Qual a proposta da nova feira do livro de São Paulo

Evento gratuito organizado pela Associação Quatro Cinco Um quer ocupar espaço dos carros na capital paulista com encontro entre autores, editoras e público

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    A Feira do Livro, um evento literário inédito na cidade de São Paulo, reúne estandes de mais de 120 editoras e uma programação de debates com 55 autores convidados, de quarta-feira (8) a domingo (12). A organização é da Associação Quatro Cinco Um, que produz a revista de mesmo nome, e da Maré Produções.

    O evento é gratuito e acontece em espaço aberto, na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Escritores como a ativista e mestre em filosofia Djamila Ribeiro, o médico Drauzio Varella e o líder indígena Ailton Krenak participam das mesas de discussão, além de nomes internacionais como a angolana Yara Nakahanda Monteiro, o francês Bill François, a espanhola María Dueñas e o moçambicano Mia Couto.

    A curadoria da feira foi feita por Paulo Werneck, presidente da Associação e editor da revista Quatro Cinco Um, que também já foi curador de edições da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Ao Nexo, ele falou sobre o que motivou a criação de um novo evento literário e como ele se compara aos que já existiam antes.

    Um evento de rua

    Para Werneck, a ideia da criação da feira surgiu da constatação de que havia uma lacuna de um evento literário de rua tradicional na capital paulista. “É uma cidade que tem uma vida literária importantíssima, é a capital de leitores do país, onde tem muitas editoras importantes e uma cena de livrarias atualmente muito forte”, disse ao Nexo. “Eu percebi que tinha o espaço para isso em São Paulo”.

    Na cidade, há anos já ocorrem eventos como a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que teve sua primeira edição em 1970, ou a Festa do Livro da USP, realizada anualmente desde 1999.

    Mas a Festa do Livro, ainda que aberta ao público, costuma acontecer dentro do campus da Universidade de São Paulo e é focada na venda de livros, sem uma programação de encontros com autores. Já a Bienal é realizada em centros de convenções e não tem entrada gratuita.

    O novo formato toma como referência feiras tradicionais de outras cidades, como Porto Alegre, Lisboa e Madrid, disse o organizador. “O lazer em São Paulo é muito intramuros, dentro de shoppings, dentro de clubes, dentro de casa. Eu pensei que era o caso de a gente tentar trazer isso para a cidade”, afirmou Werneck.

    Realizada em uma área normalmente usada como estacionamento, a feira levanta uma discussão sobre o direto ao espaço público com o mote “mais livros, menos carros”. “Simbolicamente, é importante, é um gesto que a gente quer afirmar mesmo”, disse o organizador. “Eu acho muito legal fazer um evento no lugar que é destinado aos carros, e, por alguns dias, aquilo ficar para pessoas e livros”.

    Grande encontro com o público

    Assuntos variados compõem a programação de debates da feira. O francês Bill François discute seu livro “Elegância da sardinha”, que reúne histórias sobre a vida marinha, em uma mesa com apoio do Instituto Serrapilheira e da Embaixada da França. A espanhola María Dueñas é autora de romances históricos best-sellers.

    Debates em parceria com o Museu do Futebol tratam da relação do esporte com a cultura. Questões de raça e gênero aparecem nas obras de convidadas como Djamila Ribeiro e Yara Nakahanda Monteiro. A desigualdade é abordada em mesas com economistas e cientistas políticos como Armínio Fraga, Marta Arretche e Laura Carvalho (as últimas são colunista e ex-colunista do Nexo, respectivamente). A programação completa pode ser vista aqui.

    Segundo Werneck, mais do que estabelecer um foco temático, a principal preocupação dos organizadores foi de “proporcionar o grande encontro” do público de São Paulo com autores populares, que ainda não tinham participado de um evento literário nesse formato.

    Assim como a Festa do Livro da USP, o evento no Pacaembu também pretende aproximar o público da equipe que trabalha na produção dos livros em editoras de pequeno e médio porte, que geralmente participa também do atendimento nesse tipo de evento. “Uma coisa é a literatura em si, outra é a vida literária. A vida literária acontece no bar, no festival, na livraria. A gente quer trazê-la para essa feira”, disse Werneck.

    Mas a feira não tem a mesma proposta de oferta de descontos praticada pela Festa do Livro da USP, que vende livros a no mínimo a metade do preço. Embora possa haver livros a preços reduzidos no evento, “o nosso ponto aqui não é esse”, afirmou o organizador. “É a qualidade da produção editorial brasileira que a gente quer mostrar”.

    Werneck localiza o evento em um meio termo entre o modelo de venda de livros da Festa da USP e a experiência cultural da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que ele também cita como uma “inegável inspiração” para a feira.

    “O que a gente está buscando não é fazer a coisa mais original do mundo”, afirmou o curador. “Pelo contrário, é uma coisa bastante convencional. É uma feira, só que no lugar de legumes, tem livros. E o resto é ar livre, cachorro, picolé, algodão doce, você tem uma vida de rua”.

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