1 ano da vacinação: como foi, como está e para onde vai

Crescimento da cobertura vacinal no país ficou próximo de zero no final de 2021. Para especialistas, ainda é possível ampliar números da primeira dose 

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    Em 17 de janeiro de 2021, pouco depois de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizar o uso emergencial da Coronavac no Brasil, a enfermeira Mônica Calazans, do Hospital das Clínicas, em São Paulo, tornou-se a primeira pessoa no país a receber uma vacina contra a covid-19. Ao longo de um ano, a cena foi repetida com quase 162 milhões de brasileiros, que tomaram ao menos uma dose do imunizante.

    O resultado da campanha foi uma queda expressiva nos números de infecções, hospitalizações e mortes pela doença durante 2021. Mesmo com a explosão de novos casos de covid-19 devido à chegada da variante ômicron, no final do ano passado, as internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e os óbitos se mantêm em patamares baixos e ainda distantes dos piores momentos da pandemia.

    Ao completar um ano na segunda-feira (17), em desaceleração, a vacinação no país tem como desafio alcançar uma quantidade ainda grande de brasileiros que sequer tomaram a primeira dose, reduzir a desigualdade regional na cobertura vacinal que penaliza as regiões Norte e Nordeste e imunizar crianças de 5 a 11 anos em meio à campanha do presidente Jair Bolsonaro contra a iniciativa.

    A seguir, o Nexo lembra como foi o primeiro ano de vacinação contra a covid-19 no Brasil, em que estágio ela está no início de 2022 e quais as dificuldades para ampliar a cobertura nos próximos meses.

    O início conturbado

    Até que a primeira dose da Coronavac chegasse ao braço de Mônica Calazans, a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzido no país pelo Instituto Butantan, ligado ao governo paulista, foi alvo de disputas políticas.

    O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tentou usar o imunizante como um trunfo político na disputa travada com o presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem havia apoiado nas eleições de 2018. Ambos com pretensões de concorrer à Presidência em 2022, os dois acabaram se tornando adversários.

    Bolsonaro chegou a comemorar em outubro de 2020 a suspensão das pesquisas devido à morte de um dos voluntários — os estudos foram retomados depois da divulgação de que a morte havia sido causada por suicídio, sem nenhuma ligação com o imunizante. No final do mesmo mês, o presidente ordenou a suspensão do contrato para a compra da vacina, anunciado pelo então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

    Depois de uma série de adiamentos no final de 2020, Doria anunciou em 7 de janeiro de 2021 que a taxa de eficácia da Coronavac variava de 78% (considerando casos leves que precisam de intervenção médica) a 100% (para casos moderados que requerem internação ou graves, embora essa taxa, baseada em apenas sete casos, não tenha relevância estatística). Houve imediato protesto da comunidade científica porque o governo omitiu, inicialmente, a taxa global de eficácia (para casos de infecção), de 50,38%, só divulgada quatro dias depois.

    Especialistas avaliaram que os problemas na divulgação dos dados pelo governo de São Paulo poderiam minar a confiança da população na vacina. Havia ainda o temor de que a Anvisa pudesse barrar o uso da Coronavac por questões políticas, já que Bolsonaro havia sido o responsável por nomear seus diretores, entre os quais o presidente do órgão, Antonio Barra Torres. A decisão da agência, em liberar o uso emergencial do imunizante, afastou os rumores, e a Anvisa seria elogiada ao longo da pandemia por seu rigor técnico.

    Única vacina disponível no Brasil no início de 2021, a Coronavac foi a primeira a ser usada no país e sustentou a campanha contra a covid-19 nos primeiros meses, tendo sido aplicada, predominantemente, em idosos, pessoas com doenças pré-existentes e profissionais de saúde.

    No final de janeiro, chegaria ao país o primeiro lote da vacina da AstraZeneca, que seria produzida no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Em maio, o país começaria a aplicar a vacina da Pfizer e, em junho, a da Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson).

    A vacinação contra a covid-19

    As vacinas usadas no Brasil, por marca

    Ao longo do primeiro ano, a vacinação no Brasil contra o coronavírus teria quatro fases distintas.

    As fases da vacinação no país

    Primeira: lentidão

    Com pouca quantidade de imunizantes disponíveis para uma população de 210 milhões de habitantes e interrupções pontuais devido ao atraso na importação de insumos, essa fase foi marcada por uma lenta progressão, que já era esperada.

    Segunda: idosos

    Cerca de dez semanas depois do início da vacinação, começa uma segunda fase em que a população idosa abaixo dos 70 anos, a mais atingida pela pandemia, começa a ser imunizada.

    Terceira: expansão

    Em junho, o ritmo de vacinação começa a aumentar e atinge um pico em agosto, com a chegada de mais vacinas. Essa terceira fase é marcada pelo aumento da velocidade de cobertura com a vacinação de adultos abaixo dos 60 anos.

    Quarta: desaceleração

    A partir de setembro, a campanha entra em desaceleração. Em agosto, o Brasil chegou a aplicar mais de 3 milhões de doses em apenas 24 horas. Em 1º de janeiro de 2022, foram aplicadas pouco mais de 100 mil doses, e a média diária ficou em torno de 400 mil doses/dia.

    O estágio atual da vacinação

    O Brasil entrou em 2022 com o atraso na vacinação de crianças — aprovada pela Anvisa em dezembro — devido à oposição de Bolsonaro à medida e à iniciativa do Ministério da Saúde em realizar uma inédita consulta pública sobre o tema, que serviu apenas para prorrogar o início da imunização.

    Para especialistas, a vacinação de crianças de 5 a 11 anos, que representam cerca de 20 milhões de pessoas, é fundamental para ampliar a cobertura vacinal no país.

    No artigo “Como superar a estagnação da curva de cobertura vacinal de primeira dose contra covid-19 no Brasil?”, divulgado no final de 2021, os pesquisadores Raphael Guimarães, Diego Xavier, Monica Magalhães e Raphael Saldanha, da Fiocruz, lembram que o Brasil possui 84,86% da população elegível para a vacinação, sem considerar as crianças.

    Mesmo assim, a primeira dose foi aplicada em 76% da população até meados de janeiro de 2022, número que ainda pode crescer em quase dez pontos percentuais. O problema é que, desde setembro de 2021, há uma desaceleração na vacinação. Em novembro e dezembro, como destacam os autores do artigo, o crescimento na cobertura vacinal no país foi “próximo de zero”.

    Além disso, a cobertura tem sido marcada por uma desigualdade regional. Enquanto a vacinação avançou em estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, ela encontra dificuldades no Norte e Nordeste. Na sexta-feira (14), por exemplo, o Amapá tinha apenas 58% de vacinados com uma dose, 39,5% com duas, e apenas 2% com a dose de reforço. Em São Paulo, as taxas de aplicação de uma, duas e três doses eram, respectivamente, 82%, 79% e 27%.

    76%

    da população brasileira recebeu ao menos a primeira dose até a sexta-feira (14), segundo dados das secretarias estaduais de saúde

    68%

    é a proporção da população que completou o esquema com a segunda dose ou com a dose única

    15%

    é o número de pessoas que foi imunizada com a dose de reforço

    Para os pesquisadores da Fiocruz, a dificuldade em ampliar a vacinação não está na recusa da população, como acontece nos Estados Unidos e em países da Europa.

    “Possivelmente, a boa adesão à vacinação no Brasil é resultado de mais de 40 anos de construção de credibilidade do Programa Nacional de Imunizações, que garante cobertura universal ao calendário básico vacinal no país. Neste sentido, é razoável supor que a estagnação no país guarda maior relação com dificuldade de acesso do que propriamente recusa em receber a vacina. De fato, a cobertura da vacinação é menor em áreas mais carentes e entre grupos de minorias étnicas”

    pesquisadores da Fiocruz

    em artigo publicado em dezembro de 2021

    Os desafios para o futuro

    Para o doutor em saúde pública Raphael Guimarães, que é pesquisador da Fiocruz e um dos autores do estudo sobre o estágio da imunização no Brasil, a desaceleração da vacinação é normal quando se chega perto do limite de pessoas que podem se vacinar. Segundo ele, mesmo assim os governos precisam traçar estratégias para ampliar a cobertura.

    “Essa é a fase em que a gente precisa começar a fazer busca ativa de quem não tomou ainda. E as pessoas em geral não tomam por duas razões: ou porque não querem tomar — e aí elas precisam ser mais bem orientadas sobre as vacinas — ou porque não conseguem acessar a unidade de saúde”, disse o pesquisador, em entrevista ao Nexo.

    Ele lembra que, em muitas regiões, populações precisam andar quilômetros para chegar a uma unidade de saúde. “No Norte tem muitas populações ribeirinhas que ficam isoladas, às vezes a três dias de distância de uma unidade de saúde. É preciso pensar alternativas para alcançar essas pessoas. Se não for dessa forma, a gente não consegue alavancar ainda mais a cobertura”, afirmou.

    Como algumas vacinas precisam ser armazenadas a 20º C negativos, alguns lugares precisariam melhorar a estrutura de rede de frios para guardá-las, defende o pesquisador.

    Para Guimarães, diante da estagnação da vacinação no Brasil, a imunização de crianças será essencial para aumentar o número de pessoas protegidas contra a covid-19. “A população de 0 a 11 anos chega a 16% no país. Em alguns estados, essa população menor de 12 anos chega a 23%. É claro que a gente está pensando nas crianças para que também estejam protegidas, mas isso também é uma estratégia para poder garantir uma cobertura populacional excelente”, disse.

    Com a chegada da variante ômicron, pesquisas têm demonstrado que uma terceira dose de reforço é essencial para proteger a população. Com o tempo, na interpretação do pesquisador, a terceira dose vai deixar de ser considerada como reforço para ser incluída dentro de um esquema vacinal de três doses.

    “A história que a gente conhece das doenças que são de transmissão respiratória é de que, em algum momento, a gente precisa fazer reforço de vacina. O que vai determinar se, de fato, essa dose de reforço vai ser permanente, aplicada todo ano na população inteira, vai ser a história natural da doença”, disse.

    Segundo ele, ainda não é possível saber se um esquema anual de vacinação contra a covid-19 teria início em 2022. Primeiro, seria preciso encerrar o esquema de três doses em toda a população, para saber qual será o cenário de reinfecção depois disso. Depois, conhecer a dinâmica do vírus para definir se os reforços vão ocorrer prioritariamente para grupos específicos, como se dá com as vacinas da gripe. Por fim, é preciso considerar o possível surgimento de novas variantes.

    “O que vai dar o tom sobre a real necessidade de combate à covid em algum momento vai ser que variante está circulando e se elas são mais ou menos patogênicas para o corpo. O momento agora é de garantir a cobertura máxima possível exatamente para bloquear a circulação do vírus e impedir que novas variantes surjam”, afirmou.

    Segundo o pesquisador, é difícil que o Brasil enfrente um nova etapa de escassez de vacinas, como existiu no começo de 2021, porque a demanda tende cada vez a diminuir mais com o avanço da imunização, e laboratórios como a Fiocruz já iniciaram a produção do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), o princípio ativo das vacinas, e não dependem mais das importações.

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