Quais as novas descobertas sobre os efeitos da covid longa

Passado o momento agudo da pandemia, estudos se debruçam para entender a síndrome pós-infecção, que conta com mais de 200 sintomas listados 

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    Passados dois anos desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou estado de pandemia por causa da covid-19, em 11 de março de 2020, um dos problemas que mobilizam a comunidade científica é o prolongamento dos impactos da doença em quem foi contaminado.

    A covid longa afeta por meses ou anos a saúde física, mental e cognitiva dessas pessoas, de forma leve ou acentuada. Novos estudos, um deles da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, chegaram a conclusões mais sólidas sobre a síndrome.

    Neste texto, o Nexo lista quatro pesquisas publicadas em maio de 2022 e explica como a covid longa impacta a qualidade de vida.

    Os 3 sintomas mais comuns

    Segundo a OMS, já existem 200 sintomas listados atribuídos à covid longa, que afetam diferentes órgãos e áreas do organismo. As pesquisas sobre as sequelas pós-covid indicam que há três manifestações comuns:

    • Fadiga (caracterizada pelo cansaço extremo)
    • Perda de fôlego e dificuldade de respirar
    • Problemas de concentração e memória

    De acordo com a médica Janet Diaz, líder da resposta de gerenciamento clínico da covid-19 na OMS, é possível cogitar a covid longa se a pessoa tiver algum desses sintomas persistentes três meses após ter sido contaminado pelo vírus. “Mas há relatos de pessoas com sintomas há mais de um ano”, disse a médica em vídeo da OMS. A organização frisa que a população deve procurar serviços de saúde caso apresentem os sinais por mais de um trimestre.

    Especialistas em saúde vêm destacando a necessidade de atentar para o problema. “Estamos omitindo essa equação da covid longa. No Brasil, [ela está] completamente invizibilizada”, escreveu a epidemiologista Ethel Maciel, professora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) no Twitter em 23 de maio.

    Segundo Maciel, deixar de lado informações sobre a covid longa nas mãos da comunicação oficial sobre a pandemia é privar as pessoas do conhecimento necessário. “Muitas pessoas estão neste momento sem entender o que está acontecendo com elas, pois estão com sintomas persistentes.”

    Veja abaixo o que dizem os estudos mais recentes sobre os impactos da covid longa na vida das pessoas que sofrem da síndrome.

    Fiocruz

    O que diz o estudo

    Publicado na revista Transactions of The Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene no dia 6 de maio, o estudo da Fiocruz de Minas constatou que metade das pessoas que participaram do estudo e foram diagnosticadas com covid-19 ficam com sequelas por mais de um ano. A pesquisa também contabilizou 23 sintomas depois do término da fase aguda da infecção, sendo a fadiga a mais citada. Coordenado pela pesquisadora Rafaela Fortini, o estudo constatou ainda que a presença de comorbidades como cardiopatia, doenças crônicas pulmonares e tabagismo agrava a infecção por covid-19. As comorbidades aumentam a chance de ocorrência da síndrome.

    Como foi realizado

    A pesquisa acompanhou por 14 meses 646 pacientes entre 18 e 91 anos que tiveram covid-19. Todos foram atendidos entre abril de 2020 e março de 2021 no pronto-socorro do Hospital da Baleia e Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro, referências na doença em Belo Horizonte (MG). O monitoramento dos sintomas e das sequelas da covid longa foi feito por meio de entrevistas mensais.

    Quais as conclusões

    A pesquisa confirmou que a fadiga é a principal queixa dos pacientes (relatada por 35,6% dos participantes). Tosse persistente acometeu 34% e dificuldade para respirar, 26,5%. A perda do olfato ou paladar atingiu 20% dos participantes. Impactos na saúde mental, como ansiedade, foram relatados por 7% dos pacientes. Problemas graves como a trombose, em 6,2% dos monitorados. Em entrevista para a Agência Fiocruz, Fortini afirmou que o estudo permite entender a fisiopatolopia da covid longa e dá condições aos médicos para diagnosticar e tratar as sequelas de forma adequada.

    Fair Health

    O que diz o estudo

    Realizado pela ONG Fair Health, que trabalha com custos de assistência médica e seguros nos Estados Unidos, a pesquisa divulgada no dia 18 concluiu que 76% dos pacientes com covid longa não precisaram ser hospitalizados pela infecção inicial de covid-19, mas desenvolveram incapacidades por causa do vírus. Fadiga, mal-estar, tosse, confusão mental e problemas com sono estão entre os mais citados. De acordo com a pesquisa, quase 35% das pessoas com a síndrome estão no auge produtivo, e têm entre 36 e 50 anos. Mas o problema atinge inclusive crianças: 4% dos pacientes, com menos de 12 anos.

    Como foi realizado

    A Fair Health selecionou 78 mil pacientes entre 1° de outubro de 2021 e 31 de janeiro de 2022 por meio do código de classificação internacional de doenças (U09.9), que se refere a condição não especificada pós-covid.O intervalo corresponde aos quatro primeiros meses da inclusão da síndrome no código de doenças. O estudo não se debruça sobre quanto tempo os sintomas duraram. A ONG disse que os pesquisadores pretendem continuar o acompanhamento dos pacientes para averiguar essas condições.

    Quais as conclusões

    A porcentagem de pacientes diagnosticados com covid longa que não precisou de hospitalização, de 76%, é citado pela Fair Health como uma das descobertas mais notáveis. Na separação por gênero, o estudo apontou que 81,6% das mulheres com covid longa não foram internadas por causa da doença, contra 67,5% dos homens. Em ambos, os sintomas mais comuns foram anormalidades no trato respiratório, dificuldade de respiração e fadiga. A ONG salienta que espera que os dados sirvam de ponto de partida para outros estudos e para formuladores de políticas públicas na criação de serviços voltados a esses pacientes.

    23andMe

    O que diz o estudo

    Realizado pela 23andMe, empresa privada de genômica pessoal e biotecnologia, o estudo mostra que mulheres são as mais propensas a desenvolver a covid longa. Metade das mulheres que participaram da pesquisa apresentaram sintomas de covid longa por mais de seis meses. Publicada no dia 16 no Journal of Women's Heatlh, o estudo traz como explicação central as diferenças hormonais em relação aos homens.

    Como foi realizado

    O estudo da empresa pesquisou mais de 100 mil pessoas que tiveram covid-19 e foram diagnosticadas por meio de testes para a doença. Na análise genética, os pesquisadores apontaram que as mulheres normalmente têm duas cópias do cromossomo x, que tem o maior número de genes ligado ao sistema imunológico, o que significa que respostas imunes diferentes são mais pronunciadas entre as mulheres.

    Quais as conclusões

    Segundo as pesquisadoras da empresa, mulheres são mais suscetíveis a desenvolver doenças autoimunes, como lúpus e esclerose múltipla, o que também influencia na síndrome de covid longa, pois se relaciona com a predisposição genética. Por mais que o estudo faça essa distinção de gênero e indique o acometimento maior entre as mulheres, a pesquisa salienta que ainda há incertezas sobre o “manejo ideal” das pacientes, e que a maioria pode necessitar de cuidados multidisciplinares em longo prazo.

    Blood Advances

    O que diz o estudo

    A análise, publicada no periódico Blood Advances no dia 11, foi realizada por pesquisadores de diversas universidades e hospitais do Reino Unido (como o College London Hospital). E aponta uma explicação para a dificuldade que pessoas com covid longa têm para realizar exercícios físicos. A quantidade de uma proteína sanguínea (VWF), que incentiva a formação de coágulos sanguíneos, atua em uma proporção maior do que a ADAMTS13, que diminuiu os coágulos. Isso causa impactos nos níveis de nutrientes e oxigênio, o que gera fadiga, dores de cabeça e musculares.

    Como foi realizado

    Os pesquisadores acompanharam 330 pessoas com sintomas persistentes de covid-19 após três meses de infecção pelo coronavírus, período que caracteriza a covid longa. Os participantes realizaram dois testes físicos: resistência e capacidade de exercício utilizando um monitor de oxigênio, e exames de sangue, que medem os riscos de coágulos.

    Quais as conclusões

    O resultado mostrou que 20% dos pesquisados tiveram um rendimento esportivo abaixo do esperado, e que 55% tinham a proporção das proteínas VWF/ADAMTS13 alteradas. A pesquisa aponta que mais testes são necessários para aprimorar a relação das proteínas sanguíneas com a covid longa, mas que a descoberta ajuda a apontar caminhos para tratamentos ao problema.

    Ciência e adoção de políticas públicas

    Membro de um grupo de trabalho da OMS de uniformização de desfechos de pesquisa em covid longa, o médico Régis Goulart Rosa, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, disse em entrevista para a Agência Fapesp (Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que o foco da comunidade científica no momento deve ser no estudo da covid longa.

    “É um problema com grande impacto na qualidade de vida das pessoas. Da mesma forma que a gente está tendo uma pandemia de covid-19, também temos uma pandemia de uma doença que causa incapacidades físicas, cognitivas e de saúde mental relacionadas à covid”, disse Rosa.

    De acordo com o médico, as pesquisas científicas precisam ser adotadas como balizadoras para a gestão pública na formação de políticas de saúde eficazes no tratamento da covid longa. “Para alguns será preciso foco na saúde física, para outros na saúde mental. Precisamos de planos de reabilitação para que as pessoas voltem às suas atividades”, afirmou.

    O tratamento varia conforme a sequela: um paciente com covid longa que teve a saúde mental afetada precisa de acompanhamento de psiquiatra e psicólogo. Mas o que fazer de maneira integrada ainda é um desafio para a medicina, que vem trabalhando nas demandas individuais dos pacientes.

    Estados como o Piauí criaram unidades de reabilitação pós-covid no SUS; especialistas da área, em entrevista ao jornal O Globo, defendem que os Centros Especializados em Reabilitação, que já existem no sistema de saúde público (são 258 unidades espalhados pelos 27 estados) sejam utilizados para isso. Segundo eles, porém, falta coordenação nacional e um protocolo nacional pós-covid.

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