O sítio arqueológico descoberto na Bela Vista, em São Paulo

Vestígios do século 18, provavelmente do Quilombo de Saracura, foram encontrados durante obras do metrô em bairro da capital paulista. População negra teve papel central na história da região

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    Um sítio arqueológico foi encontrado no terreno que era ocupado pela escola de samba Vai-Vai, na região central da capital paulista, durante as obras de uma nova linha do metrô no bairro da Bela Vista.

    Durante as obras, a equipe da concessionária Acciona, que está capitaneando as obras, encontrou vestígios de antigos moradores da região, datados do século 18, provavelmente deixado por quilombolas, descendentes dos negros escravizados que viviam na região. O sítio arqueológico está entre as ruas Doutor Lourenço Granato e Manoel Dutra.

    As obras não foram interrompidas. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) acompanha os trabalhos para salvar os itens que foram encontrados e evitar danos.

    A descoberta se mistura com a história da Bela Vista, uma região paulistana com uma história marcada pela presença da população negra. Neste texto, o Nexo relembra a formação desses bairros e o papel dos quilombos neles.

    O Quilombo de Saracura

    Foram encontrados garrafas, louças, talheres e outros itens. Os mais antigos datam do século 18; os mais recentes, do início do século 20. O sítio arqueológico foi encontrado num local próximo de onde passa o Córrego da Saracura, que deságua no Ribeirão Anhangá. Ele foi canalizado e passa pelo subterrâneo da região e, em última instância, acaba no rio Tietê.

    Ali ficava o Quilombo de Saracura, um dos primeiros da capital paulista, que originalmente serviu de esconderijo para escravizados que fugiram e, após a abolição em 1888, como residência dos libertos.

    “Já em 1791 era grande o trânsito de tropas e carros de boi que atravessavam a cidade. Estes traziam mantimentos vindos de Atibaia, de Parnaíba e faziam parada na chácara do Bexiga, entre o Anhangabaú e o riacho Saracura. Nesta região, em 1814, foi aberta a Estrada do Piques que ia rumo a Sorocaba, atualmente Rua da Consolação”, disse em nota a empresa A Lasca Arqueologia, que está acompanhando as obras junto ao Iphan.

    Localizada entre o centro da cidade e a avenida Paulista, e hoje considerada parte da área central da capital, a Bela Vista, até o século 20, era vista como um local relativamente afastado e periférico.

    O Bixiga, um dos bairros da região, tem esse nome porque boa parte dos terrenos era de propriedade de um homem conhecido como Antônio Bexiga, por causa de suas cicatrizes decorrentes da varíola (que era chamada de “bexiga”). A ocupação da área por negros não chamou muito a atenção da sociedade na ocasião.

    O Bixiga só foi ganhar um status mais nobre entre os paulistanos no século 20, quando foi ocupado por imigrantes italianos que marcam a cultura do bairro até hoje.

    O bairro da Liberdade, que a partir de 1908 ficou associado à imigração japonesa, também era ocupado por quilombos e pela população negra. Lá foi construído o primeiro cemitério público de São Paulo, o Cemitério dos Aflitos.

    Em 1960, quando a primeira linha do metrô da cidade foi construída, os restos do cemitério foram encontrados durante as obras. À época, não houve esforço de preservação, e o sítio arqueológico foi destruído. Do conjunto, só sobrou a Capela dos Aflitos, que fica na rua Galvão Bueno.

    Alessandro Luís Lopes de Lima, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo, espera que haja um esforço para manter o sítio arqueológico descoberto intacto na Bela Vista e colocá-lo como ponto turístico dentro da cidade.

    “Gostaríamos de pensar na construção de um memorial, tal como na Capela dos Aflitos, na Liberdade ou do Cais do Valongo, no Rio. Será possível deixar esse sítio arqueológico à vista, protegidos por acrílico transparente e servindo como atração turística?”, disse ao site Guia Negro.

    Saracura e o samba

    O quilombo de Saracura tem papel importante na construção do samba em São Paulo.

    “A região do Quilombo Saracura foi um dos berços paulistanos do samba de bumbo e do batuque. O samba de roda em um primeiro momento e depois os cordões carnavalescos eram práticas culturais que se tornaram expressões da negritude paulistana no século 19 e início do 20”, disse Lima em artigo acadêmico de 2019.

    “É provável que da dissidência da torcida do antigo time de futebol da Saracura, o Cai-Cai, tenha surgido o cordão carnavalesco Vai-Vai. O Cai-Cai carregava as cores preta e branca, as mesmas da atual escola de samba Vai-Vai, herdeira direta desse legado. Na primeira metade do século passado, além da torcida de futebol, eram organizados choros e sambas na comunidade da Saracura”, afirmou.

    As memórias do samba na região do Quilombo Saracura apareceram na música “Tradição”, do sambista Geraldo Filme (1927-1995). “O samba não levanta mais poeira, o asfalto hoje cobriu nosso chão. Lembrança eu tenho da Saracura, saudade tenho do nosso cordão.”

    O terreno em que o sítio arqueológico foi descoberto era da Vai-Vai, que se mudou para um terreno na marginal Tietê cedido pela prefeitura de São Paulo para possibilitar a construção do metrô.

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