Como o TikTok se tornou uma janela para a guerra

Aplicativo de vídeos curtos conquista bilhões de visualizações com cenas do confronto entre Rússia e Ucrânia. Modelo é criticado e é palco de disputa de narrativas

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    A invasão da Ucrânia pela Rússia criou a “guerra do TikTok”, segundo cientistas políticos como Max Abrahms, professor da Universidade Northeastern, nos EUA. O aplicativo de vídeos se tornou uma janela de atualizações em tempo real sobre o conflito no leste europeu – e também o palco para disputas de narrativas entre países do Ocidente e a Rússia.

    Com mais de um bilhão de usuários no planeta – a maior parte deles adolescentes e jovens adultos –, o TikTok conta com uma interface amigável e um algoritmo de recomendação de conteúdo poderoso, que alimenta os feeds com vídeos curtos todos os dias sobre o conflito.

    Neste texto, o Nexo explica como o TikTok se transformou em uma vereda para o que acontece na guerra e o que isso significa.

    O tamanho do TikTok

    Lançado em 2016, o TikTok – da empresa chinesa ByteDance – é um dos maiores aplicativos do mundo. A plataforma fechou o ano de 2021 com 1,2 bilhão de usuários globalmente, em sua maioria pessoas de 14 a 29 anos. O lucro da empresa em 2021 foi de US$ 4,2 bilhões.

    O TikTok permite que os usuários publiquem vídeos curtos – com até um minuto de duração – que podem ser editados com facilidade no próprio aplicativo, permitindo a inserção de trilhas sonoras, filtros e caixas de texto. Há também a ferramenta de transmissões ao vivo com a câmera do smartphone.

    O TikTok e a guerra

    Horas depois da invasão, em 24 de fevereiro, a jovem ucraniana Marta Vasyuta, de 20 anos, publicou vídeos mostrando os primeiros bombardeios russos na capital Kiev e foi dormir. Quando acordou, tinha 9 milhões de novos seguidores. “Foi algo que eu não compreendi”, afirmou Vasyuta à BBC.

    Outros milhares de usuários – ucranianos ou não – começaram a publicar vídeos sobre a guerra. Os conteúdos vão de filmagens em campo a análises sobre o conflito.

    Independentemente da perspectiva, há uma unanimidade: os conteúdos sempre são construídos para criar reações emocionais no público, por meio de entonação da voz de quem narra o vídeo, trilhas sonoras, imagens chocantes, palavrões, etc.

    Estudos da área da comunicação já comprovaram que mensagens que despertam reações emocionais dos interlocutores geram mais engajamento. A pesquisa padrão-ouro mais recente sobre o tema é de 2019, conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia.

    “Usuários que tiveram contato com informações emocionais passam mais tempo consumindo aquele tipo de informação do que aqueles que consomem informações apresentadas com ‘tom neutro’”, diz o estudo.

    A hashtag “Ucrânia” contava com 27,1 bilhões de visualizações na manhã de quinta-feira (10) no TikTok. No Twitter, a mesma busca mostrava publicações que conquistaram 8,9 bilhões de visualizações.

    Até mesmo especialistas e oficiais de governo passaram a se informar pelo TikTok, direta ou indiretamente, pelo volume de conteúdo e pelo alcance dele. “Estou pegando 95% das minhas informações no Twitter”, afirmou à revista Wired Ed Arnold, analista de geopolítica no Instituto de Serviços Reais do Reino Unido, ligado à família real britânica. “Mas uma parcela boa disso tudo são posts com vídeos que vieram do TikTok. É estranho para mim.”

    As críticas ao meio

    Na disputa pela atenção, pelo engajamento e pela emoção, a guerra se tornou terreno fértil para críticas ao modelo do TikTok.

    Marta Vasyuta virou uma espécie de ícone da juventude ucraniana na guerra. Críticos dela, como o jornalista britânico Darren Davidson, do site Storyful, dizem que Vasyuta não verifica os conteúdos publicados e não assume a responsabilidade do alcance que tem. “É a primeira guerra do TikTok, e muita coisa [de Vasyuta e de outros usuários] é inútil”, disse ao jornal inglês The Times.

    Um dos vídeos que ela publicou como sendo de março de 2022 na realidade foi feito em 2014. Ela se defendeu dizendo que apenas reposta o que chega até ela, e que é “impossível” verificar todos os conteúdos. Veículos da imprensa internacional checaram outros vídeos publicados por ela e concluíram a autenticidade deles.

    Há críticas por colunistas de mídia e pesquisadores da comunicação também sobre a parcialidade das postagens. O cerne dos argumentos é de que existem tentativas de se criar uma comoção que não existia em conflitos de países não-europeus, como a invasão do Afeganistão pelos EUA e a guerra na Síria.

    “Está claro que o Ocidente está vendo os ucranianos como ‘gente como a gente’. Mas por que isso não acontece com a população da Síria, que também é atingida por bombas russas?”, questionou Ayman Mohyeldin, colunista de mídia do canal americano NBC.

    “Estamos vendo como o Ocidente enxerga as guerras e casos de violência no Oriente Médio e na África como inevitáveis, quando não são. É um desserviço ao público”, afirmou ao site Axios Maytha Alhassen, pesquisadora de mídia da Universidade de Harvard, nos EUA.

    Desinformação e disputa

    Com milhares de novos vídeos publicados todos os dias, há também campanhas de desinformação e de disputa de narrativas no TikTok.

    Do lado russo, há usuários que reiteram os argumentos do governo Putin de que é preciso “desnazificar” a Ucrânia e que os bombardeios seriam orquestrados pelo próprio governo ucraniano como forma de desmoralizar a Rússia. Os vídeos foram removidos pelo TikTok, mas volta e meia retornam para a plataforma até serem denunciados novamente.

    Segundo um relatório da Cyabra, empresa israelense que monitora a desinformação nas redes, houve um aumento de 11.000% na atividade de grupos ligados ao governo russo para atuar na divulgação de propaganda pró-Putin no TikTok nos três primeiros dias da guerra.

    “Foi um aumento expressivo de vídeos com teor anti-Ucrânia. Sabemos que tem algo acontecendo”, disse a Cyabra em nota enviada à agência Associated Press.

    O TikTok reiterou, também em nota, que conteúdos com desinformação serão removidos sumariamente da plataforma sempre que forem detectados. Na segunda-feira (7), a plataforma anunciou a suspensão temporária de seus serviços na Rússia.

    Não há solução fácil para eventuais problemas. Com milhões de novos vídeos sendo publicados diariamente, mesmo se a moderação conseguisse analisar 99% deles, o 1% restante ainda poderia fazer um grande estrago de desinformação”, disse à revista Wired Claudia Flores-Saviaga, pesquisadora de desinformação da Universidade Northeastern, nos EUA.

    “Em um caso de crise, como guerras e desastres naturais, pode ajudar a criar uma sensibilização coletiva sobre um mesmo assunto”, afirmou. Ela ressalta que esse processo pode ser feito tanto com informações legítimas, como com desinformação.

    Flores-Saviaga disse que é cedo para medir se a desinformação publicada no TikTok teve algum impacto negativo, mas que “nos próximos meses” será possível tecer uma análise mais acertada.

    Anne Kruger, diretora do centro de pesquisas australiano First Draft, que estuda a desinformação, também afirma que é cedo para medir o impacto, mas que ele pode existir. “As pessoas vão no TikTok para se entreter, mas no meio do caminho podem receber informações questionáveis ou puramente falsas sobre a guerra. Pode vir a ser um problema”, diz ao jornal americano Wall Street Journal.

    O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, passou a usar o TikTok como ferramenta para a distribuição de propaganda e de comunicados oficiais. Nos vídeos, ele detalha as ações do governo, rebate os argumentos do lado russo e se comunica diretamente com a população.

    Apesar do uso, Zelensky concentra suas comunicações oficiais mais no Twitter e no Facebook do que no TikTok.

    As particularidades do TikTok

    Em 2011, Facebook e Twitter foram ferramentas políticas importantes na organização da chamada “Primavera Árabe”, onda de manifestações populares iniciadas na Tunísia. O nome fazia referência à estação do ano que então se aproximava no hemisfério norte e também evocava a “Primavera de Praga”, na qual jovens da Tchecoslováquia protestaram contra a dominação soviética em 1968.

    Num sentido mais simbólico, a “primavera” era uma referência à ideia de despertar e de renovação em países nos quais jovens politicamente engajados, insatisfeitos com as condições econômicas e conectados pelas novas tecnologias da informação pressionaram por reformas democráticas em regimes controlados há décadas por ditadores.

    Da Tunísia, o movimento se espalhou, primeiramente, para países como Egito, Líbia, Bahrein, Síria e Iêmen. E, em seguida, para Iraque, Omã, Mauritânia e Líbano, entre outros. Em cada um desses locais, a Primavera adquiriu dinâmica própria, resultando em revoluções, golpes, contra golpes e guerras civis.

    Desde então, o poder das mídias sociais em eventos sociopolíticos importantes passou a ser mais estudado. No Brasil, as jornadas de junho de 2013 tiveram forte participação dessas redes sociais - além dos grupos de WhatsApp, que viriam a se transformar num forte meio de propaganda política e eleitoral. Na Ucrânia, as manifestações de 2013 e 2014, que acabaram com a deposição de um governo pró-Rússia, também tiveram protagonismo nas redes.

    Na guerra de 2022, no entanto, Facebook e Twitter não têm o protagonismo. As razões são peculiaridades técnicas do TikTok: além do apelo a um público mais jovem – que tem menos presença nas outras duas redes –, a plataforma, com seus vídeos curtos e interface simples, consegue gerar um apelo maior, especialmente pela visualidade dos conteúdos.

    “O TikTok é uma ferramenta que consegue roubar a atenção das pessoas rapidamente”, disse Flores-Saviaga. O algoritmo de recomendação do TikTok também ajuda a aumentar a força da plataforma no contexto da guerra. Os usuários recebem vídeos de milhares de pessoas – até mesmo aquelas a quem não seguem.

    Se um vídeo é reproduzido até o fim, o algoritmo entende que aquela pessoa se interessa por aquele assunto específico e passa a fornecer mais e mais conteúdos do tipo. “O TikTok lê sua mente”, afirmou Ben Smith, ex-colunista de mídia do jornal americano The New York Times, ao analisar como o programa pode criar bolhas muito específicas com base naquilo que captura a atenção das pessoas.

    Além desses fatores, Anne Kruger disse que o fato dos vídeos do TikTok tocarem em loop até que o usuário escolha parar ajuda a reforçar qualquer mensagem que seja veiculada de maneira persuasiva na plataforma. “Tudo acaba sendo reforçado”, afirmou ao jornal americano The Wall Street Journal.

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