Por que a vacinação no Brasil pode ter chegado a um platô

País tem 78% com primeira dose. Novas aplicações desaceleraram por motivos ligados à falta de acesso a serviços de saúde, diferentemente do que ocorre no exterior, onde movimentos antivacina são mais fortes

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    Com a proporção de brasileiros vacinados com a primeira dose contra a covid-19 na casa de 78%, a campanha de imunização no país estagnou depois de meses de forte expansão da cobertura vacinal, segundo os dados mais recentes da pandemia.

    Identificada no segundo semestre de 2021, a estagnação é considerada preocupante por ocorrer em meio ao aumento de infecções e mortes pela covid-19 por causa da disseminação da variante ômicron. Mesmo com o início da vacinação infantil, em janeiro de 2022, os números de novos imunizados continua baixo.

    O Nexo mostra os dados mais recentes sobre a vacinação e explica por que o número de aplicações com a primeira dose estagnou. Mostra também a situação do Brasil em comparação com a de outros países e sugere o que pode ser feito para aumentar a adesão à campanha.

    Qual o cenário da vacinação

    O país atingiu na quarta-feira (9) 167,6 milhões de pessoas vacinadas com a primeira dose contra a covid-19 — número que equivale a 78% do total da população, incluindo crianças —, segundo dados dos estados obtidos pelo consórcio de veículos de imprensa que faz o acompanhamento.

    O percentual da população com o ciclo vacinal completo — com duas doses ou imunizados com vacina de dose única — estava em 70,5%. A terceira dose, de reforço, chegou a 24,8% da população.

    A quantidade de primeiras doses de vacina aplicadas na quarta (9) — foram 293 mil é significativamente inferior à da fase de maior expansão da campanha de vacinação contra a covid-19, quando, em agosto de 2021, o Brasil chegou a aplicar mais de 3 milhões de doses em apenas um dia.

    O quadro registrado a partir de setembro de 2021 é de desaceleração porque a média diária de doses aplicadas caiu de milhões para menos de 500 mil. Nos meses seguintes, o crescimento da imunização diário ficou próximo de zero.

    Desaceleração

    Gráfico mostra quantidade de doses (a primeira dose) aplicadas em um dia. Pico foi em junho e setembro. Depois, ritmo desacelerou.

    Curva de imunizados

    Gráfico mostra percentual de brasileiros vacinados com a primeira dose. Curva cresceu até se estabilizar a partir de setembro.

    Quando se considera apenas a população acima de 12 anos — excluindo as crianças de 5 a 11, que passaram a ser elegíveis para a vacinação em janeiro de 2022 —, a proporção de vacinados é maior: 95,7%. Apesar disso, o ritmo de imunização também está lento. Do fim de novembro de 2021 para cá, o percentual cresceu apenas 5%, segundo o consórcio de veículos de imprensa.

    No domingo (6), a epidemiologista, infectologista e ex-secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde Luana Araújo disse em entrevista à CNN Brasil que a cobertura vacinal “parece ter chegado a um platô” no país, apesar da forte cultura vacinal entre os brasileiros.

    A estagnação da vacinação também foi tema de artigo em preprint (ainda não revisado por pares) divulgado em dezembro por pesquisadores do Observatório Covid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), instituição ligada ao Ministério da Saúde. No texto, os autores afirmam que os dados mais recentes sugeriam uma “saturação populacional para a vacinação”.

    O que explica esse cenário

    O principal fator que explica a estagnação da campanha de vacinação no país é a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, principalmente em áreas mais pobres ou entre minorias étnicas, segundo o artigo da Fiocruz divulgado em dezembro.

    A falta de comunicação clara e efetiva dos governos sobre a campanha pode ter sido um dos motivos que afastaram essas pessoas da busca pela primeira dose. “As pessoas não sabem quando tomar a vacina, ou o que fazer quando não há doses no posto”, disse ao Nexo Daniel Vilela, pesquisador do Observatório Covid-19 da Fiocruz.

    Existem também disparidades regionais no acesso às vacinas, segundo o pesquisador. Enquanto estados do Sul e do Sudeste têm os maiores índices de vacinação — são eles que puxam os dados nacionais para cima —, Norte e Nordeste têm as piores coberturas vacinais.

    Segundo dados do consórcio de veículos de imprensa, na quarta-feira (9) São Paulo, que lidera o ranking, tinha 86,5% da população vacinada com a primeira dose, seguido por Piauí (85,7%) e Santa Catarina (79,6%). Roraima (57,6%) e Amapá (57,4%) estão nas últimas posições.

    Disparidades

    Gráfico em barras compara vacinação com a primeira dose nos estados. São Paulo, Piauí, Ceará e Santa Catarina lideram o ranking. Roraima e Amapá aparecem por último.

    Em áreas mais remotas, pode haver ainda falta de doses por problemas logísticos ou dificuldades na aplicação das vacinas na população (também por razões logísticas), segundo Vilela. O SUS (Sistema Único de Saúde), porém, tem capilaridade, e o Brasil de modo geral sabe como distribuir vacinas depois de décadas de campanhas de imunização bem-sucedidas, disse.

    “O problema maior parece ser o da desinformação”, afirmou. Exemplo disso aparece nos dados de vacinação da população indígena, que, mesmo fazendo parte do grupo prioritário da campanha no início de 2021, registra baixa adesão por conta da disseminação de informações falsas. Em dezembro, apenas 44% dos indígenas estavam completamente imunizados contra a covid-19.

    Outro exemplo é o da vacinação infantil, que também tem sido marcada por baixo comparecimento de pais e mães nos serviços de saúde, em parte por conta da desinformação. Desde a metade de janeiro, quando a campanha com crianças de 5 a 11 anos começou, apenas 19% foram vacinadas com a primeira dose — quando o SUS teria capacidade para vacinar mais de 70%, segundo estimativas do próprio Ministério da Saúde.

    Em dezembro de 2021, o artigo da Fiocruz apontava a liberação da vacinação infantil — feita pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no dia 17 daquele mês — como um fator urgente para alavancar a imunização e reverter a estagnação da campanha nacional.

    Passadas três semanas desde o início da aplicação de doses pediátricas da Pfizer e da Coronavac, problemas como a escassez de imunizantes e a ausência de comunicação do governo sobre o tema transformaram a nova etapa da vacinação em um desafio adicional.

    Segundo o artigo da Fiocruz, nos estados onde a cobertura vacinal com primeira dose é alta, a diferença para a cobertura de segunda dose é menor. O dado sugere que a perda da população entre doses tem sido pequena, e o principal desafio está em aplicar a primeira nas pessoas que restam.

    A comparação com outros países

    Embora a estagnação da vacinação seja um problema comum também em outros países, o fenômeno parece ser diferente no Brasil, segundo Vilela. Enquanto em lugares como Estados Unidos e alguns países da Europa viram a campanha de vacinação desacelerar por conta de movimentos organizados contra a vacina, esse tipo de manifestação é muito pequena por aqui, disse.

    A estagnação das campanhas de imunização é um problema sério desde 2021 nos próprios EUA — que tem 75,7% de vacinados com a primeira dose, segundo o site Our World In Data —, Reino Unido (76,9%), França (79,9%) e Alemanha (75,3%). Mesmo tendo sido pioneiros na imunização de sua população, hoje esses países têm cobertura vacinal inferior à de dezenas de outros.

    Segundo o Our World in Data, o país com maior cobertura vacinal com a primeira dose é os Emirados Árabes Unidos (99%), seguido por Portugal (94,6%), Cuba (93,5%) e Chile (91,9%). A ordem leva em conta apenas países com mais de 1 milhão de habitantes. O Brasil está em 31º lugar.

    Movimentos antivacina em outros países afetados pela estagnação são geralmente influenciados por motivos políticos ou religiosos, cujo discurso é marcado por teorias de conspiração — de que os imunizantes seriam feitos para matar, por exemplo — e por argumentos de liberdade individual contrários a leis impositivas de vacinação.

    Embora grupos com as mesmas ideias também existam no Brasil, sua influência é muito pequena, segundo Vilela. Para ele, o que tem mais impedido as pessoas de terem acesso às vacinas é a ausência de informações básicas sobre a campanha de imunização — quando ou onde tomar, por exemplo.

    A desinformação nas redes sociais também tem incentivado a hesitação vacinal, principalmente no caso da vacinação infantil. Pessoas com esse tipo de hesitação, porém, geralmente têm dúvidas pontuais e estão abertas a ouvir o outro lado — diferentemente de alguém que é por princípio contrário à vacinação, como se vê no resto do mundo.

    Para Vilela, isso se explica pela forte cultura vacinal no Brasil estimulada desde a criação do Plano Nacional de Imunizações do SUS, em 1973. Mesmo com o incentivo de figuras políticas como Jair Bolsonaro — que atacou a vacinação inúmeras vezes na pandemia — o movimento antivacina não ficou relevante.

    Segundo pesquisa Datafolha de julho de 2021, momento em que a vacinação contra a covid-19 no país ainda estava em aceleração, 94% dos brasileiros haviam se imunizado ou desejavam se imunizar quando chegasse sua vez. “A pandemia foi uma tragédia no Brasil [que tem o segundo maior número de mortes por covid-19 no mundo], o que também influenciou a adesão à vacinação”, disse Vilela.

    O que pode resolver o problema

    Para Vilela, atrair a população que não se vacinou com a primeira dose de vacina depende de ações focalizadas ou até mesmo da busca ativa dos governos de porta em porta. “É importante entender o que está faltando em cada lugar e informar sobre os benefícios das vacinas”, disse.

    Entre os programas que fazem esse papel, está o de agentes comunitários de saúde, criado em 1991 e formado por profissionais que têm como função visitar casas, esclarecer dúvidas e encaminhar pessoas a postos de saúde ou a serviços especializados.

    263 mil

    agentes comunitários de saúde atuavam em 98% das cidades brasileiras em 2018

    O governo federal prometeu destinar recursos adicionais ao programa nos primeiros meses da pandemia, mas dois anos depois a avaliação geral é de que os agentes comunitários foram subutilizados. Entre os principais desafios do programa, estão a falta de recursos e de profissionais.

    Vilela também sublinhou o papel da vacinação infantil, que é relevante para aumentar a cobertura vacinal. Crianças de até 11 representam 15% da população elegível para a imunização no Brasil, segundo artigo da Fiocruz. “Os benefícios da vacinação superam os riscos”, disse.

    Qual o papel da vacinação

    Receber a vacina contra a covid-19 tem benefícios individuais e coletivos: por um lado, a imunização previne sintomas, hospitalização e morte para quem se infecta com o coronavírus e por outro, se realizada em massa, ajuda a conter a pandemia entre a população geral.

    Todas as vacinas aplicadas na campanha de imunização contra a covid-19 no Brasil — Coronavac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen — foram testadas e aprovadas pela Anvisa, que as considerou seguras e eficazes na proteção contra a doença.

    Com a disseminação da variante ômicron do coronavírus, descoberta em novembro de 2021 e apontada como mais transmissível que as versões anteriores, especialistas têm considerado a vacinação ainda mais importante para conter os efeitos da pandemia.

    Estudos preliminares sugerem que a ômicron escapa parcialmente da proteção oferecida no esquema de duas doses das vacinas desenvolvidas até agora. A aplicação da dose de reforço, porém, contorna esse problema, garantindo imunidade melhor. No Brasil, toda a população de 18 anos ou mais está elegível para receber a terceira dose.

    Dados divulgados pelo Rio de Janeiro mostram que, no estado, pessoas que não se vacinaram ou receberam apenas uma dose têm 73% mais risco de serem internadas na atual onda da pandemia. Em outros lugares, como Amazonas, São Paulo e Santa Catarina, não vacinados também são maioria nas estatísticas de hospitalizações e mortes.

    6 a cada 10

    mortes por covid-19 no Amazonas são de pessoas sem o esquema vacinal completo, segundo dados divulgados pelo estado

    Em 2020, no início da pandemia, estimava-se que 70% da população completamente imunizada seria suficiente para evitar que o coronavírus circulasse e continuasse infectando pessoas que não podem ser vacinadas. Com as constantes mutações do vírus e o surgimento de variantes mais transmissíveis, porém, esse cenário mudou, e alguns cientistas afirmam que agora são necessários 90%.

    Apesar dos desafios causados pela ômicron, as vacinas têm mostrado que funcionam na prevenção de casos graves de covid-19. O país vem batendo recordes de novas infecções pelo coronavírus, dada a circulação de pessoas e a alta transmissibilidade da nova cepa. Hospitalizações e mortes, no entanto, não têm crescido no mesmo ritmo — ainda que os números também sejam preocupantes. No início de fevereiro, o Brasil voltou a bater mais de 1000 mortes diárias por covid-19.

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