Como a maior comunidade ucraniana no Brasil reage à crise

Prudentópolis, cidade no Paraná cuja população é formada por 75% de descendentes de imigrantes vindos da Ucrânia, está com medo de ‘perder o país’

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A invasão à Ucrânia pelo presidente russo Vladimir Putin iniciada nesta quinta-feira (24) deixa o mundo atemorizado. Em poucas horas, cenas de destruição, êxodo civil e explosões em pontos estratégicos da capital Kiev foram vistas, e há uma movimentação de líderes mundiais em busca de uma solução.

No Brasil, uma cidade em especial acompanha com atenção os fatos no país europeu: Prudentópolis, na região central do Paraná, onde está a maior comunidade ucraniana do Brasil. A população se diz preocupada, chocada e em luto pela situação. Uma mobilização foi convocada na cidade na noite de quinta para prestar solidariedade à Ucrânia. A capital do estado, Curitiba, também registrou atos.

Segundo dados da prefeitura, 75% dos pouco mais de 50 mil habitantes, de acordo com a última estimativa disponível do IBGE, são descendentes de imigrantes ucranianos. A preservação cultural, o grande número de igrejas em estilo bizantino e o uso da língua ucraniana na cidade são alguns dos aspectos que fazem com que Prudentópolis seja conhecida como a "Ucrânia brasileira".

Neste texto, o Nexo explica a história da imigração dos europeus à cidade paranaense e traz depoimentos de moradores sobre os ataques russos.

As origens de Prudentópolis e sua fundação

No final do século 19, por volta de 1893, foram atraídas para a região de Prudentópolis cerca de 1.500 famílias ucranianas. "A Ucrânia e a Europa passavam por uma situação econômica ruim, e a região já era de conflitos e tensões. Por isso as pessoas viram oportunidade de vir para a América do Sul e mudar de vida", explica a historiadora Oksana Jadvziak, vice-presidente do Museu do Milênio, que se dedica a contar a história da imigração ucraniana no Paraná. Oficialmente, o município foi fundado em 1906, e o nome escolhido é uma homenagem ao presidente Prudente de Morais (que exerceu o mandato de 1894 a 1898).

Segundo a historiadora, ao se depararem com o clima tropical e com a necessidade de construir uma cidade do zero, os imigrantes ucranianos se apegaram à religião católica: das cerca de 100 igrejas da cidade, pelo menos a metade foi construída no estilo bizantino ucraniano, e padres foram trazidos da Ucrânia.

Um dos apelidos de Prudentópolis, inclusive, é "capital da oração", devido ao grande número de igrejas e pelo crescimento do turismo religioso ao longo das últimas décadas. O turismo de aventura é outro nicho, por conta das cachoeiras gigantes da região.

A imigração mais intensa na cidade ocorreu até a década de 1920, e os ucranianos tornaram-se pequenos agricultores, pecuaristas e industriais. O município se destaca hoje pela fabricação de produtos como mel, erva-mate e feijão preto.

Cultura: a aproximação com a Ucrânia

Embora ainda haja em Prudentópolis moradores com parentes que vivem na Ucrânia, os laços com o país europeu se dão mais pela preservação cultural de tradições que se mantêm por gerações do que por vínculos familiares próximos.

Na cidade, são comuns e numerosos os grupos de dança e folclore, e as tradições são mantidas e propagadas por meio de encontros e festas que reúnem o artesanato tradicional como bordados e as pêssankas (ovos de galinha e ganso pintados à mão). A comida típica é onipresente nos bares e restaurantes, com pratos como o Varenek (pastel cozido recheado) e a borscht (sopa de beterraba).

Outro aspecto forte é a língua: não é incomum andar por Prudentópolis e ouvir pessoas conversando em ucraniano pelas ruas e no comércio. Desde 2021, projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal estabeleceu a língua ucraniana como idioma co-oficial na cidade.

Prudentópolis também tem acordo de cooperação com a cidade de Ternopil, no oeste da Ucrânia. Nesta quinta (24), a prefeitura elaborou um ofício para enviar à região e se colocou à disposição para receber pessoas que deixarão a cidade por causa do conflito.

A gente não sabe se vai perder o país’

Nascido em Prudentópolis e descendente de ucranianos, o professor e tradutor André Zakalugem, que integra a irmandade dos Cossacos (grupo de homens que representam os guerreiros ucranianos), não conseguiu desgrudar do noticiário desde a madrugada. Reunido com os amigos na quarta-feira (23), Zakalugem começou a ficar apreensivo com as movimentações russas e acordou com a notícia da invasão.

"Está um clima de luto aqui na cidade. Estou vendo pessoas bem abatidas. Quem estava feliz antes acompanhando as vitórias do futebol ucraniano, agora está triste. É um sentimento de impotência, porque a gente se sente incapaz de poder ajudar", falou Zakalugem ao Nexo. "A mobilização que organizamos é uma tentativa de ao menos demonstrar apoio. Precisamos nos colocar no lugar deles. Eu espero que isso acabe o quanto antes, e da melhor maneira possível."

Apesar de ser parte da minoria da população de Prudentópolis que não descende de ucranianos, o diretor do departamento cultural da prefeitura, Fernando Demenec, que mora na cidade desde 2013, foi atraído para os movimentos culturais dos imigrantes; ele é um dos integrantes do Grupo Folclórico Ucraniano Brasileiro Vesselka.

Segundo ele, a preocupação geral dos moradores é de que possa ocorrer um ataque em massa na Ucrânia – várias regiões do país já foram bombardeadas pela Rússia. "O movimento nos surpreendeu de ontem para hoje, porque eu achava que era algo só nas regiões separatistas [Donetsk e Luhansk]. Estamos apreensivos com um ataque em massa e o clima por aqui é de consternação", disse Demenec ao Nexo.

Formada em história pela Universidade Católica de Lviv, uma das cidades ucranianas que já foi bombardeada pela Rússia nesta quinta-feira (24), Oksana Jadvziak, do Museu do Milênio, ficou "extasiada" com as imagens que viu na televisão e nas redes sociais de madrugada.

Ela morou em Lviv entre 2008 e 2014, quando deixou Prudentópolis para estudar na Ucrânia, com uma bolsa de estudos que recebeu por falar e escrever em ucraniano (aprendeu o idioma na família, sobretudo com a mãe, Frozina).

No último ano em que morou na Ucrânia, Jadvziak viu os violentos protestos em Kiev contra o governo do então presidente eleito, Viktor Yanukovych. "Teve um dia que presenciei mortes de pessoas. Hoje quando vi tanques e bombardeios, não acreditei. É uma situação muito triste. A gente não sabe se vai perder o país", falou a historiadora ao Nexo.

Jadvziak estabeleceu contatos breves com amigos, professores e pais de amigos que vivem na Ucrânia. "Todos eles estão em uma situação muito crítica e, por enquanto, estão pensando no que fazer, se vão sair de lá ou não. Eu vou abrir a minha casa para quem precisar, para quantas pessoas precisar."

A historiadora também relatou que alguns amigos, na faixa dos 20 anos, falaram que não pretendem sair de lá. "Nós no Brasil não estamos acostumados com cenas de guerra. Eles [os ucranianos] têm esse espírito de luta e bravura."

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