O peso dos não vacinados na onda causada pela ômicron

Em alguns estados, 90% dos internados com covid-19 não completaram o esquema com duas doses ou sequer se vacinaram. Pressão sobre os hospitais aumentou em metade do país 

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    Depois de mais de uma semana com recordes consecutivos de casos de covid-19 causados pela ômicron no Brasil e a volta das filas de espera em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) em algumas regiões, os estados começaram a ampliar o número de leitos para atender pacientes com a doença. A tendência é de aumento da pressão sobre os hospitais em quase metade do país, segundo um boletim divulgado na quarta-feira (26) pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde.

    A maioria das vagas está sendo ocupada por pessoas não vacinadas ou que não completaram o ciclo vacinal com duas doses, como demonstram os dados do Distrito Federal, onde 90% dos pacientes em terapia intensiva na terça-feira (25) estavam nessa situação, segundo o governo local. Apesar do avanço de mais de um ano da campanha de imunização no país, cerca de 30% da população brasileira ainda não tomou a segunda dose — e apenas 20% foram vacinados com a dose de reforço, que oferece uma proteção mais robusta contra a variante.

    Neste texto, o Nexo mostra qual tem sido o peso dos não vacinados para os sistemas de saúde durante a onda causada pela variante ômicron e por que a vacinação ainda encontra dificuldades para avançar em determinadas regiões.

    A situação dos hospitais

    Na quarta-feira (26), pelo nono dia seguido, o Brasil bateu recorde na média móvel de casos de covid-19. Em média, considerando os sete dias anteriores, 161.870 casos foram confirmados por dia, número 169% acima do observado duas semanas antes. A média móvel de mortes nos últimos sete dias está em 369, maior número desde outubro de 2021.

    Embora a ômicron ataque principalmente as vias superiores e cause menos quadros de pneumonia — o que gera uma menor necessidade de hospitalização —, o grande volume de infectados devido à alta capacidade de transmissão da variante acaba tendo um forte impacto sobre os hospitais.

    Segundo uma nota técnica do Observatório Covid-19 da Fiocruz divulgada na quarta, a situação nos hospitais é de piora e se reflete no aumento das taxas de ocupação de leitos de UTI em 12 unidades da federação. Ao todo, 6 estados estavam na zona de alerta crítico, com 80% ou mais de ocupação. É o caso do Distrito Federal (98%), Rio Grande do Norte (83%), Goiás (82%), Piauí (82%), Pernambuco (81%), Espírito Santo (80%) e Mato Grosso do Sul (80%).

    “Não se pode ignorar que o quadro está piorando, apesar de estar claro que o cenário com a vacinação é muito diferente daquele observado em momentos anteriores mais críticos da pandemia, nos quais se dispunha de muito mais leitos. O que se coloca é que, com a elevadíssima transmissibilidade, mesmo uma proporção muito menor de casos gerando internações em UTI incorre em números expressivos”

    Observatório Covid-19

    em nota técnica divulgada na quarta-feira (26)

    Na terça-feira (25), as vagas na rede pública do Distrito Federal se esgotaram, fazendo com que surgisse uma fila de espera de pessoas que precisavam de um leito de terapia intensiva. Na parte da manhã, ao menos dez pacientes aguardavam a liberação de uma vaga. A Secretaria de Saúde afirmou que iria aumentar a oferta de leitos para resolver o problema.

    O peso da vacinação

    A imunização tem sido apontada como um fator preponderante para evitar uma explosão também de mortes. A curva de internações e óbitos pela covid-19 não tem acompanhado o aumento das infecções no mesmo ritmo. A ômicron tem potencial de escapar da proteção fornecida pelas vacinas. Mas a proteção tem feito com que a doença não evolua para casos mais graves que precisem de hospitalizações.

    “Pessoas que já receberam a dose de reforço são pouco suscetíveis a essas internações, embora comorbidades graves ou idade avançada possam deixá-las vulneráveis”, diz trecho da nota técnica da Fiocruz.

    Dados divulgados pelo governo dos Estados Unidos também apontam essa tendência. Em 12 de janeiro, a Casa Branca divulgou nas redes sociais dois gráficos com base em informações do Departamento de Saúde de Nova York, referentes aos meses de outubro, novembro e dezembro de 2021. O primeiro caso da ômicron nos Estados Unidos foi registrado em 1º de dezembro.

    Desde então, o número de infecções em pessoas não vacinadas saltou de cerca de 500 para cada 100 mil habitantes, no início de dezembro, para mais de 3.000, por volta do dia 19 daquele mês. Já entre os vacinados, a taxa, que se aproximava de zero, pulou para 500 no mesmo período. No caso das hospitalizações pela ômicron, elas aumentaram de cerca de 30 (por 100 mil habitantes) em 5 de dezembro para 80 apenas duas semanas depois. Entre os vacinados, o índice que era quase zero teve apenas uma pequena variação, ficando abaixo de 10.

    Um estudo do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), dos Estados Unidos, mostrou que as pessoas não vacinadas no país apresentaram entre outubro e novembro de 2021 um risco 53 vezes maior de morte por covid-19 em comparação com as pessoas vacinadas com duas e três doses. Com a ômicron, o risco entre quem não se vacinou foi 13 vezes maior em relação aos imunizados, devido à capacidade da nova cepa de driblar a proteção oferecida pelas vacinas. A dose de reforço, porém, apresentou taxa de proteção de 90% contra a ômicron — em relação à variante delta, esse índice era de 94%.

    Pesquisas vêm demonstrando que a dose de reforço é necessária para tentar neutralizar a ômicron, mas sua aplicação ainda está no começo no Brasil. “Há ainda uma proporção da população que não recebeu o reforço e assim fica mais suscetível a formas mais graves da infecção com a ômicron e, principalmente, há uma parte da população não vacinada, muito mais suscetível”, diz a nota técnica da Fiocruz.

    Segundo o boletim do Observatório Covid-19, é preocupante que apenas uma pequena parcela da população tenha recebido a terceira dose porque, no verão, “são comuns os registros de aglomerações, a negligência com o uso de máscaras de boa qualidade, bem como o desrespeito à necessidade de isolamento por tempo adequado na ocorrência ou suspeita de ocorrência da infecção”.

    No Reino Unido, os leitos de UTI também apresentam uma taxa de ocupação de 60% de pacientes não vacinados, embora eles representem apenas 10% da população. Segundo dados do governo britânico divulgados no final de dezembro de 2021, pessoas que tomaram duas doses da vacina têm 65% menos chances de hospitalização do que as não vacinadas. Já pessoas com três doses possuem uma chance 81% menor de precisar de internação.

    No Distrito Federal, segundo o governo local, 90% dos pacientes em UTIs com covid-19 até terça-feira (25) não tinham se vacinado ou completado o esquema com duas doses. Na capital federal, 76,25% receberam ao menos uma dose, 71,91% as duas e apenas 21,85% a terceira dose, de reforço.

    Em São Paulo, o hospital Emílio Ribas também confirmou em 15 de janeiro que quase 80% dos internados na instituição não haviam completado a imunização. O secretário de Saúde do estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, havia citado a mesma taxa para o estado em entrevista à TV CNN Brasil, dois dias antes. “A vacina não impede de se infectar, mas não vacinados se internam muito mais. Eventualmente, a enfermaria tem público vacinado, mas com comorbidade e casos leves”, disse.

    Por causa de uma alta de 152% nas internações em São Paulo em apenas três semanas, o governo anunciou na quarta-feira (26) a abertura de 700 novos leitos, nos próximos dez dias, para o atendimento de pessoas com sintomas de síndromes respiratórias.

    A maioria (434) será de leitos de enfermaria e 266 de UTIs. “Por conta dos elevados índices de vacinação no estado de São Paulo, temos tido um agravamento menor da doença e, portanto, os chamados leitos primários, aqueles de internação, são os mais importantes neste momento”, afirmou o governador João Doria (PSDB), durante anúncio da medida.

    Segundo um boletim epidemiológico divulgado na segunda-feira (24) pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, a taxa de óbitos de idosos com vacinação incompleta ou sem vacinação na cidade é quase 27 vezes maior do que a dos idosos vacinados com três doses. Entre os que tomaram a dose de reforço, a proporção de mortes foi de 2,9 para cada 100 mil habitantes, entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022. O número sobe para 16,2 entre os idosos com duas doses e para 78 entre os que não se vacinaram ou só receberam uma dose.

    No estado do Rio, cerca de 90% dos internados não completaram o esquema vacinal, segundo dados oficiais — e 38% não tomaram nenhuma dose. Médicos têm descrito a situação como frustrante e angustiante, já que muitas mortes poderiam ter sido evitadas com a vacinação completa.

    Os limites da imunização

    Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, na terça-feira (25), o biólogo Atila Iamarino, que é doutor em ciências pela USP (Universidade de São Paulo), lembrou o caso de Botucatu, no interior do estado, onde 90% dos moradores receberam a segunda dose e mais de 67%, a de reforço. Mesmo batendo um recorde de casos de covid-19 em 25 de janeiro, com 2.033 registros, apenas 12 pessoas estavam internadas em leitos de enfermaria e uma pessoa em UTI. Esse cenário indica que uma alta cobertura é fundamental para controlar a pandemia.

    A nota da Fiocruz também defende que os governos se esforcem para avançar na vacinação, com o “endurecimento da obrigatoriedade de uso de máscaras e de passaporte vacinal em locais públicos”, além de campanhas de orientação sobre como fazer o autoisolamento quando os sintomas aparecerem, o que evitaria a transmissão, inclusive dentro de casa.

    Atualmente, o Brasil tem 77% da população com ao menos uma dose, 70% com duas e apenas 20% com três. Apesar das investidas antivacinas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro, os brasileiros têm aderido à vacinação, e a desaceleração do ritmo de imunização observada desde o fim de 2021 se deve mais a problemas de infraestrutura para chegar a regiões mais remotas, especialmente no Norte do país, do que à hesitação vacinal, segundo especialistas.

    “Essa é a fase em que a gente precisa começar a fazer busca ativa de quem não tomou ainda. E as pessoas, em geral, não tomam por duas razões: ou porque não querem tomar — e aí elas precisam ser mais bem orientadas sobre as vacinas — ou porque não conseguem acessar a unidade de saúde”, disse o doutor em saúde pública Raphael Guimarães, que é pesquisador da Fiocruz, em entrevista ao Nexo, em 15 de janeiro.

    Os governos também precisam reforçar a ideia de que todas as doses são necessárias para uma melhor proteção. Na quarta-feira (26), por exemplo, 1,3 milhão de pessoas de 12 a 29 anos não havia retornado na data certa aos postos de saúde para tomar a segunda dose da vacina em São Paulo, segundo dados do governo do estado. O cenário é preocupante porque esse público é o que mais circula, frequenta bares e festas e nem sempre segue regras sanitárias, como o uso de máscaras.

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