O que a alta de casos indica sobre os rumos da pandemia no Brasil

Com recordes de infecções por covid-19 devido à disseminação da variante ômicron, país vê aumento de internações e mortes, embora não no mesmo ritmo. Expectativa de pico em fevereiro direciona decisões nos estados

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Depois de um mês com um apagão de dados no Ministério da Saúde durante a chegada da variante ômicron ao Brasil, a retomada do monitoramento da pandemia no começo de 2022 tem revelado um cenário preocupante. Mesmo com falhas ainda persistentes nos sistemas de notificação, os números apontam recordes de casos de covid-19. As internações e mortes estão em alta, embora não no ritmo explosivo das infecções. Estados já registram sobrecarga nos hospitais.

    A ômicron foi descoberta em novembro e rapidamente se espalhou pelo mundo, devido à sua alta capacidade de transmissão — estima-se que um doente infecte outras dez pessoas (com a delta, eram sete). Seu avanço no Brasil ocorreu paralelamente a uma epidemia de gripe. Sem informações sobre a real evolução do coronavírus no país, as festas de fim de ano ocorreram sem restrições, o que colaborou para o espalhamento do vírus de forma sincronizada por todas as regiões.

    Pesquisadores preveem uma piora no quadro até meados de fevereiro. Experiências de países como África do Sul e Reino Unido, afetados pela doença antes do Brasil, mostram que a onda tende a perder força até seis semanas após seu início. O avanço da vacinação é apontado como fator para a menor letalidade da covid-19, mas o alto número de brasileiros sem o esquema vacinal completo preocupa especialistas e pode contribuir para a pressão sobre os serviços de saúde.

    A seguir, o Nexo detalha o que os números têm mostrado sobre a pandemia no Brasil em termos de número de casos, hospitalizações e mortes, e mostra como os governos vêm reagindo à disseminação da ômicron.

    A alta nas infecções

    Os sinais de piora na situação epidemiológica começaram a aparecer ainda em dezembro, com o aumento na busca por atendimento nos prontos-socorros, em parte por causa da circulação do H3N2, subtipo do vírus Influenza A, da gripe, e de buscas por testes de diagnóstico de covid-19. Com o agravamento da situação, houve:

    • Filas de espera de até seis horas para atendimento nos postos de saúde.
    • Falta de medicamentos antigripais e dificuldade para agendar testes rápidos em farmácias.
    • Escassez de testes em hospitais e laboratórios, fazendo com que fossem destinados apenas para casos graves.

    O país ficou sem dados confiáveis sobre os casos de infecção pelo coronavírus desde 10 de dezembro, quando o Ministério da Saúde sofreu um ataque hacker que afetou seus sistemas.

    O boletim InfoGripe, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), por exemplo, responsável por monitorar a evolução dos casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) no país, deixou de ser elaborado por mais de um mês, já que ele recorre ao Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe), que ficou indisponível.

    Quando o sistema voltou, o primeiro boletim após o apagão de dados, divulgado em 15 de janeiro, apontava um salto de 135% nos casos de síndromes respiratórias graves até as primeiras semanas de janeiro, em comparação com o final de novembro.

    A ômicron logo se tornou dominante — até sexta-feira (21), de 276 amostras analisadas pelo Instituto Butantan, 272 (ou 98,5%) eram decorrentes da variante. Ao longo da semana, o Brasil registrou recorde de casos desde o início da pandemia. No sábado (22), foram notificadas 202.466 infecções em 24 horas, segundo o consórcio de imprensa. Foi a segunda vez na semana que o número passou de 200 mil. A média móvel de casos chegou a 140.698 por dia, maior marca desde o início da pandemia, no quinto recorde seguido. Há um aumento de 324% em relação ao observado duas semanas antes.

    Apesar de ser menos letal e causar infecções menos graves do que as variantes anteriores, a nova cepa também afetou o número de internações e mortes pelo país. A OMS (Organização Mundial da Saúde) vem alertando que ela não pode ser chamada de mais “branda”, porque continua sendo perigosa em pessoas que não se vacinaram e capaz de levar os sistemas de saúde ao colapso devido ao grande contingente de infectados.

    O temor é que a variante afete principalmente regiões onde a cobertura vacinal ainda é baixa. Apesar de 69% da população brasileira ter recebido duas doses da vacina até sexta-feira (21), o índice de pessoas com o esquema vacinal completo chegava a apenas 39,96% no Amapá, 42,79% em Roraima, 51,14% no Acre, 52,29% no Maranhão e 54,5% no Tocantins.

    Regiões duramente afetadas pelo coronavírus também registraram recordes, como o Amazonas — o estado enfrentou uma onda em 2020, que resultou no colapso do sistema funerário, e no começo de 2021, quando houve falta de oxigênio, levando à morte pacientes que precisavam do insumo. Na quarta-feira (19), foram notificados 7.505 novos casos de covid-19 no estado. O recorde anterior, em 20 de janeiro de 2021, era de 5.009 casos.

    O impacto nas hospitalizações

    Ocupação das UTIs

    Na quarta-feira (19), o aumento das internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) por causa da covid-19 fez com que o Brasil voltasse a apresentar um cenário parecido com o que era visto em julho de 2021. Quatro estados (Ceará, Goiás, Pernambuco e Espírito Santo) já haviam atingido até aquela data uma taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva igual ou superior a 80%. Em 12 de janeiro, a Fiocruz também divulgou nota mostrando que um terço dos estados e dez capitais estavam nas zonas de alerta intermediário e crítico em relação à ocupação dos leitos.

    Números das redes privadas

    Os dados de hospitais particulares também têm refletido a piora no quadro. A Rede D’Or, a maior rede de hospitais privados do país, com 63 unidades em dez estados, divulgou na quinta-feira (20) que o número de pacientes com covid-19 atendidos subiu de 200 para quase 1.000 num período de apenas duas semanas. Desde dezembro, o hospital Albert Einstein e o hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, também haviam registrado altas em atendimentos de pacientes com covid-19.

    Internações de crianças

    Apesar de o coronavírus atingir menos crianças, esse público passou a ser mais afetado justamente por não estar vacinado — a imunização de crianças começou no país apenas em 14 de janeiro. Dados do governo do estado de São Paulo apontam alta de 61,3% de pacientes com menos de 17 anos internados em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) entre 15 de novembro e 17 de janeiro. Um levantamento da CNN Brasil divulgado na quinta-feira (20) aponta um aumento de internações em crianças e adolescentes em ao menos seis estados: São Paulo, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Roraima e Minas Gerais.

    Internações de gestantes

    O número de grávidas com síndromes respiratórias graves que precisaram de internação também aumentou desde o fim de dezembro, atingindo patamares próximos aos de julho de 2021, segundo dados do Observatório Obstétrico Brasileiro. No final de dezembro, a alta nas hospitalizações foi de 139%, em comparação com o final de novembro — o número pulou de 147 internações para 351 no período.

    O impacto nas mortes

    Em apenas duas semanas, entre 31 de dezembro e 19 de janeiro, a média móvel de mortes também teve um aumento substancial. O número saltou de 97 óbitos por dia para 215 óbitos (121% a mais). Um estudo da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, prevê que o Brasil chegue a uma média de 800 a 1.200 mortes por dia entre o final de janeiro e o início de fevereiro. A mesma universidade projetou 1 milhão de casos por dia no Brasil, até o final de janeiro.

    Como o país não tem uma política de testagem em massa e não autoriza ainda os autotestes rápidos que podem ser feitos em casa, os dados oficiais devem permanecer subestimados.

    Dados dos cartórios de registro civil do país também sinalizam alta nas mortes. Até quarta-feira (19), a média móvel de óbitos por covid-19 havia aumentado em 81% desde 31 de dezembro. O número, que era de 102, no último dia de 2021, subiu para 183 em 16 de janeiro, o valor mais alto desde 11 de novembro de 2021.

    Pesquisadores acreditam que o país não deva voltar a alcançar a média móvel diária de mortes nos cartórios de 30 de março de 2021, quando chegou a 3.413, no pior da pandemia, já que uma parcela significativa da população já está vacinada e por causa das características da ômicron.

    O comportamento da variante

    Cientistas têm apontado as chances de a ômicron se comportar no Brasil como está se comportando em países como África do Sul, Reino Unido, Canadá e Austrália. Nesses locais, a onda desencadeada pela variante registrou algo entre quatro e seis semanas de aumento nas infecções, até chegar a um pico e logo começar a cair.

    Em entrevista ao jornal O Globo, na quarta-feira (19), o infectologista Julio Croda, que é pesquisador da Fiocruz, disse que a tendência deve ser observada primeiramente em São Paulo, que registrou os primeiros casos da nova cepa.

    “No entanto, como teve Réveillon e férias, houve uma sincronização entre as regiões. É um tsunami que vem e vai muito rapidamente. Se considerarmos a semana entre Natal e Ano Novo como início da curva epidemiológica, teremos o pico no começo de fevereiro para depois começar a queda. Isso, claro, se a nossa curva epidêmica se comportar de forma semelhante”, afirmou ao jornal.

    Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na sexta-feira (21), o epidemiologista Paulo Lotufo, da USP (Universidade de São Paulo), fez previsão semelhante. “Creio que [os casos] deverão cair na primeira ou segunda semana de fevereiro, baseado na África do Sul e Reino Unido”, disse.

    É com base nessa expectativa que os governos estão tomando decisões. Na sexta-feira (21), por exemplo, as prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro anunciaram conjuntamente o adiamento do desfile das escolas de samba para abril. As duas cidades já haviam suspendido as festas de rua devido à impossibilidade de controlá-las.

    “A gente tem muita segurança de que a curva da variante ômicron não vai durar muito tempo, porque, como acontece nos outros países, é uma curva muito aguda, que não dura muito tempo. Certamente em abril a gente deve ter uma curva bem em queda”, afirmou o secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, durante o anúncio.

    Os governos têm abandonado medidas mais rigorosas de isolamento, como o fechamento de atividades, e focado em limitações a grandes eventos como o carnaval. Em 12 de janeiro, o governador João Doria (PSDB), de São Paulo, recomendou a municípios a redução de público em 30% em eventos com aglomeração. Ele tem declarado não ver necessidade de novas restrições.

    Com o avanço das internações, os governadores pediram ao Ministério da Saúde que prorrogue o financiamento de leitos de UTI para a covid-19. Segundo a CNN Brasil, no domingo (23) a pasta confirmou a prorrogação do custeio por 30 dias, até o fim de fevereiro.

    Países da Europa e os Estados Unidos também evitam aumentar as restrições e têm apostado em estratégias como os autotestes, recomendações para o uso de máscaras com maior capacidade de filtrar o ar (como as PFF2 ou N95) e a exigência do passaporte vacinal.

    Pesquisas têm demonstrado que a terceira dose da vacina é essencial para uma proteção mais robusta contra a ômicron e que medidas como evitar aglomerações, usar máscaras e melhorar a ventilação de ambientes continuam sendo as melhores maneiras de se prevenir contra a doença.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.