Rússia de Putin ataca a Ucrânia, que vê guerra ‘de larga escala’

Presidente russo dá início a operação militar em país vizinho e diz que ‘interferências’ merecem ‘resposta imediata’ com consequências ‘nunca experimentadas’. Explosões são ouvidas na capital Kiev

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    O presidente russo, Vladimir Putin, deu início nesta quinta-feira (24) à invasão da Ucrânia. A decisão já tinha sido decretada por ele na segunda-feira (21), com foco no leste do pais vizinho, mas ainda não havia sido concretizada. A região em questão, Donbass, abriga territórios separatistas pró-Rússia.

    Putin disse que “qualquer um que tente interferir conosco, ou mais ainda, criar ameaças para nosso país e nosso povo, deve saber que a resposta da Rússia será imediata e o levará a consequências como você nunca experimentou em sua história”. O presidente russo também afirmou que pretende “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia. Putin ainda disse que o derramamento de sangue em meio aos conflitos será responsabilidade do “regime ucraniano”.

    Há relatos de explosões em regiões além do Donbass, incluindo a capital Kiev. Houve registros de bombardeios também em Kharkiv, segunda maior cidade do país, e nas cidades portuárias de Mariupol e Odessa. A Rússia diz que os ataques são dirigidos contra alvos militares, mas a infraestrutura civil tem sido afetada.

    Com a ação, a Rússia de Putin, uma potência nuclear, repete o que já havia feito com a Crimeia em 2014, a despeito dos protestos de potências do Ocidente. Na região de Donbass há duas áreas – Donetsk e Luhansk – reivindicadas agora por Moscou.

    foco DO CONFLITO

    Mapa mostra áreas em disputa entre a Ucrânia e a Rússia

    A principal justificativa de Putin é que, desde os anos 1990, a Otan, tratado militar liderado pelos EUA desde os tempos da Guerra Fria, avança sobre ex-repúblicas soviéticas que antes estavam sob influência russa. A recente aproximação da Ucrânia com a Otan é usada por Putin como argumento para agir. O mapa abaixo mostra a geopolítica atual.

    PRESENÇA OCIDENTAL

    Mapa mostra os países-membros da Otan, assinalando os que faziam parte da URSS e do Pacto de Varsóvia

    O anúncio de Putin sobre a invasão ocorreu quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunia em Nova York a fim de lidar com a crise na Ucrânia. Essa reunião havia sido agendada a pedido do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

    Ao final da reunião, o embaixador ucraniano disse ao embaixador russo: “Não há purgatório para criminosos de guerra. Eles vão direto ao inferno”. Em resposta, o representante da Rússia afirmou: “Não estamos sendo agressivos contra o povo ucraniano, mas contra a junta no poder em Kiev”.

    O governo ucraniano diz temer uma guerra de larga escala”. Afirma também que Putin deu início a uma “invasão total”. “Esta não é uma invasão apenas no leste da Ucrânia, mas um ataque de larga escala desde múltiplas direções”, escreveu o chanceler Dimitri Kuleba no Twitter. “As forças de defesa da Ucrânia não colapsaram. O Exército ucraniano está na luta. A Ucrânia segue firme e continua a se defender”.

    Ainda nesta quinta-feira (24), o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, condenou o ataque e disse que os 30 países-membros se reunirão para acordar uma resposta unificada. A Ucrânia não é integrante do grupo, e uma resposta militar direta está descartada.

    “Não temos tropas da Otan na Ucrânia e não temos planos de enviar tropas da Otan para a Ucrânia”, afirmou Stoltenberg. O secretário-geral afirmou, no entanto, que está aumentando o efetivo militar da aliança para seus membros a leste. O tratado abrange países como Estônia, Lituânia e Letônia, que fazem fronteira com a Rússia, e a Polônia, que tem fronteira com a Ucrânia. Eles acionaram a aliança para discutir a segurança de seus territórios.

    O direito internacional proíbe que um país faça uso de força militar contra outro, salvo se estiver respondendo imediatamente a uma agressão sofrida ou se contar com aprovação do Conselho de Segurança da ONU. A ação da Rússia na Ucrânia não se enquadra em nenhum desses casos, o que a torna ilegal, como pontuaram líderes europeus e os EUA.

    Ataques e primeiras reações

    Embora as tensões entre Rússia e Ucrânia tenham como cerne as áreas de Donetsk e Luhansk, os ataques nas primeiras horas de quinta (24) não se restringiram ao leste do país, segundo relatos da imprensa.

    De acordo relatos que têm sido publicados por jornais e agências de notícias, grandes cidades ucranianas registraram explosões. Segundo o jornal The New York Times, há ataques aéreos, por terra (com uso de tanques) e mar (com uso de forças navais).

    Explosões foram ouvidas à distância em Kiev, que registra engarrafamentos nas estradas de saída da capital e pessoas se abrigando em estações de metrô. Há imagens de destruição em Kharkiv, segunda principal cidade do país. Sirenes de alerta antiaéreo soaram em ambas as cidades nesta quinta-feira (24), incluindo Lviv, o principal centro ocidental da Ucrânia.

    Autoridades ucranianas falam em ataques em ao menos dez regiões, sobretudo no leste e no sul do país. O ministro de Relações Exteriores da Ucrânia disse que a Rússia começou uma “guerra de larga escala”. O governo ucraniano fala em pelo menos 40 soldados mortos, além de 10 civis.

    Pouco após os primeiros ataques, o governo dos EUA emitiu uma nota dizendo que Putin “escolheu uma guerra premeditada que trará perdas catastróficas de vidas e sofrimento humano”. O comunicado também afirma que a Rússia é “a única responsável pelas mortes e destruições que esse ataque trará”.

    Ao longo da quinta-feira (24), os EUA e aliados deverão anunciar uma nova leva de sanções contra a Rússia. As medidas devem ocorrer em “escala total”. Membros dos dois partidos do Congresso americano já manifestaram amplo apoio ao endurecimento das retaliações.

    No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores pediu que brasileiros que estejam na Ucrânia saiam do país. O órgão clamou pela retomada das negociações diplomáticas. "O Brasil apela à suspensão imediata das hostilidades e ao início de negociações conducentes a uma solução diplomática para a questão, com base nos Acordos de Minsk e que leve em conta os legítimos interesses de segurança de todas as partes envolvidas e a proteção da população civil."

    O presidente Jair Bolsonaro não se manifestou até a manhã desta quinta (24).

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