Como a invasão russa à Ucrânia ecoa na política brasileira

Bolsonaro diz que ‘quer paz’, mas evita confrontar Putin diretamente, após ter se solidarizado com a Rússia em viagem a Moscou. No Conselho de Segurança, Brasil votou pela condenação da invasão

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O presidente Jair Bolsonaro se pronunciou nas redes sociais sobre a invasão da Rússia à Ucrânia na quinta-feira (24), horas depois do início do conflito, afirmando que “quer a paz” e que busca auxiliar os brasileiros que estão em Kiev, capital do país invadido.

O brasileiro, porém, evitou condenar a decisão de Vladimir Putin de bombardear e enviar tropas ao país vizinho, e desautorizou declarações de seu vice, Hamilton Mourão, criticando o ataque. Em transmissão ao vivo, Bolsonaro disse que deve se reunir com ministros antes de definir a posição do Brasil sobre o tema. Na sexta (25), o Brasil votou pela condenação da invasão no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Neste texto, o Nexo mostra a reação de Bolsonaro e de outros órgãos do governo federal à invasão da Ucrânia, e resgata os posicionamentos do Brasil em meio à crise. Mostra também as cobranças feitas ao país e a posição de outros atores políticos.

O que Bolsonaro disse até agora

Ao comentar a investida russa na Ucrânia, Bolsonaro afirmou em transmissão ao vivo no início da noite desta quinta-feira (24) que “sempre, na medida do possível, queremos a paz. A paz interessa para todos nós. A guerra não interessa para ninguém”.

O pronunciamento foi informal. Segundo o presidente, mais tarde ele deve se reunir com Carlos França, ministro das Relações Exteriores, e com outros integrantes de seu gabinete para definir a manifestação oficial do Brasil a respeito do conflito. Na transmissão, ele evitou condenar a ação russa.

O direito internacional proíbe que um país faça uso de força militar contra outro, a não ser como resposta imediata a uma agressão sofrida ou se contar com aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A ação da Rússia na Ucrânia não se enquadra em nenhum desses casos, o que a torna ilegal, como destacaram ao longo do dia líderes europeus e os EUA.

Carlos França estava ao lado de Bolsonaro durante a transmissão. O ministro disse que há cerca de 500 brasileiros na Ucrânia e que a Embaixada do Brasil em Kiev está aberta para quem busca proteção. Ele também afirmou que o governo planeja o resgate de brasileiros do país, mas que isso não deve ocorrer no curto prazo.

“Vamos tirar brasileiros [do país] quando houver condições ideais de segurança”, disse França na transmissão. O espaço aéreo ucraniano está fechado desde a invasão da Rússia. Mais cedo nesta quinta (24), jogadores de futebol brasileiros que estão na Ucrânia haviam pedido ajuda para voltar ao Brasil.

Na transmissão, Bolsonaro desautorizou a declaração do vice-presidente Hamilton Mourão feita na quinta de que o Brasil não concorda com a invasão russa à Ucrânia. “Quem fala sobre esse assunto é o presidente. E o presidente chama-se Jair Messias Bolsonaro”, disse.

A primeira manifestação de Bolsonaro sobre o conflito havia sido durante a tarde, nas redes sociais, dirigindo-se aos brasileiros que estão na Ucrânia. Nas mensagens, ele também evitou condenar a invasão. Fez o mesmo em eventos de que participou durante o dia, nos quais sequer falou sobre o assunto.

A posição e a demora do Itamaraty

A primeira manifestação oficial de um órgão do governo federal após a invasão russa à Ucrânia foi divulgada pelo Ministério das Relações na manhã desta quinta-feira (24). A pasta afirmou em nota que o governo pede “suspensão imediata de hostilidades” na região.

A nota também evitou condenar a ação de Putin. Cobrado pela falta de críticas, Adriano Pucci, diretor do Departamento de Comunicação Social do Ministério das Relações Exteriores, disse em entrevista para jornalistas que o Brasil adota posição de equilíbrio.

A posição do Brasil é de equilíbrio, é de apego inafastável ao direito internacional [...] Nossa convicção é que quanto mais se deteriora uma situação, mais razão existe para o diálogo. E também que o Brasil não pretende contribuir para fazer rufarem os tambores de guerra”

Adriano Pucci

diretor do Departamento de Comunicação Social do Ministério das Relações Exteriores, em entrevista para jornalistas nesta quinta-feira (24)

Segundo informações de bastidores obtidas pela CNN Brasil, o Itamaraty aguardava um aval de Bolsonaro para que pudesse divulgar uma nota condenando os ataques da Rússia à Ucrânia. A avaliação de diplomatas brasileiros é de que a decisão sobre o tom do posicionamento se deslocou do ministério para o Planalto.

Na quinta-feira (24), a Embaixada dos EUA em Brasília cobrou que o governo brasileiro condene a invasão russa. Autoridades brasileiras também cobraram o governo.

Da solidariedade à condenação

A tentativa da diplomacia brasileira de se equilibrar entre a posição dos países que condenam a invasão russa, como EUA e aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e do presidente Vladimir Putin vem desde o início da crise atual entre Rússia, Ucrânia e o Ocidente, no fim de 2021.

O governo federal reluta em condenar os russos porque considera o país um parceiro econômico estratégico, além de o governo de Putin ser sócio do Brasil no Brics (agrupamento criado em 2006 e também formado por Índia, China e África do Sul).

Em meio às tensões entre Rússia e Ucrânia, Bolsonaro viajou a Moscou em fevereiro para conversar com Putin sobre a importação de fertilizantes da Rússia para o Brasil. Na ocasião, o presidente disse ser “solidário” à Rússia, sem explicar por quê, despertando cobranças dos EUA e da própria Ucrânia.

Manifestações e cobranças

SOLIDARIEDADE À RÚSSIA

Em 16 de fevereiro, durante viagem a Moscou, dias antes do anúncio de envio das tropas de Putin à região separatista da Ucrânia, Bolsonaro expressou “solidariedade” à Rússia, que já concentrava militares na fronteira do país vizinho desde o fim de 2021. O presidente brasileiro também se referiu a Putin como alguém que busca a paz.

RECLAMAÇÃO DOS EUA

Em 18 de fevereiro, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que a viagem de Bolsonaro à Rússia indicava que o Brasil poderia “estar do outro lado da comunidade global”. “A vasta maioria da comunidade global está unida em torno de uma visão compartilhada, de que invadir um outro país, tentar tirar parte do seu território e aterrorizar a população certamente não está alinhado com valores globais”, afirmou. O Departamento de Estado americano, que cuida da política externa do país, já tinha dito que o momento da fala de Bolsonaro “não poderia ser pior”.

RESPOSTA DO BRASIL

Em 19 de fevereiro, o Ministério das Relações Exteriores, sob o comando de Carlos França, emitiu uma nota para responder aos americanos. Disse que “as posições do Brasil sobre a situação da Ucrânia são claras e públicas” e afirmou que a pasta “não considera construtivas, nem úteis, portanto, extrapolações semelhantes a respeito da fala do presidente”.

DISCURSO NO CONSELHO DE SEGURANÇA

Em 21 de fevereiro, dia em que Putin reconheceu a independência das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk e enviou tropas à Ucrânia, o embaixador do Brasil na Organização das Nações Unidas, Ronaldo Costa Filho, fez um discurso em que defendeu um cessar-fogo imediato e a “retirada abrangente de tropas e equipamentos militares no terreno”. Não houve menção direta às decisões de Putin ou ao presidente russo.

NOTA DO MINISTÉRIO

Em 22 de fevereiro, diante do agravamento da crise na Ucrânia, a pasta publicou nova nota sobre o assunto. “Diante da situação criada em torno do status das autoproclamadas entidades estatais do Donetsk e do Luhansk, o Brasil reafirma a necessidade de buscar uma solução negociada (...) e que leve em consideração os legítimos interesses de segurança da Rússia e da Ucrânia (...). Apela a todas as partes (...) que estabeleçam, no mais breve prazo, canais de diálogo capazes de encaminhar de forma pacífica a situação no terreno”, afirmou.

PRESSÃO UCRANIANA

Em 22 de fevereiro também, o chefe da embaixada da Ucrânia no Brasil, Anatoliy Tkach, atribuiu a toda a comunidade internacional a responsabilidade pela prevenção do conflito e disse que uma postura neutra serve apenas para a escalada das tensões. Ao Brasil ele fez um apelo para que o governo Bolsonaro condene as decisões de Putin.

CONDENAÇÃO NO CONSELHO DE SEGURANÇA

Em 25 de fevereiro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas voou uma resolução para condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia. O Brasil votou a favor da condenação, endurecendo seu posicionamento em relação ao governo Putin. A resolução, porém, acabou derrubada porque a Rússia, membro permanente do órgão, exerceu seu poder de veto.

Os comentários de outros atores políticos

Pré-candidatos às eleições presidenciais se manifestaram sobre a invasão à Ucrânia ao longo de quinta-feira (24). Líder nas atuais pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condenou a ação da Rússia, em entrevista a rádios do Distrito Federal.

“É lamentável que, na segunda década do século 21, a gente tenha países tentando resolver suas divergências, sejam territoriais, políticas ou comerciais, através de bombas, de tiros, de ataques, quando deveria ter sido resolvido numa mesa de negociação”

Luiz Inácio Lula da Silva

ex-presidente da República e pré-candidato pelo PT nas eleições de 2022

A liderança do PT no Senado, partido de Lula, divulgou uma nota oficial em que atribuiu à política externa dos EUA o conflito na Ucrânia. Assinado pelo senador Paulo Rocha, o texto foi ao ar horas depois de a Rússia invadir o país vizinho. Depois, porém, foi apagado.

Procurada pelo Nexo, a assessoria de comunicação de Paulo Rocha afirmou que a nota foi um equívoco e foi redigida a partir de uma posição pessoal de um dos assessores do partido. Segundo a liderança da sigla, o erro foi corrigido e uma nova versão do texto deve ir ao ar.

O partido foi criticado por opositores que lembraram outros episódios em que Lula e demais integrantes do PT evitaram condenar governos com alinhamento ideológico ao da legenda, como ocorreu antes em debates sobre Nicarágua, Cuba e Venezuela.

Ex-juiz da operação Lava Jato e pré-candidato à Presidência pelo Podemos, Sergio Moro escreveu no Twitter que repudia “a guerra e a violação da soberania da Ucrânia. A paz sempre deve prevalecer”. Em entrevista para o programa de rádio Turma do Ratinho, criticou a nota do PT, que considerou “desastrosa” por pôr “ideologia à frente da relação internacional”.

Pré-candidato pelo PDT, o ex-governador cearense Ciro Gomes também condenou a invasão russa. “No mundo atual não existe mais guerra distante e de consequências limitadas. Precisamos nos preparar, portanto, para os reflexos do conflito entre Rússia e Ucrânia”, escreveu no Twitter, referindo-se a possíveis efeitos na economia.

João Doria, governador de São Paulo e pré-candidato a presidente pelo PSDB, disse que “guerra nunca é resposta a nada” e que “ninguém ganha quando a violência substitui o jogo”. “O que está em jogo são milhões de vidas humanas”, escreveu em seu perfil no Twitter.

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