A opção de países pela abertura mesmo com o avanço da ômicron

Dinamarca e França, com alta cobertura vacinal, tentam voltar à normalidade, apesar da alta de casos. OMS faz apelo por cautela, mas já não cogita recomendar restrições mais rigorosas

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    Mesmo com o aumento de casos de covid-19 causados pela variante ômicron, países da Europa decidiram suspender restrições sanitárias. Na terça-feira (1º), a Dinamarca anunciou uma tentativa de retorno à vida “pré-covid”, derrubando as exigências de máscaras, testes e regras para aglomerações. Um dia depois, a França também flexibilizou ainda mais as medidas, em movimento que vem sendo copiado e defendido por outros países europeus.

    Por causa dos anúncios, a OMS (Organização Mundial da Saúde) pediu cautela aos governantes e defendeu uma abertura mais gradual para evitar ainda mais mortes pelo vírus. A entidade afirmou estar preocupada com a ideia, adotada em muitos países, de que a ômicron não mata — por atingir principalmente nariz e garganta, ela causa menos quadros de pneumonia.

    Os diretores da OMS vêm reforçando que uma maior transmissão significa, consequentemente, mais óbitos. As mortes de fato vem crescendo, mas não no mesmo ritmo das contaminações. Países têm usado como justificativa para o fim das restrições a baixa ocupação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e a alta cobertura vacinal.

    Neste texto, o Nexo mostra quais têm sido as estratégias na Europa para o enfrentamento da variante e por que a OMS se opõe a elas.

    A volta à normalidade

    Os casos de covid-19 vêm aumentando na Europa desde ao menos novembro de 2021, quando a OMS chegou a classificar a região, pela segunda vez durante a pandemia, como o epicentro da covid-19 no mundo. Na época, a flexibilização precoce das medidas de distanciamento social e dificuldades em ampliar a vacinação foram apontadas como motivos para a alta nos casos de infecção.

    A situação piorou ainda mais em dezembro, com a chegada da variante ômicron ao continente. Mais transmissível que a delta, então predominante, ela fez com que uma série de países, como Reino Unido e Alemanha, registrassem recordes de casos. As hospitalizações e mortes, por outro lado, não acompanharam a alta de casos no mesmo ritmo. Imagens de colapso hospitalar e funerário, como as registradas na Itália, no início de 2020, não voltaram a se repetir com a ômicron.

    Em 11 de janeiro, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, sugeriu durante uma entrevista que a Europa passasse a tratar a covid-19 como uma doença endêmica, como a gripe. “Temos condições de abrir gradualmente, com precaução, o debate em nível técnico e europeu, para começar a avaliar a evolução desta doença com parâmetros diferentes dos que temos até agora”, afirmou. A OMS reagiu dizendo que o estágio de endemia — quando a circulação dos vírus ocorre de maneira estável, e as ondas causadas pela doença são previsíveis — ainda estava longe de acontecer com a covid-19.

    Na terça-feira (1º), porém, a Dinamarca resolveu suspender todas as restrições sanitárias de uma única vez. Com a decisão, os dinamarqueses não precisam mais:

    • Usar máscaras.
    • Apresentar o passaporte vacinal.
    • Realizar testes.
    • Seguir limitações de horário e capacidade em bares, restaurantes, casas noturnas, estádios ou locais de grandes eventos.

    Apenas quem chega ao país sem ter se vacinado encontrará restrições. O uso de máscara só continua obrigatório em casos muitos específicos, como ir a hospitais ou a lares de idosos.

    Apesar da piora nos números da pandemia, a Dinamarca tinha, até o final de janeiro, uma média de 8.000 casos de covid-19 por dia, e apenas três mortes diárias pela doença. A cobertura com duas doses da vacina alcança mais de 81% da população e chega a 61% com a dose de reforço. Em termos de comparação, no Brasil as taxas são de 79,1% (primeira dose), 69,7% (segunda dose) e 21,5% (terceira dose).

    Na terça-feira (1º), o cientista político Michael Bang Petersen, que assessora o governo dinamarquês no enfrentamento à covid-19, detalhou os motivos para a decisão do governo em seu Twitter. Segundo ele:

    • Embora a taxa de casos esteja extremamente alta, e a de hospitalizações e mortes tenha crescido lentamente, o número de internados em UTIs está caindo no país.
    • A maioria da população apoia a suspensão das restrições e a crença de que a covid-19 é uma ameaça está em queda.
    • A confiança nas vacinas é alta, quase dois terços da população tomou a dose de reforço e os imunizantes estão disponíveis para todos que quiserem a partir dos 5 anos de idade.
    • Quase todas as infecções no país são causadas pela ômicron, que é menos virulenta em comparação com a delta, e encontra pela frente grande parte da população protegida pelas vacinas.
    • Estudos mostram que as vacinas evitam casos de covid longa (quando os sintomas permanecem por meses após a infecção) e eles são raros e de pouca duração em crianças.

    “A Dinamarca deveria esperar até que todas as preocupações fossem resolvidas? Talvez. Mas esperar não é gratuito. Tem custos em termos econômicos, de bem-estar e de direitos democráticos. Equilibrar isso é parte explícita da estratégia dinamarquesa”, escreveu o cientista político.

    Segundo ele, as pesquisas mostram que os custos das restrições geram um “cansaço da pandemia”, que alimenta a desconfiança da população em relação ao governo. O bem-estar relativamente alto obtido na Dinamarca, afirma, se deve, em parte, porque as medidas têm sido, de certa forma, leves, e porque foram relaxadas quando possível.

    Em setembro, a Dinamarca também tentou suspender as restrições, mas teve de retomar a obrigatoriedade do passaporte sanitário em novembro. Em dezembro, museus, cinemas e salas de espetáculos foram fechados, mas reabriram um mês depois.

    Com o anúncio das medidas, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, disse que a suspensão pode não ser definitiva. “Não podemos dar garantias de que poderemos retornar à vida como a conhecíamos antes do coronavírus”, afirmou.

    A adesão à estratégia na Europa

    A França também mudou uma série de regras na quarta-feira (2). Deixam de ser obrigatórios, por exemplo:

    • Uso de máscaras na rua.
    • Limitação de público em espaços culturais
    • Trabalho remoto.

    O passaporte vacinal, que havia sido classificado pelo presidente Emmanuel Macron como uma medida para “irritar” os não vacinados, continua valendo. Em 16 de fevereiro, o país deve entrar em nova fase, com a reabertura de casas noturnas (fechadas desde dezembro) e a autorização para que a população possa voltar a beber nos balcões dos bares.

    A França também teve um aumento de 6.000% entre novembro e o final de janeiro na média móvel de casos da doença. As internações continuam em alta, e o número de mortes subiu mais de 700% desde novembro — chegando a 260 mortes por dia. Mas esse número é ainda metade do pior momento da pandemia no país. Mais de 76% dos franceses tomaram as duas doses da vacina, e 48% receberam as doses de reforço. Apesar das mudanças nas regras, Macron pediu atenção da população, pois a pressão nos hospitais ainda é considerada elevada.

    No Reino Unido, houve flexibilização das medidas ainda em 19 de janeiro, como o fim do uso obrigatório de máscara, da recomendação do teletrabalho e da exigência do passaporte sanitário para ter acesso a casas de show e a aglomerações. As alterações, porém, foram anunciadas em meio às pressões sobre o primeiro-ministro Boris Johnson, por causa da revelação de que festas foram realizadas na residência oficial mesmo com as proibições pelo país. Para tentar aliviar a crise, ele desistiu de medidas impopulares.

    A Noruega também decidiu suspender, entre outras medidas, a proibição de venda de bebidas alcoólicas depois das 23h, o limite de dez pessoas em reuniões privadas e a necessidade de viajantes se testarem antes de entrar no país. Na Noruega, os casos pararam de crescer, as mortes estão em queda e metade da população acima dos 18 anos recebeu a dose de reforço.

    O peso da dose de reforço

    A decisão dos países europeus tem como base a cobertura da população com a terceira dose. Em países onde ela não avançou ou sua aplicação ainda está no começo, o impacto da ômicron tem sido maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, a variante tem matado mais pessoas do que em outros países ricos, e o motivo apontado para isso está na dificuldade de aumentar a cobertura vacinal apesar de o país ter vacinas suficientes. Apenas um quarto dos americanos tomou a dose de reforço.

    Segundo um levantamento do jornal americano The New York Times, desde 1º de dezembro, quando o primeiro caso de infecção local pela ômicron foi identificado, a proporção de americanos mortos pela variante é 63% maior do que o observado em países ricos e grandes.

    No Brasil, a terceira dose começou a ser aplicada apenas em novembro, e apenas um quinto da população já se vacinou até o começo de fevereiro, o que impede que o país siga iniciativas de reaberturas como vêm acontecendo na Europa. Na quarta-feira (2), oito estados e o Distrito Federal tinham uma taxa de ocupação acima de 80% dos leitos de UTI.

    A média móvel no Brasil superou, também na quarta-feira (2), 600 mortes por covid-19, o maior número desde setembro de 2021. A situação é ainda distante do pior da pandemia, quando o país registrou mais de 4.000 mortes em 24 horas, mas preocupa as autoridades.

    Os governos locais não têm cogitado endurecer as regras como antigamente, apesar da piora na situação epidemiológica. O uso de máscara permanece obrigatório, o passaporte sanitário tem sido exigido em muitas regiões e festas como o Carnaval foram adiadas para abril, na esperança de que o país tenha superado o pico da ômicron até lá.

    O OMS alerta, mas não prevê rigidez

    O endurecimento de regras como em outros momentos não é mais cogitado nem pela OMS, apesar dos alertas de que a pandemia ainda não acabou. Isso ficou claro na terça-feira (1º) numa entrevista do diretor-geral da organização, Tedros Adhanom.

    “Não estamos pedindo que nenhum país retorne ao chamado lockdown. Mas estamos pedindo a todos os países que protejam seu povo usando todos os recursos disponíveis, não apenas vacinas”

    Tedros Adhanom

    diretor-geral da OMS

    Segundo ele, é preocupante que os países tenham aderido à ideia de que não é possível prevenir o contágio com a ômicron, devido ao seu alto grau de transmissão, e que a infecção é menos grave, em parte graças às vacinas. “Isso não poderia estar mais longe da verdade. Mais transmissão significa mais mortes”, disse. Para Adhanom, é “prematuro para qualquer país se render ou declarar vitória”.

    A epidemiologista e técnica da OMS Maria Van Kerkhove também criticou os países que decidiram suspender todas as regras de uma única vez, dizendo não ser hora para isso. “Nós sempre insistimos: sejam sempre cautelosos em aplicar as intervenções, bem como em suspender essas intervenções de forma constante e lenta, peça por peça. Porque este vírus é bastante dinâmico”, afirmou.

    Já o diretor-executivo de emergências da OMS, Mike Ryan, disse que os diferentes estágios da pandemia no mundo, a depender da região considerada, pode fazer com que os países que suspenderam as medidas tenham que retomá-las rapidamente.

    “Aqueles países que estão tomando decisões de abertura mais ampla também precisam ter certeza da capacidade de reintroduzir medidas, com aceitação da comunidade, se necessário. Se abrirmos as portas rapidamente, é melhor sermos capazes de fechá-las muito rapidamente também”, afirmou.

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