‘Tática do insulto’: os rumos do MBL até o caso Mamãe Falei

Com atuação baseada no que chama de 'politicamente incorreto’, grupo ganhou destaque no impeachment de Dilma, perdeu força ao se apartar de Bolsonaro e agora vive crise por causa de áudios de deputado

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    Uma das principais lideranças do MBL (Movimento Brasil Livre), o deputado estadual paulista Arthur do Val, conhecido como “Mamãe Falei”, desistiu de disputar o governo de São Paulo, perdeu a noiva, mais de 50 mil seguidores nas redes, além do aval do presidenciável Sergio Moro. Ele também foi desfiliado do partido Podemos e se tornou alvo de pedidos de cassação de mandato na Assembleia Legislativa.

    O tombo do parlamentar ocorreu após a divulgação de áudios com comentários sexistas sobre ucranianas, durante visita ao leste europeu a pretexto de cobrir a guerra na Ucrânia. Para muita gente a revelação não foi surpresa. Nas palavras da cientista política Manoela Miklos, num texto para o Nexo, Arthur do Val sempre “usou sua voz para dizer absurdos contra mulheres”, recorrendo à “liberdade de expressão como pretexto para defender a violação de direitos reiteradas vezes”.

    “O deputado youtuber virou uma companhia tóxica após ofender refugiadas em plena guerra. A questão é que ele sempre usou ‘esse tipo de opinião’ para se promover”, lembrou o jornalista Bernardo Mello Franco, em sua coluna no jornal O Globo. “Fundador do MBL, Do Val integra a turma da nova direita que aposta no insulto como arma política”, definiu. O deputado estadual pediu afastamento do grupo político depois que os áudios vieram a público.

    Neste texto, o Nexo resgata o histórico do MBL, assinala as declarações de seus integrantes e as principais polêmicas protagonizadas pelo movimento.

    A atual crise do MBL

    Os áudios machistas de Arthur do Val vieram à tona em 4 de março e abriram uma crise a ponto de pôr em xeque o futuro político do MBL, reportou o jornal Folha de S.Paulo. “A coisa saiu completamente do ‘declaração horrível’ e virou perseguição total para destruir o Arthur e o MBL. Completamente fora de sentido. De boneco queimado a falar que somos nazistas”, escreveu Renan Santos, no Twitter, diante das críticas que o grupo vem recebendo.

    No início de fevereiro, o movimento já havia passado por outro momento de questionamento. O deputado Kim Kataguiri (Podemos-SP), outra liderança do MBL, virou alvo de pedidos de cassação de mandato parlamentar após dizer, no podcast “Flow”, que o nazismo não deveria ter sido criminalizado na Alemanha. Após a publicação de notícias sobre o caso, o parlamentar se desculpou.

    O MBL já vinha sofrendo reveses desde que se apartou do bolsonarismo. Integrante do consórcio que ajudou a eleger Jair Bolsonaro, o movimento viu seu poder de mobilização ser colocado em xeque ao participar da convocação de um ato pelo impeachment do presidente em setembro de 2021. O protesto teve baixa adesão, num contraste em relação ao tempo em que ajudava a levar multidões em manifestações políticas de rua.

    Da rua aos parlamentos

    O MBL surgiu em 2014, convocando protestos contra o PT e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff com um discurso contra a corrupção. O movimento conquistou projeção nacional em 2015, ao levar milhares de manifestantes às ruas.

    Passou a participar da política institucional a partir de 2016, com a eleição de oito de seus integrantes (um prefeito e sete vereadores); cresceu em 2018, compondo uma bancada no Congresso Nacional (quatro deputados federais e dois senadores), alinhado ao discurso do então presidenciável Jair Bolsonaro (à época PSL); declarou romper com o bolsonarismo em 2019 e chegou a convocar protestos na pandemia de covid-19 pedindo o impeachment de Bolsonaro em 2021, mas os atos não vingaram.

    Fundado por cinco jovens –Alexandre e Renan Santos, Kim Kataguiri, Frederico Rahu e Gabriel Calamari –, o grupo político nasceu e cresceu utilizando a internet como principal ferramenta de mobilização para difundir suas ideias e posições. Além de pautas conjunturais, contra o PT e a favor da Lava Jato, o MBL defende uma agenda dita liberal na economia, com menos participação do Estado, e conservadora nos costumes, travando uma guerra cultural contra pautas progressistas.

    Atualmente, Renan Santos é o coordenador e Kim Kataguiri (Podemos-SP) é considerado o principal porta-voz do grupo. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Arthur do Val disse que se afastou do MBL porque não é justo que essas pessoas sofram a consequência de um erro só meu”.

    Integrante desde 2015, o vereador Fernando Holiday (Novo-SP), que é gay, deixou o grupo em 2021, para se dedicar a pautas que, nas suas palavras, “não estavam na lista de prioridades do MBL: as causas LGBTIs e as pautas antiabortistas”.

    O MBL apoiou a candidatura de João Doria (PSDB) à prefeitura de São Paulo, em 2016, esteve nas fileiras bolsonaristas na onda de extrema direita de 2018 e agora abraçou a pré-candidatura do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos), à Presidência.

    O histórico de declarações sexistas

    O histórico de declarações e posicionamentos políticos de integrantes do MBL principalmente contra mulheres é longo. “A misoginia é uma das bases do MBL”, afirmou a jornalista Nina Lemos, em sua coluna no UOL.

    “Sabem as semelhanças entre as feministas e o miojo? Ficam prontas em 3 minutos e são comida de universitário”

    Kim Kataguiri

    coordenador do MBL, em tuíte

    “Essa mulherada está difícil, tá dureza esse feminismo, tá enchendo os culhões

    Renan Santos

    coordenador do MBL, em vídeo

    “O dólar já está mais caro do que puta no Haiti, e a inflação maior que meu pau”

    Fernando Holiday

    quando ainda era do MBL, em vídeo

    “Elas olham e vou te dizer: são fáceis porque elas são pobres

    Arthur do Val

    quando não tinha se afastado do MBL, em áudio

    Em 2015, Fernando Holiday, à época um dos coordenadores do grupo, postou vídeos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e criticou o Dia da Consciência Negra. “É o mesmo que um dia da consciência branca para homenagear Hitler”, disse em um deles.

    Em entrevista ao jornal El País Brasil, Holiday explicou o recurso a frases de efeito “para chocar”. “É uma comparação cabível [entre Zumbi e Hitler]. Usei esse exemplo pra chocar, fazer com que as pessoas reflitam: ‘Por que ele está fazendo uma comparação dessa?’”, afirmou.

    Entre 2015 e 2016, o MBL organizou manifestações pró-impeachment de Dilma que foram marcadas por discursos machistas contra a presidente. “As frases características do MBL para me qualificar foram ‘burra’, ‘vagabunda’, ‘prostituta’, ‘vai para casa’, ‘vai para o tanque’. E aí pairou um silêncio generalizado. Naquele momento, o MBL foi ultravalorizado”, disse a ex-presidente, durante um evento do PT no Dia Internacional da Mulher, ao se manifestar sobre o caso Mamãe Falei.

    Guerra cultural, mais machismo e fake news

    Em 2017, o MBL fez campanha contra a exposição de arte Queermuseu, em Porto Alegre, e contra a performance artística La Bête e a passagem da filósofa feminista Judith Butler, em São Paulo. No Facebook, o movimento insuflou protestos, alçando argumentos conservadores e moralistas construídos com informações distorcidas sobre os eventos.

    Também em 2017, Holiday invadiu escolas públicas para denunciar uma suposta “doutrinação política” por parte dos professores. Ainda no mesmo ano, Kataguiri postou um vídeo afirmando que 70% dos criminosos no país eram reincidentes e que mais de 100 mil estariam em regime semiaberto. Questionado pela Agência Pública sobre a fonte das informações, o MBL classificou a checagem de fatos como intimidação, não respondeu às perguntas e enviou a foto de um pênis de borracha e a legenda “check this!” (cheque isso) à repórter.

    Em março de 2018, o MBL reproduziu uma fake news sobre a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada no centro do Rio de Janeiro. No Facebook, fizeram viralizar o comentário da desembargadora Marília Castro Neves, do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio) que dizia que Marielle “estava engajada com bandidos”. O grupo publicou na página do Facebook o link para um texto intitulado: “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”.

    Em agosto de 2018, o Facebook decidiu deletar 196 páginas e 87 perfis ligados ao movimento. “A verdade é que o MBL só existe por causa do Facebook”, escreveu à época o jornalista Denis R. Burgierman, colunista do Nexo. “Uma maneira de fraudar o Facebook é criar um ecossistema falso: centenas de páginas e perfis que na verdade estão todos sob um mesmo comando, e que compartilham conteúdos ao mesmo tempo, para se fingir de multidão. Isso é um jeito de ludibriar o algoritmo, fabricando a sensação de que algo interessa a muita gente. Outro jeito de dar um drible no algoritmo é mobilizar as emoções das pessoas, principalmente medo e indignação. Tudo o que nos deixa apavorados ou furiosos é lido pelo Facebook como se fosse relevante”, explicou o autor.

    “Foi com base nesses dois truques que o MBL forjou a ilusão de que era altamente relevante: seus conteúdos, com alta carga de medo e ódio, eram rapidamente compartilhados por centenas de páginas e perfis”, completou Burgierman.

    O ensaio de autocrítica e a perda de relevância

    Em 2019, num momento em que se afastava do governo Bolsonaro, Renan Santos deu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em que reconheceu o papel do MBL na abertura de uma “caixa de Pandora de um discurso polarizado” no Brasil. O coordenador do movimento assumiu exageros, como no episódio do cancelamento da mostra Queermuseu.

    O discurso agressivo nas redes, com a tática de estar sempre no ataque, porém, não foram abandonados. Depois da retirada do Facebook, a cúpula do MBL migrou do WhatsApp (que também pertence à empresa americana) para o Telegram, além de manter seus canais em outras plataformas. Continuou investindo, assim, nas redes sociais para articular suas pautas políticas.

    No fim de janeiro de 2022, integrantes do movimento se filiaram ao Podemos para se juntar a Sergio Moro, a fim de disputar as eleições de outubro. Um cenário incerto com a crise aberta nas próprias redes sociais com o áudio de Arthur Do Val na Ucrânia. “Estou realmente com medo de sair na rua, disse o parlamentar, em áudio compartilhado com seus seguidores após a repercussão do caso.

    Renan Santos, que viajou com Arthur do Val para o leste europeu, manteve a defesa do colega. Numa live em 7 de março, ele falou aos berros sobre o risco de cassação do deputado estadual. “Os vagabundos estão se movimentando, e o Arthur vai perder o mandato”, gritou o coordenador do MBL. “Ele não vai poder se eleger por oito anos. Coloca a mão na cabeça, porque, assim, cancelamento, ‘ah, pesado’. Foi uma declaração merda, mas isso não é roubar. E ele tá sendo cassado, porra. Acorda, caralho”, disse, pouco antes de jogar uma caneca no chão.

    “O MBL cresceu em um ambiente político altamente tolerante com a ‘zoeira’ de direita, um tipo de irreverência ‘politicamente incorreta’ e ‘contrarian’ que, para muita gente, pareceu charmosa durante a crise dos governos petistas. Isso perdeu muito da graça depois que um presidente ‘contrarian’ e politicamente incorreto matou mais de 100 mil brasileiros por não acreditar em vacinas”, escreveu o sociólogo Celso Rocha de Barros, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. “O clima ideológico do Brasil de 2022 não é mais aquele em que o MBL floresceu.”

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