O debate sobre educação financeira em tempos de crise

Declaração da deputada estadual Luciana Genro durante votação de projeto de lei que incluiu o tema na grade curricular das escolas no RS gerou críticas. Especialistas falam ao ‘Nexo’ se proposta faz sentido

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    A fala da deputada estadual Luciana Genro (PSOL-RS) no dia 7 de junho, que classificou como “ridícula” a proposta que determina a obrigatoriedade da educação financeira nas escolas, viralizou nas redes e gerou contestações. A declaração da parlamentar ocorreu durante a votação de um projeto de lei na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que incluiu o tema nas propostas pedagógicas de instituições de ensino das redes pública e privada.

    Uma das pessoas que rebateu Genro foi a influenciadora digital Nathália Rodrigues, a Nath Finanças, cujo trabalho é direcionado à educação financeira para pessoas de baixa renda.

    O Nexo explica no texto abaixo o contexto do posicionamento da deputada e traz a análise de especialistas sobre se faz sentido incluir o assunto nas escolas em um contexto econômico de inflação, fome e corrosão da renda.

    ‘O problema das finanças é a falta de dinheiro’

    Deputada estadual do PSOL no Rio Grande do Sul, Luciana Genro, que foi candidata à Presidência da República em 2014 (recebeu 1,6 milhão de votos e ficou em 4° lugar na disputa), criticou no plenário da Assembleia Legislativa estadual o PL 231/2015, de autoria da deputada Any Ortiz (Cidadania).

    “A autora do projeto coloca a educação financeira como a grande mágica para fugir do superendividamento. Isso está longe de ser a realidade da população brasileira. As pessoas estão se endividando porque precisam comer, comprar um remédio, comprar gás”, disse Genro.

    Aprovado com 34 votos a favor e seis contrários, o texto incluiu o tema educação financeira nas propostas pedagógicas de escolas públicas e privadas do estado, nos ensinos fundamental e médio. O projeto previa inicialmente a obrigatoriedade do assunto, mas a assembleia o modificou para autorizativo. Com isso, não há necessidade de execução. Ortiz definiu a aprovação como um “novo paradigma” dentro da educação.

    Luciana Genro argumentou ainda que ensinar educação financeira seria “constrangedor” para os professores da rede estadual, que também estão em situação de endividamento. Entre 2015 e 2020, nas gestões de José Ivo Sartori (MDB) e Eduardo Leite (PSDB), o salário dos servidores públicos foi parcelado em 57 meses. O pagamento em dia foi retomado em 2021, na gestão Leite.

    A deputada citou ainda que o tema é secundário diante da “falta brutal” de dinheiro das famílias cujos filhos estudam em escolas públicas. Em 2021, a renda média dos brasileiros teve queda recorde de 6,2% (é de R$ 1.353). “Nas classes mais baixas têm famílias desmontando móveis para ter lenha para cozinhar”, escreveu a deputada no Twitter.

    R$ 130

    é o valor médio do botijão de gás de cozinha, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Em 2019, o preço médio era de R$ 69

    Segundo ela, a rede pública de ensino no Rio Grande do Sul também sofre com falta crônica de professores. Das 2.410 escolas da rede, de acordo com a deputada, somente 26% oferecem água potável aos alunos, e mais de 300 sequer têm banheiro. Dado o contexto, disse Genro, o projeto é “demagógico”. “Não posso dar meu voto a esse absurdo.”

    ‘Educação financeira é para questionar o sistema’

    Em resposta à deputada, a orientadora financeira e influenciadora digital Nathália Rodrigues, conhecida como Nath Finanças, disse que “discorda respeitosamente” da parlamentar.

    Com mais de meio milhão de seguidores no Twitter e 300 mil inscritos em seu canal no YouTube, a administradora foca seu trabalho na educação financeira para pessoas de baixa renda. Nath disse para a deputada que ensinar sobre o assunto ajuda essa população a “não cair nas armadilhas, principalmente dos grandes bancos”. “Educação financeira não é para se conformar com o sistema, e sim questioná-lo.”

    Renegociação do cartão de crédito, pagamento do Auxílio Brasil, declaração de impostos para microempreendedores individuais e construção de uma reserva de emergência com pouco dinheiro são alguns dos conteúdos abordados pela influenciadora.

    Entre os relatos que Nath recebe de seus seguidores, que começaram a seguir suas sugestões e métodos de organização financeira, estão: diminuíram o endividamento, o valor da fatura do cartão de crédito, renegociaram dívidas, saíram da inadimplência e passaram a entender sobre juros abusivos.

    O endividamento das famílias citado pela deputada Any Ortiz é recorde, de acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Endividamento significa dever um valor que precisa ser pago em algum momento pré-determinado: uma compra no cartão de crédito ou parcelas do financiamento do imóvel são alguns exemplos.

    77,7%

    das famílias brasileiras estavam endividadas em abril de 2022, segundo a CNC

    A inadimplência – quando a pessoa não paga a dívida no período determinado – o que a leva a ser inscrita em serviços como o SPC (de proteção ao crédito) também atingiu recorde no país: 28%, maior nível desde janeiro de 2020.

    Coaches de day trade e ‘milagres’ da Bolsa

    Diferente da abordagem de Nathália Rodrigues, influenciadores digitais tornaram-se populares e fizeram dinheiro vendendo seus conteúdos e cursos focados em ensinar a investir, seja em renda fixa ou variável. Essa popularização acabou atrelando a educação financeira ao “mundo” dos investimentos. O que é uma percepção equivocada, segundo especialistas ouvidos pelo Nexo, e significa uma parte pequena do conceito de educar financeiramente.

    A ascensão desses influencers coincide com o aumento de investidores pessoas físicas na Bolsa de Valores. Em abril de 2019, a B3, a bolsa de valores oficial do Brasil, alcançou o marco de 1 milhão de pessoas. Em fevereiro de 2022 chegou a 4,2 milhões de investidores pessoas físicas. Segundo dados da B3, 62% investem somente em produtos de renda fixa (e não em ações de empresas e outros produtos de renda variável).

    Influenciadores que ensinam as pessoas a “viver de day trade” também se misturaram aos criadores de conteúdo que indicam as maneiras de investir, mas deixam claro os riscos da volatilidade do mercado financeiro. Day trading é a atividade de comprar e vender o mesmo ativo financeiro, no mesmo dia e na mesma quantidade. O operador acompanha o mercado e lucra quando o preço médio de venda é maior do que o de compra.

    A promessa dos influenciadores e coaches é: o trade permitiria uma fonte de renda regular. O sucesso, porém, tem mais a ver com sorte do que com técnica, e raramente dá certo, segundo estudo dos economistas da FGV (Fundação Getulio Vargas), Bruno Giovannetti e Fernando Chague.

    A pesquisa dos economistas, com mais de 98 mil pessoas, constatou que 97% dos especuladores na bolsa perdem dinheiro. Quem ganha não supera lucro de R$ 300 por dia – e isso ocorreu apenas com 76 pessoas, segundo o estudo. Na média, quem recorre ao day trade perde R$ 62 por dia. Os autores constataram ainda que 99,43% dos indivíduos que tentam ser day traders não persistem na atividade.

    Educação financeira nas escolas: faz sentido?

    Em dezembro de 2010, o decreto 7.397 instituiu a Enef (Estratégia Nacional de Educação Financeira) como política de Estado [revogada em 2020 por outro decreto, 10.393]. Entre 2011 e 2012, escolas públicas do país participaram de projetos-piloto voltados ao tema.

    Em 2016, o assunto foi sugerido para compor a Base Nacional Comum Curricular, documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais nas redes de ensino.

    A obrigatoriedade foi estabelecida em 2017, para começo da aplicação em 2020, mas essa ainda não é uma realidade das escolas: além da falta de recursos humanos e capacitação de professores, a pandemia e a paralização das escolas também deixou a implementação em segundo plano.

    Educação financeira não precisa ser uma matéria específica. Cabe às escolas inserir de forma transversal em disciplinas existentes. Na prática, o projeto do Rio Grande do Sul não muda o que está previsto nacionalmente, apenas reforça a necessidade de implementar o assunto nos currículos escolares.

    “Assim como tem método para ensinar português, matemática e história, a educação financeira também precisa de método. O desafio é educar os professores para que esse caminho seja trilhado”, disse ao Nexo Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira). “As gerações passadas não aprenderam absolutamente nada sobre educação financeira. Hoje temos a possibilidade de incluir na grade curricular. Podemos atuar de forma construtiva, ensinando o equilíbrio entre consumo e desejo.”

    Para a professora de ciências contábeis da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Wendy Haddad Carraro, o momento econômico ruim não exclui a relevância da educação financeira nas escolas.

    Carraro, que também é coordenadora da Olimpíada de Educação Financeira do Rio Grande do Sul, iniciou projetos na área para auxiliar colegas servidores públicos que se complicaram com empréstimos consignados (descontados diretamente na folha de pagamento). Segundo ela, aprender a negociar dívidas e entender o que é um gasto fixo ou variável em casa são temas que podem permear o ensino financeiro. “O assunto não é ridículo”, afirmou ao Nexo.

    Professora de economia e finanças pessoais da ESPM-SP, Paula Sauer entende a preocupação da deputada Luciana Genro. “Falar de dinheiro não é só sobre o bem de troca. Falamos de desigualdade social, status, acesso, o que expõe fragilidades”, disse ao Nexo. A aplicação também se torna complexa em um sistema educacional de qualidade questionável, afirmou Sauer. “O brasileiro tem dificuldade de interpretação de texto e de fazer contas básicas. Como falar de juro composto em um país que a pessoa não sabe interpretar texto e fazer contas direito?”

    Segundo Sauer, a melhor abordagem para a educação financeira nas escolas é pelo viés do consumo. “Antes de falar de investimentos é preciso ensinar como fazer boas escolhas na hora de comprar, comparar preços, entender a safra dos alimentos, ler rótulos dos produtos. Tratar de economia circular, do que pode ser reaproveitado”, disse. “Não existe uma maneira única que atenda o contexto de todos. Mas o fato é que educar financeiramente é transformador.”

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