Qual o cenário após 2 anos do primeiro caso de covid no Brasil

Homem foi diagnosticado com doença em São Paulo no mês de fevereiro de 2020. Neste início de 2022, vacinação está avançada, há boas perspectivas, mas circulação da variante ômicron traz desafios

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    O primeiro caso brasileiro de covid-19 completa dois anos neste sábado (26). Depois de fazer uma viagem à Itália e desenvolver sintomas respiratórios, um homem de 61 anos de São Paulo recebeu o diagnóstico até então inédito da doença no país nesse mesmo dia em 2020.

    A pandemia cresceu rapidamente no Brasil desde então. Com uma série de erros e omissões no combate à covid-19, o país registrou mais de 645 mil mortes pela doença até esta quarta-feira (23). Mesmo depois de os governos terem aplacado a crise com o avanço da vacinação em 2021, a descoberta da variante ômicron trouxe novos desafios, com novos recordes de infecções e aumento da pressão sobre o sistema de saúde.

    O Nexo explica qual o cenário da pandemia no Brasil dois anos depois do primeiro caso do coronavírus, com foco na atual onda causada pela variante ômicron e no estágio da vacinação. Mostra também quais são as projeções para o futuro.

    A onda causada pela ômicron

    O país vive um novo surto de casos de covid-19 desde janeiro após o aumento da circulação da ômicron, variante do coronavírus identificada pela primeira vez na África do Sul e classificada como “de preocupação” pela OMS (Organização Mundial da Saúde) por ser mais transmissível e escapar parcialmente da proteção conferida pelas vacinas.

    Com a circulação da nova cepa e o aumento da mobilidade das pessoas desde o fim de 2021, o país atingiu mais de 200 mil novas infecções diárias em janeiro de 2022 pela primeira vez desde o início da pandemia, segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

    O país vinha registrando no mês anterior menos de 10 mil novos casos de covid-19 por dia — um dos patamares mais baixos da pandemia. A queda nos registros foi influenciada por um ataque hacker no Ministério da Saúde em dezembro que prejudicou a coleta de dados. Passado esse período, os novos casos dispararam:

    Depois de semanas registrando mais de 100 mil infecções pelo coronavírus todos os dias, o país dá sinais de que começará a sair desse patamar, diante de quedas consecutivas de novos casos desde o início de fevereiro. Nesta quarta-feira (23), o Conass registrou média móvel de 96,8 mil infecções diárias de covid-19 nos últimos sete dias no país.

    A série de reduções de novos casos nas últimas semanas sugere que o pico da onda de covid-19 causada pela variante ômicron tenha passado. Fenômeno semelhante ocorreu em países como o Reino Unido, que depois de uma alta acentuada de novas infecções no fim de 2021 viu os casos desacelerarem em janeiro.

    Dados de mortes por covid-19 também voltaram a crescer com a circulação da ômicron. No início de fevereiro, o país passou a registrar mais de 1.000 mortes diárias pela doença — número que não era atingido desde agosto de 2021. A tendência atual, com os números ligeiramente menores, é de estabilização dos óbitos.

    806

    foi a média móvel de mortes por covid-19 nos últimos sete dias nesta quarta-feira (23), segundo dados do Conass

    Especialistas reconhecem a melhora nos dados do país, mas dizem que é preciso cautela para dizer que o pico da ômicron passou. Enquanto em estados como Amazonas essa queda está acentuada, por exemplo, outros, como o Pará, ainda registram ritmo acelerado de novas infecções e óbitos.

    Segundo eles, o mais adequado é que as pessoas verifiquem o estado da pandemia no local onde vivem — município ou estado — para avaliar as ações que devem tomar no dia a dia. Também é recomendada a manutenção de medidas de proteção como o uso de máscaras, a higienização e a adesão à vacinação para que essa redução seja sustentada por mais tempo.

    O estado da vacinação

    O país atingiu nesta quarta-feira (23) 79,9% da população parcialmente imunizada contra a covid-19 — ou seja, receberam apenas uma das doses necessárias — e 71,7% da população totalmente imunizada com duas doses ou dose única, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa.

    A campanha de vacinação de adultos contra a covid-19 começou no Brasil em janeiro de 2021, com a aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) do uso da Coronavac, fabricada no país pelo Instituto Butantan, e da AstraZeneca, produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

    Os primeiros meses da vacinação no país foram marcados pela lentidão, dada a pouca quantidade de imunizantes disponíveis e atrasos na importação de insumos (grosso modo, os ingredientes para a produção dos imunizantes). O ritmo começou a crescer em junho de 2021, até atingir o pico em agosto, com a vacinação de adultos mais jovens.

    Adolescentes a partir de 12 anos começaram a ser vacinados com a vacina da Pfizer em setembro. Em dezembro, a Anvisa aprovou a vacina infantil da farmacêutica para crianças de 5 a 11 anos. A aplicação nesse grupo começou a ser feita em janeiro de 2022, quando a Anvisa também aprovou o uso da Coronavac para crianças e adolescentes.

    Segundo dados do site Our World in Data, o Brasil está em 9º lugar entre os países que mais vacinaram sua população com ao menos uma dose contra a covid-19. Apesar do avanço, a vacinação desacelerou depois de ter atingido o pico no segundo semestre de 2021.

    A porcentagem de brasileiros com a primeira dose da vacina está na casa de 70% desde dezembro de 2021, embora o país tenha capacidade para vacinar centenas de milhares de pessoas diariamente. Pesquisadores ouvidos pelo Nexo em fevereiro afirmam que a estagnação na aplicação da primeira dose se deve à falta de acesso à vacina em parte do Brasil e à desinformação.

    A vacinação de crianças também segue ritmo mais lento que o esperado, devido à escassez de vacinas infantis — que não haviam sido compradas pelo governo federal até o fim de 2021 — e à disseminação de boatos que desacreditam a segurança e a eficácia dos imunizantes. Nesta quarta-feira (23), 39,1% das crianças de 5 a 11 anos haviam recebido a primeira dose da vacina.

    O país começou a aplicar a terceira dose de reforço da vacina contra a covid-19 em novembro de 2021. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Nexo, o grupo vacinado com o reforço tem grande potencial de crescimento nos próximos meses. Parte dos estados e municípios cogita ou começou a aplicar a quarta dose da vacina em grupos prioritários, como idosos e profissionais de saúde.

    28,2%

    dos brasileiros receberam a terceira dose de reforço da vacina contra a covid-19 até esta quarta-feira (23), segundo dados do consórcio de veículos de imprensa

    Quais são as projeções

    Com a ampla cobertura vacinal e o pico de infecções causadas pela variante ômicron no início de 2022, relatório do Observatório Covid-19 da Fiocruz publicado em fevereiro afirma que o país tem uma “janela de oportunidade” para frear a pandemia no primeiro semestre deste ano.

    Segundo o texto, essa “janela de oportunidade” corresponde aos meses de fevereiro e março, que serão marcados pelo alto número de pessoas com imunidade fortalecida contra o coronavírus por conta da vacinação ou da infecção natural — que garante uma imunidade temporária contra o vírus por um período de 70 a 80 dias, segundo estudos.

    Frear a pandemia nesse período, porém, depende necessariamente de medidas como a ampliação da vacinação — a dose de reforço é considerada fundamental para aumentar a imunidade das pessoas contra a ômicron —, aumentar a testagem, manter hábitos como o uso de máscaras e reforçar o sistema de saúde para atender aos casos graves de covid-19.

    Entre os desafios para se chegar a esse patamar estão a própria limitação para se frear a pandemia — a “janela de oportunidade” é finita — e desigualdades no acesso a vacinas no país. A publicação da Fiocruz também não trabalha coma a possibilidade de surgir uma nova variante de preocupação até março, que poderia mudar o cenário da pandemia.

    Nesta quarta-feira (23), o médico sanitarista Gonzalo Vecina, fundador da Anvisa, afirmou que o fim da pandemia no Brasil está próximo — a covid-19 se tornaria, nesse caso, uma endemia, doença que está sempre presente, mas de maneira estável, e com a qual é possível conviver. Para que isso aconteça, porém, é imprescindível que novas variantes não surjam, segundo ele.

    Parte das expectativas para o controle da pandemia nos próximos meses também se deve a novas medidas de combate à covid-19 que podem ampliar a testagem da doença e as possibilidades de tratamento para quem desenvolve sintomas graves.

    O que há de novo

    Autotestes

    Em janeiro de 2022, a Anvisa liberou a venda no Brasil dos chamados autotestes de covid-19, que podem ser comprados em farmácias e feitos em casa, a preços mais baixos e com resultado mais rápido que os exames comuns. Esses testes são considerados medidas adicionais no controle da pandemia. Até agora, dois fabricantes de autotestes obtiveram registro da Anvisa e podem começar a distribuir o produto.

    Antivirais

    A Anvisa recebeu pedidos de uso emergencial de dois antivirais contra a covid-19 usados em outros países: o molnupiravir, fabricado pela MSD (Merck Sharp & Dohme Farmacêutica), e o paxlovid, da Pfizer. A agência analisa documentos enviados pelas farmacêuticas. Segundo estudos divulgados pela MSD, o molnupiravir demonstrou reduzir as hospitalizações e mortes em cerca de 30% em pacientes de alto risco, e em fase inicial da infecção. Já o paxlovid reduz 89% do risco de internação e morte entre adultos em caso de administração em até três dias após o aparecimento de sintomas.

    Os números ainda altos

    Parte dos cientistas pondera que os números da covid-19 ainda estão muito altos no Brasil para que se possa falar no fim próximo do estado de pandemia. Em artigo para o jornal Folha de S.Paulo, o biólogo Átila Iamarino afirmou que os óbitos pelo coronavírus em uma semana de fevereiro, por exemplo, superaram todas as mortes por dengue, chikungunya e zika em 11 anos, de 2008 a 2019.

    6.429

    foi a quantidade de mortes por dengue, chikungunya e zika de 2008 a 2019 no Brasil

    25 mil

    é a quantidade de mortes anuais por gripe no Brasil, número também menor que os atuais óbitos por covid-19

    Iamarino afirma que a queda de casos de covid-19 e a estabilização de mortes após o aparente pico da variante ômicron são sinais de que o país pode entrar na “lua de mel” da pandemia — termo que representa o período de calmaria que sucede grandes campanhas de imunização induzida por vacinas ou pela doença.

    A “lua de mel” acontece quando a imunização não é suficiente para eliminar o vírus, mas o bastante para reduzir sua transmissão — pois há menos vulneráveis à doença —, segundo ele. No caso da covid-19, essa lua de mel parece ser curta, pois a imunidade tende a cair após alguns meses da vacinação ou infecção.

    “Pode parecer simples varrer o problema da covid para baixo do tapete, já que naturalizamos arboviroses como zika, dengue e chikungunya. Mas o tapete precisaria ser bem mais alto para cobrir a covid”, escreveu. O biólogo lembrou que o Brasil teve uma “lua de mel” da covid-19 em 2021, quando foi pouco atingido pela variante delta. A chegada da variante ômicron, porém, interrompeu esse período.

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