Por que o endividamento das famílias brasileiras só aumenta

Pesquisa mostra que dívidas atingem a maior parte da população e que a inadimplência está em níveis elevados. O ‘Nexo’ ouviu economistas para entender os efeitos da situação para o país

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    O endividamento das famílias brasileiras atingiu nível recorde em abril de 2022. A inadimplência também chegou ao patamar mais alto desde o começo da série histórica, iniciada em 2010. Os dados foram divulgados na segunda-feira (2) pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

    77,7%

    das famílias brasileiras estavam endividadas em abril de 2022, segundo a CNC

    O endividamento alto é registrado em um contexto de pouca tração econômica, inflação alta e renda baixa. Para as famílias, a situação pode significar ter de abrir mão de parte do consumo para pagar as dívidas.

    60,2%

    era o nível de endividamento das famílias brasileiras em abril de 2018, ano da eleição presidencial anterior a 2022

    Neste texto, o Nexo destrincha os dados do endividamento no Brasil e explica por que as pessoas estão devendo tanto. Também conversa com economistas sobre os efeitos para as famílias e para a economia. A avaliação é que a priorização de pagamento de dívidas pode prejudicar a retomada da atividade no país.

    O que dizem os dados

    Os números sobre as famílias endividadas no Brasil fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita pela CNC. A pesquisa coleta mensalmente dados de 18 mil famílias espalhadas por todas as capitais brasileiras e o Distrito Federal. Em abril de 2022, os números revelaram que quase 80% das famílias estão endividadas, como mostra o gráfico abaixo.

    DÍVIDAS EM ALTA

    Percentual de famílias endividadas no Brasil. Recorde em abril de 2022

    Uma família endividada é aquela que deve um valor que precisa ser pago em algum momento futuro pré-determinado. É o que acontece, por exemplo, quando uma pessoa faz uma compra parcelada no cartão de crédito. Ela se compromete a pagar o restante do valor em um determinado momento.

    Outro exemplo é de uma pessoa que comprou uma casa, e vai pagando a cada mês a prestação do empréstimo imobiliário que tomou no banco. O carnê de loja e o crédito consignado também configuram dívidas.

    Segundo a pesquisa, a maior fonte das dívidas é o cartão de crédito. A pesquisa vale apenas para pessoas físicas, já que reúne dados de famílias consumidoras.

    Os números também mostram um alto nível de inadimplência. Endividamento e inadimplência não são a mesma coisa. A inadimplência acontece quando a pessoa não respeita o período determinado para pagar uma dívida. Se alguém não quita a fatura do cartão a tempo, por exemplo, torna-se inadimplente. O mesmo vale para quem deixa de pagar as contas ou boletos no prazo.

    Mais de 28% das famílias brasileiras estavam inadimplentes em abril de 2022. É o maior nível desde janeiro de 2010, primeiro mês de realização da pesquisa da CNC.

    INADIMPLÊNCIA

    Famílias inadimplentes no Brasil. Inadimplência no nível mais alto desde janeiro de 2022. Famílias que não vão conseguir pagar contas atrasadas em nível alto, mas abaixo de meados de 2020

    Além disso, quase 11% das famílias brasileiras afirmaram que não terão condições de pagar contas atrasadas. Não chega a ser o nível mais alto da série, mas é também um patamar elevado.

    Por que o endividamento está tão alto

    O registro de endividamento recorde no Brasil acontece em um momento de baixa tração da atividade econômica. Além disso, a renda média dos trabalhadores chegou ao menor nível na série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012. A inflação alta, por sua vez, corrói o poder de compra.

    A pandemia de covid-19 também agravou o cenário da fome. Há relatos de miséria, fila para conseguir ossos e restos de carne, famílias cozinhando com lenha por não conseguir pagar por um botijão de gás e aumento da população de rua.

    Tainari Taioka, pesquisadora do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP), disse ao Nexo que “temos uma inflação alta e a renda está caindo, então as pessoas não dão conta de pagar gastos básicos”. “Tanto que o endividamento hoje não está em gastos muito grandes como financiamento de casa ou de carro. Está em cartão de crédito, em gastos básicos que as famílias não estão conseguindo suprir. E o desemprego é um agravante disso”, afirmou.

    Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV-Eaesp, também associou o endividamento alto ao aumento das taxas de juros no país. Entre março de 2021 e março de 2022, a taxa Selic – taxa básica de juros – foi de 2% ao ano para 11,75% ao ano. “Agora que a taxa de juros está subindo, as pessoas estão se endividando num momento em que o dinheiro está mais caro. Então também não é um bom sinal”, disse a economista ao Nexo.

    Yoshinaga afirmou, no entanto, que há uma parte desse endividamento que é “natural” e “saudável”. “É possível que você esteja endividado simplesmente porque comprou coisas no cartão de crédito e vai pagar daqui um mês”, disse.

    A professora da FGV também disse que, no caso de famílias de mais alta renda, o aumento do endividamento pode ser simplesmente um reflexo do maior uso de cartão de crédito em compras que haviam sido deixadas de lado durante os períodos mais graves da crise sanitária.

    “As pessoas agora estão voltando a fazer despesas que não faziam antes por conta da pandemia, como, por exemplo, férias, passagens aéreas e restaurantes. Então o nível de despesas em cartão de crédito pode ter aumentado por causa da retomada de uma série de atividades”, disse.

    Os efeitos do endividamento alto

    Para as famílias de renda mais baixa que estão endividadas ou inadimplentes, as dívidas podem ser um fator de estresse e dificuldades. Elas podem apertar ainda mais o orçamento da casa em tempos de renda baixa e preços altos.

    “Quando há um endividamento maior, as famílias estão mais comprometidas em pagar essa parcela da dívida. Dado que a inflação está alta, a renda que sobra para consumir é muito pequena. Isso faz com que a demanda total da economia se reduza”, disse Taioka ao Nexo. “E quando não há perspectiva de aumento da demanda, isso gera uma incerteza sobre a produção futura, e os investimentos acabam caindo na indústria, comprometendo também o crescimento econômico do país”, afirmou a pesquisadora do Made-USP.

    Yoshinaga seguiu a mesma linha de raciocínio ao falar sobre os efeitos do endividamento e da inadimplência sobre o consumo. “A partir do momento que as pessoas vão ter menos renda disponível para consumir, isso vai desaquecer a economia”. Segundo a economista, isso pode comprometer a retomada econômica em um momento em que se espera maior ritmo na atividade por causa do cenário de maior controle da pandemia.

    Do ponto de vista macroeconômico, a professora da FGV também disse que “existe essa preocupação de as pessoas se endividarem em níveis que são impagáveis”. Ela também lembrou que a crise global de 2008 teve início com uma crise de inadimplência no mercado imobiliário americano. Ou seja, altos níveis de endividamento e inadimplência aumentam o risco no setor financeiro do país, já que os bancos e empresas podem ficar sem receber os pagamentos.

    Os impactos de medidas do governo

    O governo tomou medidas em 2022 que podem ajudar a aliviar a situação das famílias endividadas. Uma delas é a liberação de saque de até R$ 1.000 no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), que vai até 15 de junho. O governo também abriu um programa de renegociação de dívidas voltado para micro e pequenos empreendedores, que tem prazo de adesão até 31 de maio.

    Além disso, o Auxílio Brasil, programa de transferência de renda, atinge cerca de 18 milhões de famílias. Os valores têm um piso de R$ 400 até o final de 2022 – a Câmara aprovou um projeto para tornar esse valor mínimo permanente, e o texto está sob análise do Senado.

    “Essas medidas são importantes neste momento para tentar conter esse problema, mas são medidas de curto prazo. O governo tem capacidade de atuar dando mais proteção social, fazendo mais investimentos e tomando medidas para enfrentar de fato a crise”, disse Taioka ao Nexo. A pesquisadora do Made-USP também afirmou que a agenda de redução do poder de atuação do Estado agrava as dificuldades de criação de políticas para gerar mais crescimento econômico.

    Yoshinaga seguiu uma linha semelhante: “É claro que o auxílio e liberar FGTS vão ser formas de injetar um pouco mais de dinheiro. A questão é que talvez isso não seja sustentável”. Segundo a professora da FGV, o Brasil precisa melhorar as condições macroeconômicas do país – o que, ela sugere, pode ser feito com reformas. Mas a economista também disse que dificilmente essas medidas irão avançar em um ano de eleições presidenciais.

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