O que esperar da pandemia com a variante ômicron dominante

Relatório da Organização Mundial da Saúde mostra que cepa mais contagiosa do coronavírus, identificada em novembro, já responde por 60% dos novos casos de covid-19 no mundo 

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    Apenas sete semanas após sua identificação, a variante ômicron do coronavírus tornou-se predominante no mundo. Descoberta no final de novembro de 2021, ela já era, em meados de janeiro, responsável por 60% dos novos casos de covid-19 no planeta, segundo um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgado na terça-feira (11).

    A velocidade com que o vírus se alastra fez a entidade classificar sua transmissão como um “tsunami”. Na terça-feira (11), pela primeira vez, o mundo superou a marca de 3 milhões de novas infecções em apenas 24 horas. Caso esse ritmo se mantenha, metade da população europeia deve se contaminar até março, segundo estimativas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. A instituição também prevê que o Brasil alcance 1 milhão de novos casos por dia no final de janeiro.

    Apesar da explosão no número de doentes com covid-19, a quantidade de internações e de mortes não acompanha a mesma tendência. Por isso, a ideia de que a ômicron pode representar o início do fim da pandemia tem ganhado força entre pesquisadores. Ao contribuir para uma imunidade coletiva da população, a variante estaria empurrando a doença para se tornar endêmica. Casos graves seriam cada vez mais raros, com os não vacinados entre os alvos preferenciais.

    Neste texto, o Nexo mostra por que os especialistas têm considerado a ômicron como um ponto de inflexão na pandemia e quais os riscos ainda inerentes à disseminação do vírus pelo mundo.

    A evolução do coronavírus

    O novo coronavírus, chamado de Sars-CoV-2, foi identificado inicialmente na China, no final de 2019, e em poucos meses se espalhou por todos os continentes, ao encontrar uma população sem qualquer imunidade prévia contra ele. Durante sua replicação, ele sofreu mutações que o deixaram mais transmissível.

    Com o tempo, a OMS passou a listar as chamadas “variantes preocupantes”, com potencial de causar maiores danos à saúde pública: alfa, beta, gama e delta (que passou a predominar em 2021). Em novembro de 2021, pesquisadores identificaram na África do Sul a ômicron. Se a delta trazia nove mutações, a ômicron tinha 50, 32 delas na proteína usada pelo vírus para entrar nas células humanas. Sua descoberta gerou preocupação imediata na comunidade científica.

    Desde dezembro, a disseminação do vírus por países europeus e nos Estados Unidos tem levado a recordes de casos de covid-19. No Brasil, um apagão de dados no Ministério da Saúde, no início do mês, causado por um ataque hacker aos sistemas de notificação do governo federal, e a falta de uma política de testagem, necessária para o acompanhamento da trajetória da doença, deixou os gestores no escuro. Mesmo com a transmissão em alta, não houve medidas restritivas nem alertas sobre os riscos de contágio nas festas de fim de ano.

    Sintomas mais leves

    Países afetados pela ômicron têm evitado endurecer as regras de circulação por um motivo: os sintomas são, aparentemente, mais leves, e a infecção não causa tantos casos graves e mortes como a delta e as variantes anteriores. Apenas a China ainda insiste numa política de “covid zero”, adotando lockdowns rigorosos em cidades com milhões de habitantes, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro.

    O avanço da vacinação, iniciada ainda no final de 2020, especialmente entre os países mais ricos, reduziu significativamente o número de hospitalizações e óbitos pela doença. Ao se espalhar pelo mundo, a cepa não encontrou mais uma população tão vulnerável.

    “Em termos de gravidade de doença, há evidências crescentes de que a variante ômicron é menos grave em comparação com outras variantes”

    Organização Mundial da Saúde

    em relatório divulgado na terça-feira (11)

    Um motivo para isso está no fato de que a cepa ataca principalmente as vias aéreas superiores (nariz, garganta e traquéia) e não os pulmões, causando assim menos quadros de pneumonia, como vêm indicando as pesquisas.

    Apesar disso, a OMS tenta evitar que a ideia de doença mais leve se consolide. Em entrevista no começo de janeiro, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, afirmou que a ômicron não deveria ser classificada como “branda”.

    “Assim como as variantes anteriores, a ômicron está hospitalizando e matando pessoas. Na verdade, o tsunami de casos é tão grande e rápido que está sobrecarregando os sistemas de saúde em todo o mundo”

    Tedros Adhanom

    diretor-geral da OMS, em entrevista de 6 de janeiro de 2022

    Os Estados Unidos, por exemplo, registraram um recorde de hospitalizações na segunda-feira (10), segundo levantamento da agência Reuters. As mortes, apesar de uma alta de 28% no país em janeiro, ainda são metade do registrado no começo de 2021, quando a vacinação ainda estava no começo.

    Até o início de janeiro, o país tinha apenas 62,1% da população com duas doses e 22,8% com a dose de reforço — estudos mostram que a terceira dose é essencial contra a variante. A hesitação vacinal tem sido um dos principais obstáculos do governo americano no combate à pandemia.

    Na terça-feira (11), a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, lembrou que mesmo vacinados com três doses podem pegar covid-19, mas tem 17 vezes menos risco de hospitalização e 20 vezes menos risco de morte em comparação com um não vacinado.

    O começo do fim

    As características da ômicron têm reforçado a ideia entre especialistas de que a variante pode significar o início do fim da pandemia de covid-19. Em termos evolutivos, não interessa ao vírus que o hospedeiro morra. Tornando-se mais brando, ele pode se espalhar ainda mais.

    “Minha intuição é que essa variante é o primeiro passo num processo em que o vírus se adapta à população humana para produzir sintomas mais inofensivos”, disse o professor de ciências respiratórias Julian Tang, da Universidade Leicester, ao jornal britânico The Guardian, no final de dezembro.

    Coordenador do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Amilcar Tanuri disse em entrevista ao jornal O Globo, em 6 de janeiro, ser “muito possível que o coronavírus se atenue e se torne um vírus sazonal, menos patogênico e com menor capacidade de transmissão”.

    Segundo ele, as barreiras impostas ao vírus, principalmente pela vacinação, fizeram com que ele buscasse se adaptar e, nesse processo, ele “perdeu eficiência”. “Ela [ômicron] se espalha mais depressa, pega muito mais gente, mas, uma vez dentro do organismo humano, não é rápida para escapar do sistema imune e chegar aos pulmões e dali para outros órgãos. O resultado é uma alta taxa de transmissão de uma infecção, quase sempre, branda, com o coronavírus debelado pelo sistema imunológico”, afirmou.

    Também em entrevista ao jornal O Globo, na quarta-feira (12), a médica intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar, que chegou a ser cotada para assumir o Ministério da Saúde, disse concordar com a ideia de que a pandemia está se encaminhando para o fim.

    “Temos pela primeira vez a junção de dois fatores: uma variante altamente prevalente infectando muita gente imunizada. Isso faz com que um número alto de pessoas se infecte com a forma branda da doença, o que é bom para a imunização. Não podemos, no entanto, baixar a guarda com a vacinação”, disse.

    Em texto publicado no jornal Folha de S.Paulo, no começo de janeiro, o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, disse que a ideia de “imunidade coletiva”, que chegou a ser discutida no início como uma saída para a pandemia, “talvez não seja inatingível com a ampla e rápida disseminação da ômicron”.

    Também chamada de “imunidade de rebanho”, a ideia se refere ao estágio em que a circulação do vírus é controlada porque o agente infeccioso passa a encontrar muitos obstáculos (por causa da vacinação e da proteção pelo contágio natural) para se disseminar. A ideia foi descartada com a chegada da variante delta, porque, por ser muito transmissível e letal, exigia que quase a totalidade da humanidade se vacinasse contra a covid-19, o que é considerado impraticável.

    Com largas proporções da humanidade em contato com a ômicron, sem que ela cause tantas mortes, o conceito voltou a ser considerado, inclusive por autoridades de países como França, Suíça e Israel. “Visto a taxa de contaminação em nosso país e em outros lugares do planeta, é provável que estejamos todos adquirindo uma forma de imunidade ou pela vacinação ou pela infecção ou pelos dois”, afirmou o ministro da Saúde da França, Olivier Véron, no começo de janeiro.

    “Se o coronavírus se comportar assim, gerando variantes diferentes a ponto de se espalhar, mas não tão diferentes que invadem o corpo todo de imunizados, os casos graves do Sars-CoV-2 poderão ser cada vez mais raros conforme nos vacinamos e quem insiste em não se vacinar contrai covid repetidamente”, escreveu o biólogo Atila Iamarino, também em texto publicado no jornal Folha de S.Paulo, em janeiro.

    No caso da África do Sul, onde a ômicron foi identificada no final de novembro, sua disseminação local resultou num aumento brusco de casos, mas o pico logo foi atingido, e a incidência começou a diminuir ainda em dezembro, o que levou o país a decidir flexibilizar as medidas restritivas no final de 2021.

    Em entrevista ao jornal Financial Times, o professor de epidemiologia Tim Colbourn, da Universidade College London, disse ser razoável imaginar que, depois do pico da ômicron, haverá uma enorme queda nos casos da doença em 2022, podendo fazer com que ela saia da lista dos dez principais problemas de saúde dos países, o que seria importante para se chegar ao fim da pandemia.

    Os riscos continuam

    Na terça-feira (11), durante uma entrevista, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, sugeriu que a Europa passe a tratar a covid-19 como uma doença endêmica, como a gripe. “Temos condições de abrir gradualmente, com precaução, o debate em nível técnico e europeu, para começar a avaliar a evolução desta doença com parâmetros diferentes dos que temos até agora”, afirmou.

    No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro minimizou a gravidade da variante e disse nesta quarta-feira (12) que ela é “bem-vinda” e que “não matou ninguém”, o que é mentira. A primeira morte no país após infecção pela cepa foi confirmada pelo Ministério da Saúde em 6 de janeiro, e, só no Reino Unido, a ômicron causou 75 óbitos em 2021.

    Para a OMS, que chegou a responder uma pergunta sobre as declarações de Bolsonaro, ressaltando a gravidade do vírus, o estágio de endemia ainda está distante. Catherine Smallwood, autoridade de emergência para a Europa da entidade, disse que o vírus deve se tornar endêmico, mas não em 2022. Segundo ela, a circulação de vírus endêmicos ocorre de maneira estável, e as ondas causadas pela doença são previsíveis, o que ainda não acontece com a covid-19.

    O status de endemia só seria obtido com uma ampla vacinação global, objetivo longe de ser alcançado. Cerca de metade dos países que integram a OMS não conseguiram atingir a meta de imunização de ao menos 40% da população até o final de 2021, segundo a entidade.

    É impossível prever o futuro da pandemia, segundo os especialistas, por causa também dos riscos de surgimento de novas variantes. Como o vírus está circulando de maneira desenfreada, as chances de que isso aconteça são maiores. Pesquisadores já dão como certo o surgimento de novas cepas, que poderiam representar grande risco caso consigam furar a proteção obtida com as vacinas.

    Por isso, espera-se que os países adotem um esquema de vacinação anual contra o coronavírus, e laboratórios já trabalham na atualização dos imunizantes para as variantes mais contagiosas em circulação.

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