Como o Ministério da Saúde reage à expansão da ômicron

Governo reconhece chances de colapso em hospitais, mas foca apenas em ampliar vacinação. Ritmo de aplicação das doses caiu desde agosto, e estados cobram política de testagem

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    Embora a variante ômicron cause, na maioria das vezes, sintomas leves e moderados de covid-19, o aumento abrupto de casos da doença e o desfalque de equipes de saúde infectadas pelo vírus têm pressionado os hospitais em países da Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, uma alta na ocupação de leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) foi identificada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em um terço dos estados e em dez capitais, segundo nota divulgada na quarta-feira (12).

    O aumento no atendimento a pacientes infectados pela ômicron no país tem preocupado autoridades, apesar de a situação ainda estar distante da crise vivida em 2021. Durante um evento, também na quarta-feira, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reconheceu que a chegada da variante mais contagiosa traz uma “perspectiva de colapso” aos sistemas de saúde e de “perdas de vidas”. Na quinta-feira (13), ele admitiu que o país atravessa uma terceira onda da doença.

    Sua fala contraria o discurso do presidente Jair Bolsonaro, que minimizou o impacto da ômicron dizendo que ela é “bem-vinda” e não “matou ninguém”, o que não é verdade. A primeira morte no país após infecção pela cepa foi confirmada pelo Ministério da Saúde em 6 de janeiro.

    Neste texto, o Nexo mostra quais os riscos do avanço da variante no Brasil e como o Ministério da Saúde tem sido cobrado e agido diante dos sinais de piora na situação da pandemia no país.

    O avanço da ômicron

    Desde dezembro, hospitais do país registraram um aumento de atendimento de pacientes com doenças respiratórias. Além da pandemia de covid-19, o Brasil enfrenta simultaneamente uma epidemia causada pelo H3N2, subtipo do vírus influenza A. As vacinas usadas contra a gripe no país no ano passado não oferecem defesas contra essa cepa específica. As que protegem contra ela só estarão disponíveis em março.

    Com uma corrida às farmácias e aos prontos-socorros, durante o período de festas no fim do ano (quando há maior circulação de pessoas e encontros familiares com aglomerações), o número de casos de covid-19 explodiu.

    No começo de 2022, um levantamento da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados) com 33 hospitais espalhados por 11 unidades da federação, divulgado em 7 de janeiro, mostrou que as instituições privadas de saúde registraram alta de 655% nos casos da doença desde dezembro. Em alguns hospitais, o aumento na quantidade de pacientes com covid-19 foi de 1.000%.

    Devido à onda desencadeada pela ômicron, as instituições de saúde tiveram de afastar parte de suas equipes. Na cidade de São Paulo, por exemplo, 269 trabalhadores da área estavam infectados — e em isolamento — em 6 de janeiro, segundo a prefeitura. O número é 198,8% superior ao observado em 9 de dezembro, quando apenas 90 profissionais da saúde estavam doentes. Em todo o estado, o desfalque na área era de mais de 1.754 trabalhadores.

    A falta de monitoramento

    A chegada da ômicron no país coincidiu com dois problemas criados pelo governo federal. O primeiro deles foi a ação deliberada da Saúde para atrasar o início da vacinação infantil após a aprovação da iniciativa pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Devido à oposição manifestada por Bolsonaro, o Ministério da Saúde abriu de maneira inédita uma consulta pública sobre o tema, o que adiou uma decisão oficial até o início de janeiro. A imunização do público de 5 a 11 anos só deve começar no país na segunda metade de janeiro — na cidade de São Paulo, a previsão é que isso ocorra na segunda-feira (17).

    Ao mesmo tempo, os dois principais sistemas de consolidação de dados sobre a pandemia no país, o Sivep-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância da Gripe), e o e-SUS VE (Vigilância Epidemiológica), ficaram indisponíveis por mais de um mês, desde o início de dezembro. Sem informações sobre a evolução da covid-19 no Brasil no fim de 2021, nenhuma medida foi tomada para conter a disseminação do vírus.

    Um levantamento do jornal O Globo publicado na quinta-feira (13) mostrou que pelo menos 15 estados ainda relatavam problemas para acessar sistemas do ministério, mesmo a pasta tendo anunciado, um dia antes, que as plataformas haviam sido restabelecidas. O ministério prometeu restabelecer os sistemas que ainda apresentam instabilidade até sexta-feira (14).

    A ameaça da ômicron

    A possibilidade de colapso dos hospitais já vem sendo discutida por especialistas. Na quarta-feira (12), a médica intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar, que chegou a ser cogitada para assumir o Ministério da Saúde após a saída do general Eduardo Pazuello do cargo, no início de 2021, disse que os sistemas de saúde no Brasil devem colapsar em poucos dias caso o ritmo da doença continue intenso.

    “Pelo ritmo que estamos vendo, em uma semana os sistemas de saúde deverão entrar em colapso no Brasil. O número de infecções aumentará mais ainda nos ambulatórios e provavelmente faltarão mais profissionais da saúde no combate”

    Ludhmila Hajjar

    médica, em entrevista ao jornal O Globo

    No começo de 2022, em apenas dez dias, o número de casos de covid-19 no Brasil aumentou 737%, fazendo com que a média móvel de casos chegasse, na quarta-feira (12), a 52.271, número maior do que o registrado na primeira onda da doença no país, em julho de 2020, segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). Na quinta-feira (13), o Brasil registrou quase 100 mil novos casos em apenas 24 horas, e a média móvel saltou para 60.072 casos (o recorde, em junho de 2021, foi de 77.265 casos). Uma projeção da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, aponta para a marca de 1 milhão de casos por dia no Brasil, até o final de janeiro.

    A possibilidade de colapso foi reconhecida por Queiroga na quarta-feira (12), durante participação do ministro em evento da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, mas ele ressaltou que o cenário ainda não é observado no Brasil. “Essa variante, que foi inicialmente identificada na África, e, rapidamente, se espalhou em todo o mundo, trazendo incertezas, trazendo receio às pessoas de um novo surto de casos, um novo impacto no sistema de saúde com a perspectiva de colapso e perdas de vidas”, disse.

    A principal resposta do governo para o avanço da ômicron deve ser a ampliação da vacinação, segundo o ministro. Ele não citou, porém, como isso deve ser feito.

    “A principal ação sem dúvida é a campanha de vacinação, ampliar a dose de reforço. Em alguns estados onde a segunda dose está baixa tem que ampliar, sobretudo na região Norte”, afirmou. Na quinta-feira (13), ele lembrou que a variante tem afetado menos os vacinados. “Aqueles que se internam nos hospitais e nas unidades de terapia intensiva, a grande maioria são indivíduos não vacinados”, disse.

    Segundo dados do consórcio de veículos de imprensa, o Brasil vacinou cerca de 68% de sua população com duas doses. Apenas 14,7% receberam a terceira dose, de reforço, considerada essencial para trazer proteção contra a ômicron.

    Dados oficiais do Ministério da Saúde, porém, mostram uma redução no número de doses aplicadas no Brasil desde ao menos agosto de 2021, quando o país atingiu um pico de 13 milhões de vacinas aplicadas por semana. Na última semana de novembro, a quantidade de doses administradas tinha caído para 3,8 milhões, uma redução de 71% no ritmo de vacinação em comparação com agosto.

    No final de 2021, Queiroga chegou a afirmar que o governo preparava um “plano de contingência” caso a pressão sobre o sistema de saúde aumentasse, mas não detalhou a iniciativa, que não deve incluir medidas restritivas devido à oposição feita por Bolsonaro à estratégia. Ao contrário do ocorrido em ondas anteriores da doença, restrições rígidas de circulação também têm sido evitadas por outros países.

    Na segunda-feira (10), o Ministério da Saúde decidiu reduzir o tempo de isolamento para pessoas infectadas ou com suspeita de covid-19 para cinco, sete e dez dias, a depender dos sintomas apresentados e do resultado de testes. Anteriormente, o prazo era de 14 dias. A redução, também ocorrida em países como Estados Unidos e Reino Unido, visa a evitar a paralisação de setores da economia e de atividades consideradas essenciais.

    As cobranças dos estados

    Em ofício enviado a Queiroga na quarta-feira (12), o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) cobrou que o ministro reconheça que o país passa por uma nova onda de covid-19 e que tome medidas para ampliar a testagem da população e a cobertura vacinal.

    “O Conass acredita que o crescimento de casos, impulsionado pela nova variante, volta a impor desafios aos sistemas de saúde público e privado do país. Destaca-se que, mesmo com a suspeita da menor gravidade, com a alta transmissão aumentam as chances de hospitalização, principalmente na população sem esquema vacinal completo”, disse o órgão.

    Segundo o conselho que representa os estados, um terço da população brasileira ainda não completou o esquema vacinal primário, com duas doses, e por isso está vulnerável à onda da ômicron.

    “Se o sistema hospitalar entrar em colapso, tanto na rede privada, quanto na rede pública, óbitos evitáveis poderão ocorrer pela não garantia de acesso à internação”

    Conselho Nacional de Secretários de Saúde

    em ofício enviado ao ministro Marcelo Queiroga

    Os secretários cobraram do governo federal, entre outras, medidas como:

    • Recursos para a abertura imediata de pontos de testagem em massa da população.
    • Posicionamento claro da pasta sobre o cancelamento nacional de eventos como o carnaval de rua.
    • Início imediato de uma campanha pela imunização completa de todas as famílias, com destaque para a vacinação infantil.

    Devido à alta demanda por testes, e com risco de desabastecimento, a Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica) passou a recomendar que os laboratórios priorizem testes em pacientes de acordo com a gravidade dos sintomas. A Rede D'Or, por exemplo, a maior do setor privado de hospitais do Brasil, suspendeu na quarta-feira (12) a testagem pelo risco de falta de insumos, e só irá realizar os exames em “pacientes graves e internados”.

    Sob pressão dos estados, Queiroga anunciou na quinta-feira (13) a distribuição de 28 milhões de testes até o final de janeiro. O ministério também pediu nesta quinta à Anvisa a liberação dos testes de detecção da covid-19 que podem ser feitos pelo próprio paciente em casa, como já ocorre em outros países. Na quinta-feira (13), o ministro também disse que o país tem condições de dobrar o número de leitos de UTI.

    Na terça-feira (11), ele tinha jogado a culpa pela baixa disponibilidade dos testes nos municípios. “Como a pandemia caminhava para um controle, houve uma diminuição de solicitação dos municípios”, afirmou em entrevista à CNN Brasil.

    Na quinta-feira (13), ele culpou os estados pelo baixo ritmo de vacinação, já que existem estoques parados. “O lugar de se colocar vacinas é no braço da população, peço o apoio dos governadores, dos secretários estaduais de Saúde para que apliquem essas vacinas. Muito mais efetivo do que enviar ofício para o ministro da Saúde é, na ponta, fazer com que as políticas tenham concretude”, afirmou.

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