O que emperra a vacinação infantil contra a covid no Brasil

País vacinou em média dez vezes menos crianças por dia do que a capacidade do sistema de saúde permite. Ministério espera novas remessas da Pfizer e negocia encomenda da Coronavac

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    Três semanas depois do começo da vacinação de crianças contra a covid-19 — iniciada no dia 14 de janeiro, quando o menino Davi Seremramiwe Xavante, de 8 anos, foi imunizado em São Paulo —, a aplicação de doses nessa faixa etária de 5 a 11 anos segue em ritmo lento no país, apesar da alta capacidade do sistema de saúde.

    A lentidão na imunização de crianças pode retardar os esforços feitos até agora para conter a transmissão do coronavírus e expor os mais novos à covid-19 em um momento em que a variante ômicron tem causado recordes de infecções no país e aumentado o número de hospitalizações pediátricas.

    O Nexo explica qual o cenário da vacinação infantil no Brasil e o que explica o ritmo lento da campanha. Mostra também o impacto da atual onda de covid-19 sobre as crianças brasileiras.

    Os dados sobre a vacinação

    Segundo dados do consórcio de veículos de imprensa obtidos com os estados, 15,3% das crianças brasileiras de 5 a 11 anos estavam vacinadas contra a covid-19 até esta segunda-feira (7). Cerca de 3,1 milhões de doses foram aplicadas até agora desde janeiro.

    Os dados do consórcio de veículos de imprensa são baseados em informações de 16 estados, os únicos a disponibilizarem os dados de vacinação infantil. O percentual real de crianças imunizadas, portanto, pode ser diferente. Dados obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo com 23 estados até 31 de janeiro indicavam 10% de vacinação nesse grupo nacionalmente.

    A quantidade de crianças imunizadas é inferior à capacidade de vacinação do país. Cerca de 125 mil doses foram aplicadas por dia em média nesse grupo de 14 de janeiro até segunda-feira (7), segundo dados do consórcio de imprensa. De acordo com estimativa do governo federal, esse número poderia ser quase dez vezes maior.

    2,4 milhões

    é a capacidade diária de vacinação do sistema de saúde, segundo o governo federal; considerando que cerca de 1,2 milhão de adultos têm sido vacinados diariamente, há espaço ainda para mais de 1 milhão de crianças

    O país tem usado duas vacinas na campanha infantil: a versão pediátrica da Pfizer, aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para pessoas de 5 a 11 anos em dezembro de 2021, e a Coronavac, aprovada no mês seguinte para a faixa de 6 a 17. Desde setembro de 2021, adolescentes a partir de 12 anos já estavam se vacinando com a Pfizer.

    Ambas são seguras e eficazes na prevenção dos sintomas da covid-19, segundo as autoridades sanitárias. A Coronavac é contraindicada apenas para crianças imunossuprimidas — nesse caso, há a opção de usar a Pfizer. Não há dados sobre os percentuais de cada vacina usada no país.

    Existem disparidades na aplicação de vacinas em cada estado. São Paulo, que lidera o ranking, havia imunizado 47% das crianças paulistas até segunda-feira (7), seguido por Distrito Federal (32,9%), Rio Grande do Norte (24,6%) e Ceará (20,9%), segundo o consórcio de veículos de imprensa. Tocantins, por outro lado, havia vacinado apenas 2,4%.

    Disparidades estaduais

    Gráfico de barras indica percentual de crianças vacinadas por estado. São Paulo lidera o ranking, seguido de Distrito Federal, Ceará e Espírito Santo. Tocantins, Roraima e Pará aparecem nos últimos lugares.

    A falta de doses

    O principal motivo para o ritmo lento da campanha de vacinação infantil é a falta de doses. Segundo dados divulgados pelo jornal O Estado de S. Paulo, até o início de fevereiro o Ministério da Saúde havia distribuído 8 milhões de vacinas para imunizar as cerca de 20 milhões de crianças brasileiras.

    A falta de doses também foi um fator que em janeiro atrasou o início da campanha de imunização infantil após a aprovação da Anvisa da vacina da Pfizer em dezembro de 2021. Por ter fechado contrato com a farmacêutica relativamente tarde para receber as doses pediátricas — que são diferentes das usadas em adultos —, o governo federal recebeu o primeiro lote apenas na metade de janeiro.

    Desde então, o Ministério da Saúde recebeu cinco lotes da Pfizer, o mais recente nesta segunda-feira (7). No total, eles somam 7,9 milhões de doses. Outros dois lotes, cada um com 1,8 milhões de vacinas, devem chegar ao país ainda em fevereiro, segundo cronograma da Pfizer.

    20 milhões

    de doses de vacinas é quanto a Pfizer deve entregar ao Brasil até o fim de março, segundo contrato da empresa com o Ministério da Saúde

    Da Coronavac, que foi aprovada pela Anvisa para crianças no dia 20 de janeiro, o Ministério da Saúde afirmou no início de fevereiro ter seis milhões de doses em estoque. Outras três milhões estariam com os estados. Grande parte das unidades da federação, porém, tem doses insuficientes da Coronavac para manter a campanha de imunização infantil — com exceção de estados como São Paulo e Distrito Federal, que mais têm usado a vacina.

    Considerando as doses de Pfizer e Coronavac já distribuídas, as que estão em estoque e as que devem chegar até março, o Ministério da Saúde tem vacinas o suficiente para imunizar 14,5 milhões de crianças com duas doses contra a contra a covid-19. Outras 5,5 milhões ainda precisam ser contempladas.

    O governo federal diz negociar com o Instituto Butantan a encomenda de mais doses de vacina, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. O laboratório afirma que tem 10 milhões de imunizantes a pronta entrega e outros 20 milhões podem ser fornecidos em até 25 dias depois da assinatura do contrato, que não foi firmado.

    Depois de sustentar o início da vacinação contra a covid-19 no país, em janeiro de 2021, a Coronavac não foi mais requisitada pelo Ministério da Saúde — à medida chegaram imunizantes de outros fabricantes —, e a última grande remessa do Butantan para a pasta foi em setembro.

    Na ausência de doses suficientes, as cidades têm adotado a vacinação por idade — primeiro as mais velhas, depois as mais novas — e priorizado a proteção de crianças com comorbidades, seguindo recomendações do Ministério da Saúde.

    Mesmo com esses critérios, porém, cidades como o Rio tiveram que suspender a vacinação infantil por falta de doses. No dia 31 de janeiro, a capital fluminense anunciou a interrupção da campanha até receber nova remessa do governo federal. A imunização foi retomada na sexta-feira (4).

    A desinformação e a baixa adesão

    Outro motivo para o ritmo lento da vacinação infantil é a desinformação. Apesar de terem filhos já elegíveis para se imunizar, diversos pais ou responsáveis têm relatado sentir medo das vacinas por não considerá-las seguras ou eficazes ou por pensar que são experimentais — o que não é verdade.

    A aplicação das vacinas da Pfizer e da Coronavac em crianças foi autorizada pela Anvisa apenas depois de técnicos do órgão terem pedido, analisado e aprovado estudos sobre o uso dos imunizantes nesse grupo. Os testes, feitos em milhares de voluntários observados durante meses, atestaram a segurança e a eficácia das doses no público infantil.

    Grande parte da desinformação sobre as vacinas disseminada nas redes sociais cita a ocorrência de reações adversas graves das crianças aos imunizantes, como a miocardite (inflamação do músculo cardíaco). Estudos da Pfizer enviados à Anvisa não registraram esse problema em crianças de 5 a 11 anos. Em idades maiores (16 e 17 anos), o risco foi de 0,007%, um valor muito baixo. Uma pessoa que pega covid-19 tem quatro vezes mais chance de desenvolver miocardite do que uma pessoa vacinada, segundo estudo da revista Nature.

    Milhões de crianças foram vacinadas contra a covid-19 em países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Israel antes de as primeiras doses chegarem ao Brasil. Dados de farmacovigilância (nome dado ao monitoramento contínuo das vacinas) não identificaram reações adversas de preocupação até agora.

    Parte da desinformação sobre as vacinas foi estimulada pelo próprio governo federal, segundo especialistas. O presidente Jair Bolsonaro já se posicionou publicamente contra a imunização da faixa etária várias vezes, e chegou a atacar os técnicos da Anvisa responsáveis pela aprovação. Em vez de incentivar a vacinação infantil, após a aprovação do imunizante da Pfizer pela agência de vigilância o Ministério da Saúde levantou dúvidas sobre a segurança e a eficácia do imunizante. O ministro Marcelo Queiroga as questionou mais de uma vez.

    Entre o fim de 2021 e o início de 2022, o Ministério da Saúde realizou uma consulta e uma audiência pública para avaliar manifestações da população sobre a vacinação infantil. Especialistas criticaram as iniciativas, dizendo que elas poderiam promover a hesitação vacinal, além de protelar o início da imunização.

    Na consulta pública, o Ministério da Saúde chegou a propor que as crianças fossem vacinadas contra a covid-19 apenas se tivessem prescrição médica — o que não é exigido para nenhuma outra vacina infantil. A proposta foi amplamente rejeitada pela sociedade civil, e o governo federal a abandonou ao apresentar o plano nacional de imunização infantil no início de janeiro.

    Em algumas cidades, como Itaguaí, na região metropolitana do Rio de Janeiro, moradores denunciaram que os postos de saúde estavam exigindo em janeiro a assinatura de uma declaração de responsabilidade dos pais para vacinar as crianças — o que é irregular. O termo por escrito é previsto apenas quando pais e mães não estão presentes. Famílias disseram se sentir receosas e desmotivadas com a exigência.

    O impacto da onda da ômicron nas crianças

    Com a disseminação da variante ômicron do coronavírus — mais transmissível que as versões anteriores — e a vacinação ainda incipiente no público infantil, a quantidade de crianças com covid-19 tem sido proporcionalmente maior que em outros momentos da pandemia.

    Os sintomas iniciais têm sido semelhantes aos de outras doenças respiratórias, como dor de garganta, febre, tosse, dor de cabeça e no corpo. Ainda é cedo para comentar se a doença causada pela ômicron se apresenta de forma diferente nas crianças do que no caso de outras variantes do coronavírus, segundo médicos.

    A exposição à nova variante, porém, tem aumentado o número de hospitalizações nesse grupo. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de crianças e adolescentes internados com covid-19 triplicou em janeiro em relação ao mesmo mês em 2021.

    2.122

    pessoas entre 0 e 19 anos foram hospitalizadas com síndrome respiratória aguda grave causada por covid-19 em janeiro de 2022; no ano anterior, haviam sido 697 nesse mês

    86

    mortes por covid-19 em pessoas de 0 a 19 anos foram registradas em janeiro em 2022; no ano anterior, haviam sido 49 nesse mesmo mês

    Segundo boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), as hospitalizações de pessoas de 0 a 19 anos equivaleram no início de janeiro a 7,9% do total de internados com covid, enquanto no mesmo período em 2021 o percentual era de 4,5%. Para as mortes, a proporção quase dobrou: de 1% do total em janeiro de 2021 para 1,9% agora.

    “Nos indivíduos não vacinados a doença não é tão leve, podendo causar óbitos e lesões importantes”, disse Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista à revista Fapesp. A impressão de que a ômicron causa sintomas mais leves pode se dever mais ao fato de a maioria da população adulta estar vacinada do que às características da variante em si.

    No caso das crianças, médicos também lembram que a covid-19 — desde o início da pandemia, mas também agora com a ômicron — pode causar síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, cujo principal sintoma é a inflamação de diversos órgãos, como coração, intestino e pulmão.

    Segundo informações do médico Drauzio Varella, a covid está entre as dez principais causas de óbito entre pessoas dos 5 aos 11 anos no Brasil e já tirou mais vidas do que a somatória de todas as mortes provocadas por doenças da infância para as quais existem vacinas.

    “Se nós compararmos as mortes de crianças e adolescentes por covid-19 com as de adultos (especialmente com as de idosos) elas vão sempre parecer proporcionalmente baixas, mas a verdade é que essa faixa etária também fica grave”, disse a pesquisadora Daniella Moore em entrevista a um portal da Fiocruz. “Não temos dúvida de que elas precisam da vacina.”

    70%

    das crianças abaixo de 12 anos hospitalizadas com covid-19 no país não tinham comorbidades, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria com dados até janeiro de 2022

    O aumento dos casos de covid-19 entre crianças também pode estar entre os motivos que atrapalham a campanha de imunização, segundo médicos. Com a doença em casa, pais ou responsáveis adiam a procura pela vacina, esperando que a criança se recupere antes.

    A explosão de casos causada pela variante ômicron ocorre em meio ao retorno às aulas presenciais em grande parte do país. Estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará e Bahia iniciaram o ano letivo nesta segunda-feira (7). Outros, como o Tocantins, adiaram a abertura de escolas em meio à alta das infecções.

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