela via fiscal. Para isso, governo e aliados discutem como driblar não apenas o teto de gastos definido pela Constituição, mas também a lei eleitoral, que restringe novos benefícios sociais em ano de eleição. Até a decretação de estado de calamidade, como ocorreu durante a pandemia de covid-19, entrou no debate.

    Líder do governo no Senado, Carlos Portinho (PL-RJ), confirmou nesta quinta-feira (23) que o governo discute usar os R$ 30 bilhões que destinaria a estados para ampliar o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 até o final de 2022.

    Inicialmente, o montante serviria para compensar governos estaduais da perda que terão se o Congresso aprovar um projeto de lei que pode limitar o ICMS (principal imposto estadual) sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo – uma proposta defendida fortemente pelo governo.

    O governo também propõe aumentar o valor do auxílio-gás pago a famílias de baixa renda e dar um voucher de R$ 1.000 mensais a caminhoneiros, um setor que já esteve fortemente com Bolsonaro, para compensar a alta dos combustíveis.

    Em paralelo à tentativa de subir nas pesquisas, Bolsonaro intensificou recentemente a mobilização de seus ministérios para pressionar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que é responsável por organizar as eleições e apurar os votos. O presidente já ameaçou não aceitar o resultado das urnas em caso de derrota.

    O apoio parlamentar em jogo

    Em relação ao centrão da Câmara, grupo que atualmente sustenta Bolsonaro no poder, o professor Glauco Peres afirma que a possibilidade de esses parlamentares abandonarem o presidente “sempre existe, porque eles estão sempre dispostos a negociar com qualquer um, migrando sem nenhum pudor de uma candidatura para outra”. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2018, quando o grupo abandonou a campanha de Geraldo Alckmin, então no PSDB, à medida que ele não crescia nas pesquisas.

    Segundo Peres, no entanto, a mudança depende não só dos resultados das pesquisas, mas também da barganha que o centrão faz entre uma candidatura e outra. Nesse sentido, Sandes avalia que “não há razões imediatas para uma guinada em direção a Lula de políticos explicitamente vinculados a Bolsonaro”, e destaca que partidos do centrão costumam se preocupar “com ganhos políticos e orçamentários imediatos” – o que eles estão recebendo de Bolsonaro.

    Além disso, uma demora do centrão em migrar para o lado de Lula não impediria que isso aconteça depois das eleições, segundo Sandes. “Já assistimos a isso em 2002, quando Lula sentou com lideranças políticas que apoiaram o candidato governista José Serra, do PSDB, antes mesmo de assumir a Presidência em janeiro de 2003”, disse o professor.

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