O que é turismo sustentável. E qual sua dimensão no Brasil 

Setor tem potencial por causa das paisagens naturais do país, mas ainda é pouco desenvolvido. Aumento do desmatamento e da destruição ambiental ameaçam atividades

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Com a pandemia de covid-19, as tendências de viagens no Brasil mudaram, com maior procura por destinos no interior do país isolados e próximos da natureza. O quadro levou ao aumento do interesse de turistas pelo chamado turismo sustentável, segundo pessoas que trabalham no setor.

Considerado um setor com potencial por conta das paisagens naturais no Brasil, o turismo sustentável pode contribuir para a preservação ambiental e da cultura do país, além de trazer benefícios econômicos. Apesar disso, o setor ainda é pouco desenvolvido e tem sido ameaçado pelo quadro de destruição ambiental no Brasil nos últimos anos.

O Nexo explica o que é turismo sustentável, qual a sua dimensão no Brasil e quais são os desafios para o crescimento do setor. Mostra também exemplos de iniciativas consideradas de turismo sustentável no país.

O que está por trás do conceito

O conceito de turismo sustentável é definido pela OMT (Organização Mundial de Turismo) como aquele que atende às necessidades dos turistas e também das regiões que os recebem, “ao mesmo tempo em que protege e amplia as oportunidades [da atividade] para o futuro”.

O segmento busca, além de satisfazer os visitantes, promover o desenvolvimento econômico e social local, enquanto conserva os recursos naturais e mantém a integridade cultural da população, garantindo a manutenção da paisagem no longo prazo e distribuindo os benefícios do turismo para todos.

“O turismo sustentável tem quatro princípios: conservação ambiental, equidade social, eficiência econômica e respeito à cultura”, disse ao Nexo Diego Orsini, turismólogo e especialista em planejamento de turismo em áreas naturais. A definição da OMT é de 2003, mas no Brasil o tema começou a ser pensado no fim do século 20, segundo ele.

O turismo sustentável não é uma forma especial de turismo, nem é sinônimo de ecoturismo (turismo de natureza), segundo a OMT e o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). Para eles, todas as formas de turismo, incluindo as mais populares, podem e devem ser sustentáveis.

Faz parte das práticas do turismo sustentável não só preservar áreas verdes, por exemplo, mas reduzir o consumo de água ou de energia — o que empreendimentos como hotéis ou pousadas podem fazer —, utilizar embalagens recicláveis e melhorar a gestão do lixo, segundo Orsini.

Esse tipo de iniciativa pode ser tomada tanto por empresas — hotéis, pousadas ou agências de turismo — que individualmente decidem adotar práticas sustentáveis como por governos, que podem incentivar o segmento em determinada região por meio de políticas públicas.

“Toda atividade econômica pode ser sustentável. Mas o turismo precisa da sustentabilidade porque muitas vezes é ela que favorece que um ambiente [visitado por turistas] seja atrativo. Se alguém tem uma pousada em uma área natural, e aquela área começa a ser degradada, o potencial do lugar de atrair turistas diminui”, disse ao Nexo.

O turismo sustentável no Brasil

O país não tem dados oficiais que indicam o tamanho do turismo sustentável brasileiro. Rankings internacionais, porém, mostram que o Brasil pouco se destaca nesse segmento, apesar do potencial que tem por conta das amplas paisagens naturais.

Segundo o Sustainable Travel Index, índice criado pela empresa de pesquisa de mercado Euromonitor Internacional, o Brasil está na 54ª posição em turismo sustentável. O dado é de 2020. O levantamento leva em conta quesitos como sustentabilidade ambiental, social e econômica, transportes e hospedagem nas viagens em cada país.

Os primeiros 20 países no ranking são europeus, com destaque para a região escandinava. A posição de destaque se deve em parte a medidas recentes tomadas pela União Europeia para frear a mudança climática. Quando se trata apenas de sustentabilidade ambiental, o primeiro lugar fica com Moçambique, que tem diversas áreas de proteção e conservação ambiental.

Apesar disso, o Brasil tem uma série de destinos sustentáveis reconhecidos. Em lista dos 100 principais locais turísticos sustentáveis do mundo, publicada em 2021 pela fundação Green Destinations, foram destaques cidades brasileiras como Bombinhas e Tibau (RN).

O país também tem diversos parques e unidades de conservação que atraem turistas. Em 2020, estudo do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão do governo federal que cuida desses locais, mostrou que cada R$ 1 no órgão gerou outros R$ 7 no entorno dos parques pelo consumo de serviços como hospedagem, transporte, alimentação e atividades de lazer pelos visitantes.

Com a pandemia de covid-19, Orsini afirmou ao Nexo que o interesse por esse tipo de turismo aumentou no Brasil. “Os turistas têm buscado destinos que ofereçam experiências mais particulares — não mais aquele turismo de massa”, disse. Junto com isso, empresários têm começado a deixar de ver práticas sustentáveis como aumento de custo e buscado investir nelas, inclusive como forma de marketing para seus negócios, segundo ele.

O mapa “Turismo Sustentável no Brasil” mantido em uma página do governo federal mostra iniciativas premiadas pelo Ministério do Turismo por aderirem a esse tipo de turismo. Mais de 70 projetos foram reconhecidos desde 2012, quando o governo criou a iniciativa.

Exemplos

Bahia

Na Rota do Cacau no sul da Bahia, em cidades como Itacaré e Ilhéus, as propriedades são abertas para turistas. Na viagem, eles conhecem o cotidiano das roças de cacau e aprendem sobre a natureza local. O projeto cria uma nova fonte de renda para os moradores, o que evita o êxodo rural.

Mato Grosso

Em 2017, o Hotel Sesc Porto Cercado, em Paconé (MT), iniciou a operação da primeira usina solar da região do Pantanal. Com 1.240 placas, a usina produz energia para suprir 50% da necessidade do hotel. O local tem 142 apartamentos e oferece ao público contato com o bioma e a cultura pantaneira.

Amazonas

Na Pousada Uacari, em Tefé (AM), os hóspedes contribuem com uma “taxa de apoio socioambiental” — cobrada na tarifa da pousada — destinada ao financiamento de projetos comunitários na região e à vigilância ambiental. A pousada é gerida pela própria comunidade, que se reveza no atendimento aos turistas.

Santa Catarina

Conhecida como a cidade “mais alemã” do sul de Santa Catarina, Forquilhinha atrai turistas pela arquitetura e por manter tradições da cultura germânica, como a realização da Heimatfest (“a festa das origens”) todos os anos. O local é considerado um destino sustentável por incentivar o uso de bicicletas e a coleta seletiva de lixo, incluindo catadores no mercado de trabalho.

As políticas e os desafios do setor

O governo federal criou em 2019 o Plano Nacional do Turismo. Assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, o texto prevê, entre outras medidas, “estimular a adoção de práticas sustentáveis no setor turístico”, destacando a preservação não só de recursos naturais, mas da cultura dos locais visitados.

O plano, desenvolvido no governo de Michel Temer, tem como objetivo guiar as diretrizes para o setor do turismo e atrair mais visitantes internacionais — que em 2017 foram 6,58 milhões de turistas, segundo a OIT. O país buscava dobrar esse número até 2022, mas a pandemia afetou os planos.

Apesar da intenção de incentivar o turismo sustentável, o texto não apresenta estratégias detalhadas de como melhorar os números do setor. Especialistas afirmaram na época que falta foco nas políticas do governo e que há risco de que avanços obtidos nos últimos anos sejam desfeitos.

O país registrou nos últimos anos, por exemplo, recordes nos índices de desmatamento na Amazônia e em biomas como o Cerrado e o Pantanal, atingido por queimadas em 2020. Órgãos de proteção ambiental como o ICMBio perderam recursos e políticas do setor foram descontinuadas.

O quadro ameaça o turismo sustentável. “Você vai viajar para um país que está destruindo toda a natureza e as culturas ou você vai escolher participar com seu dinheiro em algo mais positivo? O Brasil está criando uma imagem muito negativa”, disse a pesquisadora Laura Sinay em entrevista à Gama Revista.

Para ela, apesar do potencial para o turismo sustentável por causa dos recursos naturais, o Brasil não tem interesse político ou conhecimento técnico para desenvolver o setor. Além da destruição ambiental, ela criticou a falta de proteção do governo federal aos povos indígenas.

Outro desafio para o turismo sustentável está na resistência do setor privado em fazer mudanças, seja por falta de recursos ou de conhecimento, segundo Orsini. “Falta percepção de que o ambiente que trabalham é sensível. A natureza não é inesgotável”, disse ao Nexo.

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