Como a vitória de Petro na Colômbia ecoa na América do Sul

Três especialistas em relações internacionais avaliam o impacto da eleição do primeiro presidente colombiano de esquerda para o resto da região, incluindo o Brasil de Bolsonaro

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    A eleição de Gustavo Petro para a Presidência da Colômbia neste domingo (19) não marca apenas a primeira vez que um político de esquerda assumirá o cargo no país, mas uma oportunidade de mudança no panorama das esquerdas na América do Sul, de acordo com três estudiosos de relações internacionais ouvidos pelo Nexo.

    A mudança de rumo ideológico no governo colombiano é inédita, mas o grau, a profundidade e a velocidade das transformações que se seguirão podem ser limitadas por resistências da direita local – incluindo grupos armados organizados que agem no país. Ao mesmo tempo, podem ser potencializadas pelo apoio que Petro pode vir a receber de governos de uma região na qual as esquerdas vêm recobrando força nos últimos anos.

    Neste texto, o Nexo mostra quem é Gustavo Petro, qual o resultado da eleição e quais os ecos dessa vitória da esquerda colombiana no mapa regional.

    Quem é o presidente eleito

    Petro venceu o candidato da direita populista Rodolfo Hernández no segundo turno por uma diferença estreita, de apenas 3,1 pontos percentuais. No primeiro turno, em 29 de maio, ele já havia deixado para trás o candidato da direita tradicional, Federico “Fico” Gutiérrez, que era apoiado pelo “uribismo”, o setor político de direita e conservador que dominava até então a cena política local, e recebeu o nome em referência ao ex-presidente cooimbiano Álvaro Uribe (2002-2010).

    Vitória de Petro

    Gráfico mostra vitória de Gustavo Petro na Colômbia

    Petro foi membro, na juventude, do M-19 (Movimento 19 de Abril), também chamado na Colômbia de “El Eme” (o “M”), uma guerrilha urbana de esquerda que participou da guerra civil colombiana entre 1974 e 1990. No discurso da vitória, na noite deste domingo (19), em Bogotá, alguns poucos apoiadores do presidente eleito agitaram bandeiras do M-19, uma delas com a palavra “paz”.

    O grupo guerrilheiro acabou convertido no partido político AD-M-19 (Aliança Democrática M-19) e, como tal, tornou-se a segunda maior bancada na Assembleia Nacional Constituinte de 1991, com 19 membros eleitos. Nos anos 2000, o AD-M-19 se dissolveu, dando origem a outros partidos políticos de esquerda.

    Petro se formou em escolas católicas colombianas e se declara adepto da Teologia da Libertação, corrente do catolicismo que enfatiza a luta de classes e a questão social como parte da práxis religiosa. Ele se graduou em economia e passou a militar no movimento guerrilheiro em 1977 sob o pseudônimo “Aureliano”, por causa do personagem Aureliano Buendía, do livro “Cem ano de solidão”, escrito por seu autor preferido, o também colombiano Gabriel García Marquez.

    De 1984 a 1986, Petro foi vereador em Zipaquirá, no estado de Savana Centro, pelo partido Anapo (Aliança Nacional Popular). Em 1985, foi preso por porte ilegal de armas e por conspiração. Foi libertado em 1987 e passou a trabalhar nos acordos de desmobilização da guerrilha.

    Em 1991, foi eleito deputado federal. Em 1994, após receber ameaças de morte, saiu do país e foi nomeado para um cargo diplomático em Bruxelas, na representação colombiana para Bélgica, Luxemburgo e União Europeia, de onde regressou em 1996.

    Em 1997, concorreu pela primeira vez, sem sucesso, à prefeitura da capital, Bogotá. No ano seguinte, conquistou novo mandato como deputado federal, tendo vencido nova eleição para o mesmo cargo em 2002.

    Em 2006, foi eleito senador com a maior votação do país. Nas eleições presidenciais de 2009, concorreu, mas terminou apenas em quarto lugar, quando Juan Manuel Santos venceu. De 2012 a 2015 foi prefeito de Bogotá. Em 2013, foi condenado a perder o cargo de prefeito e a ficar inelegível por 15 anos, por causa da gestão de uma crise de saúde pública associada a um colapso no sistema de coleta de lixo na capital. A medida contra ele acabou revogada e ele voltou ao cargo 35 dias depois.

    Em 2018, concorreu novamente à Presidência, e perdeu – desta vez para o atual presidente, Iván Duque. Petro teve 41,7% no segundo turno. Duque teve 54%.

    Em 2022, a Colômbia também terá pela primeira vez uma mulher negra como vice-presidente. Eleita na chapa de Petros, Francia Márquez, 40, é advogada e ativista ambiental, e integrante da coalizão de esquerda Pacto Histórico. Ela ficou conhecida pela luta contra a mineração ilegal e possui amplo apoio do eleitorado jovem.

    A direita e a esquerda na Colômbia

    A Colômbia nunca antes teve um presidente de esquerda. Durante meio século, esse setor político foi associado a grupos guerrilheiros locais, embora não seja representado por eles, nem se resuma a eles. O protagonismo de grupos guerrilheiros como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ELN (Exército de Libertação Nacional) monopolizou por muito tempo o embate ideológico no país.

    Esses grupos guerrilheiros, que nasceram nos anos 1960, na luta por reforma agrária, acabaram crescendo, se armando, se expandindo e, com o tempo, se degenerando, ao moverem uma lucrativa indústria de sequestros de pessoas e de tráfico de drogas, sob pretexto de financiar as ações revolucionárias.

    No caminho, houve tentativas de integração desses grupos à política tradicional. Uma das mais significativas delas foi a criação da UP (União Patriótica), em 1985. A legenda abrigava militantes simpáticos às Farc e era comandada pela cúpula da guerrilha, que tentava ocupar espaços de participação política fora da luta armada.

    Mais de 3.000 militantes e políticos da UP foram assassinados por narcotraficantes, militares e paramilitares, o que levou muitos simpatizantes ou integrantes do partido a fugir do país nas décadas de 1980 e 1990.

    A história do M-19, ao qual Petro pertencia, foi semelhante, mas o grupo conseguiu ter papel relevante e influente na política, ao eleger 19 membros na Assembleia Constituinte de 1991. Passados mais de 20 anos, já em setembro de 2012, começou a vigorar o atual acordo de paz com as Farc, abrindo novas janelas de inserção política para esses setores mais radicais da esquerda.

    A direita, por sua vez, associou-se em grande parte às AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), que eram milícias de proprietários rurais, criadas para fazer frente às guerrilhas de esquerda. Esses grupos foram incluídos no processo de paz. Muitos de seus líderes políticos simplesmente se integraram ao sistema político-partidário local e passaram a dar as cartas, reunido sobretudo em torno da influência política de Uribe.

    A prevalência da direita na política local, ao longo de tantos anos, teve como marca, além da gestão liberal da economia, uma grande aproximação com os diversos governos americanos, ao longo do tempo, interessados em promover uma ampla guerra às drogas no país, e também um afastamento da Colômbia em relação aos governos de esquerda em seu entorno regional.

    ‘A expectativa é de moderação’

    “A Colômbia é tradicionalmente um país conservador, de direita. Esta foi a primeira vez que elegeram uma liderança de esquerda, o que se transformou numa vitória histórica na Colômbia depois de décadas de assassinatos de lideranças desse setor”, disse ao Nexo Carolina Pedroso, professora do Departamento de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

    Para ela, Petro “teve de moderar muito suas posições ao longo da vida” à medida que fez a transição de um passado num grupo guerrilheiro para a vida político-institucional. Essa capacidade de moderar suas posições seguirá sendo importante porque ele terá contra si grupos locais que já provaram no passado que estão dispostos ao uso da violência na política, como ficou demonstrado nos relatos de ameaças feitas à campanha de Petro.

    Pedroso considera que “as mudanças promovidas por Petro devem ser ponderadas. Não serão radicais, nem mesmo no que diz respeito às relações com os EUA”, país que por décadas subvencionou a guerra contra as drogas na Colômbia.

    As mudanças no entorno

    Javier Calderón, pesquisador do Celag (Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica), disse ao Nexo que a vitória de Petro “dá à Colômbia a chance de saldar uma longa dívida com o restante da América Latina, pois vai facilitar um diálogo latino-americano, por exemplo, sobre o meio ambiente e a preservação da Amazônia”, assunto comum com outros países da região. “Acredito que ele vá favorecer as relações internacionais, as relações de integração regional”, disse Javier.

    Para André Coelho, professor da Escola de Ciência Política da Unirio, “este ainda não é um momento tão favorável à esquerda quanto foi a primeira década dos anos 2000, mas é um momento de reconstrução da esquerda na região, sem dúvida”, como mostra o mapa abaixo.

    Onda de esquerda

    Mapa mostra países governados pela esquerda e pela direita na América do Sul

    Os governos na America do Sul

    Brasil

    Jair Bolsonaro assumiu a Presidência em 2019 e disputará novo mandato de quatro anos em outubro de 2022. É um militar reformado de extrema direita, saudoso da ditadura e crítico das instituições democráticas.

    Colômbia

    Gustavo Petro tornou-se em 19 de junho de 2022 o primeiro presidente eleito de esquerda da história da Colômbia, para exercer um mandato de quatro anos, que terá início em 7 de agosto, sem direito à reeleição. Na juventude foi membro do grupo guerrilheiro M-19, além de preso e exilado político.

    Argentina

    Alberto Fernández assumiu a Presidência em dezembro de 2019 e tem o direito de disputar um novo mandato de quatro anos em outubro de 2022. Fez-se politicamente como membro do kirchnerismo, mas ao longo do mandato viu crescer suas diferenças com o setor.

    Peru

    Pedro Castillo assumiu a Presidência em julho de 2021 para um mandato de cinco anos sem direito à reeleição. Foi líder sindical, populista, não tinha experiência política prévia e tem dificuldade em viabilizar o próprio governo.

    Chile

    Gabriel Boric assumiu a Presidência em março de 2022 para um mandato de quatro anos com direito à reeleição. Foi líder estudantil e apresentou-se como um jovem renovador das correntes de esquerda no Chile.

    Venezuela

    Nicolás Maduro assumiu a Presidência em março de 2013 e venceu a eleição de 2018, mas sua vitória nunca foi reconhecida pela oposição e por um grande grupo de países estrangeiros. Era vice de Hugo Chávez e herdou a tradição autoritária e populista do chavismo.

    Equador

    Guillermo Lasso assumiu em maio de 2021 e tem o direito de disputar um novo mandato de quatro anos nas eleições de 2025. É um ex-banqueiro que foi ministro da economia, numa gestão marcada pelo neoliberalismo.

    Bolívia

    Luis Arce assumiu em novembro de 2020 e pode disputar um segundo mandato de cinco anos em 2025. É um economista herdeiro da corrente política inaugurada por Evo Morales do Movimento ao Socialismo.

    Uruguai

    Lacalle Pou assumiu em março de 2020 para um mandato de cinco anos sem direito à reeleição. É um advogado de perfil liberal que fez uma campanha marcada pela defesa da alternância democrática de poder no país, após 15 anos de hegemonia da esquerda no país.

    Paraguai

    Mario Abdo assumiu em agosto de 2018 para um mandato de cinco anos sem direito à reeleição. É um político de direita, militar reformado, que mantém boas relações com Bolsonaro.

    Guiana

    Irfaan Ali assumiu a Presidência em agosto de 2020 para um mandato de cinco anos com direito a reeleições ilimitadas. Ele é o primeiro presidente muçulmano da história da Guiana e fez carreira no partido socialista local.

    Suriname

    Chan Santokhi assumiu a Presidência em julho de 2020 para um mandato de cinco anos com direito a reeleições, que se dão de forma indireta, pelo Parlamento, ilimitadas. O partido político de Santokhi é classificado como de centro e centro-esquerda.

    Essa nova configuração do mapa regional, em termos de direita e esquerda, tem como diferença, de acordo com Coelho, o fato de esta esquerda contemporânea ser, em sua maioria, “muito mais preocupada em defender a democracia do que os presidentes anteriores”, que eram mais próximos da esquerda bolivariana da primeira década dos anos 2000. Para ele, agora “a democracia se tornou um ponto fundamental”.

    O peso da questão venezuelana

    Nesse cenário, a Venezuela tem peso preponderante. O país vizinho à Colômbia é governado desde 2013 por Nicolás Maduro, um líder da antiga esquerda bolivariana, que é acusado por um grande número de países de fraude eleitoral e de perseguição à oposição local.

    A nova esquerda à qual Coelho se refere tenta se distanciar desse modelo, como faz o presidente chileno, Gabriel Boric. Carolina Pedro diz que, para Petro, “a Venezuela é o grande x da questão, pois muitos colombianos temem que o país se torne um pária, como aconteceu com a Venezuela”, que acabou isolada em várias instâncias internacionais.

    Ela diz que “a Colômbia é o país que mais recebe imigrantes venezuelanos, como a Venezuela foi o país que mais recebeu imigrantes colombianos no ápice da guerra civil”. Para a cientista política, reatar as relações é extremamente importante “porque os dois países têm vários problemas em comum a serem resolvidos”, mas é algo que exigirá habilidade de Petro.

    “A relação com a Venezuela deve melhorar muito. Os dois países tiveram problemas muito sérios nos últimos 20 anos. Em algum momento estiveram à beira de uma guerra, ainda quando o Chavez estava vivo. Houve invasões de território dos dois lados, com Forças Armadas”

    André Coelho

    Professor da Escola de Ciência Política da Unirio, em entrevista ao Nexo, em 20 de junho de 2022

    Calderón acredita que a vitória de Petro “vai destravar o bloqueio econômico e político da Venezuela”, mas Pedroso pondera que isso “não significa que o Petro vá apoiar completamente o que acontece no país vizinho, pois ele mesmo não se colocou como socialista na campanha”. Ao contrário de Maduro, Petro defende o capitalismo, “mas um capitalismo mais humano”, explica Pedroso.

    Para ela, “as mudanças vão ser mais sutis do que as pessoas imaginam, porque Petro tem de lidar com muita resistência interna”. “Portanto, ele vai apostar na reconciliação. Basta ver o discurso da vitória, que foi muito conciliador”, disse.

    As relações com o Brasil

    Os três pesquisadores ouvidos pelo Nexo concordam que o presidente Jair Bolsonaro estará ainda mais isolado na região após a vitória de Petro na Colômbia.

    “Com certeza o Brasil fica mais isolado. Tudo isso complica ainda mais a vida do Bolsonaro, porque a maioria das escolhas dele foram derrotadas”, diz Coelho, antecipando uma maior aproximação da Colômbia com o Chile e a Argentina.

    Pedroso nota, no entanto, que “assim como outros presidentes de esquerda da região, como o Castillo no Peru ou mesmo o Boric no Chile, eles têm mantido relações cordiais com o Brasil, que é o grande ator da América do Sul, e não pode simplesmente ser ignorado”.

    “Esses países têm sempre um cuidado diplomático ao lidar com o Brasil, têm muita cautela para não se colocar de maneira muito contrária ao governo brasileiro. Resta ver o outro lado: até que ponto o governo Bolsonaro vai estar disposto a manter essa relação num nível cordial”, disse Pedroso.

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