Quais foram os efeitos da pandemia na onda populista mundial

Estudo da Universidade de Cambridge com megabase de dados aponta como a condução da crise sanitária afetou a percepção sobre líderes, incluindo Bolsonaro no Brasil

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O populismo se tornou impopular: essa é a constatação de um estudo do Centro para o Futuro da Democracia, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Com uma volumosa base de dados, o levantamento conclui que a pandemia de coronavírus reverteu o aumento do populismo no mundo, afetando partidos e aprovação de líderes com esse perfil.

Ao mesmo tempo, o levantamento também encontrou uma "erosão perturbadora" de crenças democráticas centrais, como menos apoio a atitudes de respeito aos direitos civis básicos e às liberdades.

Neste texto, o Nexo detalha o estudo e explica como o Brasil se posiciona entre os países que vêm rejeitando ideias e atitudes populistas, de acordo com os pesquisadores.

As descobertas-chave

Conduzido pelo Instituto Bennett de Políticas Públicas da universidade e publicado em janeiro de 2022, o estudo "O grande recomeço: opinião pública, populismo e pandemia" é definido pelos pesquisadores como a "primeira visão geral global" sobre como a crise da covid-19 mudou atitudes e crenças políticas.

Para isso, o relatório usa dados coletados pela YouGov, empresa internacional de dados e análise de pesquisa, envolvendo 27 países e mais de 81 mil pessoas durante a pandemia de coronavírus entre 2020 e 2021. Foram compilados também dados de outra organização de pesquisa, a Human Surveys, o que resultou em uma megabase com mais de meio milhão de pessoas. O estudo foi financiado pela Luminate, instituição filantrópica global voltada para o empoderamento de pessoas e instituições.

Para medir as atitudes populistas, os pesquisadores se basearam em quatro crenças centrais que indicam se uma pessoa, partido ou liderança pode ser considerado populista, de acordo com a literatura convencional. São elas:

  1. O país é dividido entre pessoas comuns e elites corruptas
  2. A vontade do povo deve ser o princípio supremo do país
  3. O poder de interesses especiais é o que impede o país de progredir
  4. Informações importantes são ocultadas do público por interesse próprio

Com essa definição teórica e os dados em mãos, a pesquisa traz algumas descobertas-chave que ajudam a entender a queda do apoio ao populismo. E sugere três razões principais para o arrefecimento da onda populista no mundo:

  • Líderes populistas lidaram mal com a pandemia de coronavírus. Eles foram classificados como piores pela população como uma fonte de informação sobre o tema. Ao mesmo tempo, aumentou a confiança das pessoas em especialistas.
  • Há evidências do declínio da polarização política. Enfrentar uma crise comum, como a do coronavírus, provou ser um evento unificador para pessoas em muitas sociedades. Com a pacificação de ressentimentos, fica mais difícil para políticos desse espectro mobilizarem apoio.
  • A pandemia reduziu a divisão econômica. De acordo com estudo, regiões "deixadas para trás" economicamente mostraram os maiores declínios de apoio a atitudes populistas.

O desastre da gestão na pandemia

O relatório cita atitudes do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que se referiu ao coronavírus como "gripezinha" e vetou a obrigatoriedade do uso de máscara em território nacional, e do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que sugeriu que as pessoas injetassem desinfetante para prevenir a covid-19. O estudo ressalta que essas ações têm causado mais ojeriza do que simpatia na população.

A percepção sobre como os líderes mundiais conduziram crise sanitária é justamente um dos indicadores, segundo a pesquisa, do arrefecimento do populismo.

De acordo com o levantamento, líderes populistas viram a sua popularidade cair, em média, 10% entre o segundo quadrimestre (de junho a agosto) de 2020 para o mesmo período de 2021. Entre eles, o estudo une Trump, Bolsonaro e outros presidentes como Andrzej Duda, da Polônia, e Giuseppe Conte, ex primeiro-ministro da Itália que renunciou em janeiro de 2021 pela segunda vez. A gestão da pandemia no país, um dos mais atingidos pela primeira onda de covid-19 na Europa, foi fator decisivo para renúncia e desaprovação.

10%

foi o percentual médio de queda de popularidade de líderes considerados populistas

Angela Merkel, da Alemanha, Justin Trudeau, do Canadá, e Emmanuel Macron, da França, são colocados na esteira dos líderes não populistas, bem como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson. Com uma postura de descaso no início da pandemia, Johnson deu uma guinada na política sanitária e promoveu uma das vacinações mais rápidas do mundo. Mas agora está pressionado pela descoberta de que festas foram realizadas em sua residência oficial enquanto a população enfrentava um lockdown, em maio de 2020.

Antes da crise, entretanto, o britânico foi um dos líderes que alcançou um aumento de aprovação médio de 10%, segundo o estudo. No mesmo patamar, Merkel — que encerrou seu mandato no ano passado — também subiu 10 pontos percentuais e chegou a ter aprovação de 80% dos alemães.

A pesquisa, que define esses dados como "tranquilizadores para o futuro da democracia ocidental", também cita que a saída de líderes populistas do poder já vêm ocorrendo, o que ilustra essa tendência do enfraquecimento, a exemplo de Trump, que perdeu as eleições de 2020.

"Outros, incluindo Viktor Orbán [Hungria], Recep Tayyip Erdogan [Turquia] e Jair Bolsonaro, enfrentam uma luta difícil pela reeleição", diz o estudo. Pesquisa Ipespe divulgada na sexta-feira (14) mostra Bolsonaro com 24% das intenções de voto para o pleito de 2022, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 44%. O atual mandatário, de acordo com o Ipespe, é o candidato com maior rejeição: 64% dos entrevistados rejeitam seu nome para presidência.

Sobre Bolsonaro, o estudo pontua que os partidos de oposição "capitalizaram sua impopularidade desde o início da pandemia", e que, embora a sua aprovação tenha subido nos primeiros meses de pandemia, ele amarga queda de popularidade ao longo de 2021.

Outro lado: ‘erosão perturbadora’ da democracia

O levantamento também encontrou o que definiu como uma "erosão perturbadora" no apoio a crenças democráticas centrais, como menos apoio a atitudes de respeito aos direitos civis básicos e liberdades, e preferência mais fraca por governos democráticos.

Algumas políticas consideradas "iliberais" ganharam força enquanto o mundo enfrentava a pandemia. Um dos aspectos que o estudo traz, por exemplo, é o percentual de pessoas que se mostraram favoráveis à proibição do aperto de mão durante a pandemia. Em todas as principais nações pesquisadas em 2020, a maioria apoiava a medida. O levantamento trouxe ainda perguntas hipotéticas, como, por exemplo, se as pessoas apoiariam uma restrição das discussões on-line sobre o vírus. E isso também recebeu aval da sociedade, sobretudo na Alemanha e no Japão.

De acordo com os pesquisadores, o enfraquecimento do populismo ao mesmo tempo em que há uma descrença com a democracia pode parecer um paradoxo. Mas eles definem que, na realidade, são dois "lados da mesma moeda": mostra a inadequação dos políticos eleitos - sobretudo os populistas - em oferecer soluções para a pandemia e que, por conta dessa mancha do histórico, o apoio à democracia também caiu.

“A pandemia trouxe boas e más notícias para a democracia liberal. No lado positivo, vemos um declínio no populismo e uma restauração da confiança no governo. No lado negativo, algumas atitudes não liberais estão aumentando e a satisfação com a democracia permanece muito baixa”, disse Robert Foa, principal autor do estudo, em entrevista ao site Tech Daily.

O fim do populismo?

Os pesquisadores salientam que a única previsão possível sobre o mundo pós-pandemia é que ele nunca mais será o mesmo, não retornará ao "normal''. E, assim como a onda populista demorou anos para emergir (eles citam que o fato que deu início à ela foi a crise econômica global de 2008), o legado da pandemia será visto, de fato, após muitos anos.

Entretanto, a pesquisa da Universidade de Cambridge destaca que um desses impactos será a possibilidade de a pandemia encerrar a onda populista que tomou o mundo entre 2015 e 2020. E que está claro que o apoio a atitudes populistas e a seus líderes diminuiu pelo planeta.

Isso não significa, ressalva o estudo, que o populismo irá acabar: mas o assunto será menos falado e a "energia populista" se dissipará. Além disso, à medida que os eleitores perderam a fé nas promessas bombásticas dessas figuras políticas, eles passam a valorizar uma abordagem mais cívica e consensual. Ou seja: buscarão figuras moderadas para representá-los.

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