Como fica o mercado de apps de entrega com a saída da Uber Eats

Fim de operação da plataforma pode deixar setor ainda mais dominado por um único aplicativo

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    A Uber anunciou na quinta-feira (6) que vai descontinuar o serviço de delivery de restaurantes Uber Eats a partir do dia 6 de março. Com isso, a empresa vai operar no país apenas com o serviço de corridas em carros particulares e de entregas de itens de supermercado por meio do aplicativo Cornershop. Em nota, a Uber afirmou que a decisão faz parte de um processo de reestruturação da empresa no país, avaliada após queda no faturamento durante a pandemia da covid-19.

    Um dos motivos para o fim do Uber Eats é o fato de que o setor de delivery de restaurantes é dominado por um grande concorrente, o iFood, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. Desde março de 2020, primeiro mês da pandemia, a Uber demitiu 3.000 funcionários em todo o mundo a fim de cortar gastos. A empresa fundada em 2009 está presente em 63 países, e começou a dar lucro somente no final de 2021.

    Neste texto, o Nexo fala sobre a saída do Eats do Brasil, o que ela significa para o mercado de aplicativos de entrega e o momento da empresa no país.

    A chegada do Eats ao Brasil

    A Uber foi fundada nos EUA em 2009, inicialmente apenas com o serviço de corridas em carros particulares. A partir de 2014, a empresa decidiu expandir seus modelos de negócio, lançando em território americano o Eats.

    O Eats chegou ao Brasil em 2016, encontrando, à época, um mercado que já tinha se consolidado com a presença maciça do iFood, que está no país desde 2011.

    O mercado dos apps de entrega

    O iFood é líder absoluto no mercado de apps de entrega no Brasil, desde sua chegada em 2011.

    83%

    era a fatia de mercado do iFood em junho de 2021

    13%

    era a fatia de mercado do Uber Eats em junho de 2021

    4%

    era a fatia de mercado do Rappi em junho de 2021

    “O Uber Eats estava em uma situação muito difícil por aqui. Por um lado, ele precisava enfrentar o iFood. Por outro, existe uma competição muito intensa entre os concorrentes menores. Isso tudo tem um custo muito alto”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo Sérgio Molinari, presidente da consultoria de mercado Food Consulting.

    Os concorrentes menores aos quais Molinari se refere são aplicativos como o James, do Grupo Pão de Açúcar, e plataformas locais, como o Riviera Delivery, usado pelos moradores e visitantes da Riviera de São Lourenço, no litoral de São Paulo, que funciona como os concorrentes maiores.

    “São muitas frentes, acaba sendo difícil de enfrentar todas elas. Na pandemia, o iFood capturou ainda mais mercado e de maneira muito agressiva. A Uber fez as contas e decidiu se concentrar naquilo que tem se dado melhor”, disse ao jornal O Globo Luciano Timm, professor de direito econômico da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, se referindo ao sucesso da Uber nas corridas em carros particulares.

    Com a saída do Uber Eats nos deliveries de restaurante, iFood e Rappi vão disputar as fatias do mercado – o que deve aumentar a pressão jurídica sobre o iFood.

    Em 2020, a Rappi e a Uber entraram com um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acusando o iFood de “práticas anticompetitivas”, destacando principalmente o fato de que a grande concorrente fechava acordos de exclusividade com certos restaurantes, que, por sua vez, ficavam proibidos de operar em outras plataformas.

    Em março de 2021, o Cade deu parecer favorável à Uber e ao Rappi ao determinar que novos contratos de exclusividade não podiam mais acontecer. A decisão pode ser revertida ao fim do processo.

    O caso ainda está correndo, com as requerentes afirmando que o iFood também monopoliza o setor ao oferecer a grandes redes de restaurantes taxas menores pela presença na plataforma, e também por fazer com que os donos dos restaurantes arquem com os custos finais de promoções oferecidas ao consumidor final.

    A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) também vê com temor um possível novo crescimento do iFood. Pretendemos cobrar uma oposição firme do Cade porque estamos cada vez mais preocupados com essa concentração de mercado, disse ao jornal Folha de S.Paulo o presidente da organização, Paulo Solmucci.

    O iFood mantém sua posição de que as afirmações não fazem sentido e de que suas práticas de mercado são completamente regulares.

    A gig-economy no Brasil

    Os mercados que dependem de aplicativos e trabalhadores informais fazem parte da chamada gig-economy, termo em inglês que pode ser traduzido livremente como “economia dos bicos”.

    Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgados em outubro de 2021 mostraram que o Brasil tinha 1,4 milhão de trabalhadores dentro do ecossistema da gig-economy.

    O modelo é criticado, já que os profissionais não têm vínculos empregatícios, ficando sem direitos trabalhistas e redes de proteção socioeconômica.

    “As empresas tentam se apresentar cada vez mais não como contratantes, mas como mediadoras. A qualquer processo de tentar estabelecer vínculo empregatício elas vão dizer ‘nossa atividade é prover os meios tecnológicos para que oferta e procura se encontrem, então somos mediadoras, não somos do transporte, da logística, somos do ramo da tecnologia’. Isso vai isentá-las de qualquer responsabilidade sobre esses trabalhadores”, disse ao Nexo a socióloga Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora do tema na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

    “Temos que olhar então para algo muito novo, que é o gerenciamento algorítmico do trabalho, onde o entregador trabalha o tempo inteiro sem saber quais são de fato as regras ou os critérios que estão organizando o trabalho dele. O motoboy passa 12 horas do dia dele disponível, e ele está lá logado, buscando a corrida. Se você conversar com o motoboy, ele vai te falar do adoecimento físico e mental, porque passa o dia estressado, cada vez vendo que tem de trabalhar mais para ganhar menos”, afirmou.

    Na quinta-feira (6), o presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionou uma lei que obriga as empresas, como iFood e Rappi, a garantirem seguros aos entregadores e motoristas. O seguro deve abranger, obrigatoriamente, acidentes pessoais, invalidez permanente ou temporária e morte. Na hipótese de o entregador trabalhar para mais de uma empresa de aplicativo de entrega, a indenização deverá ser paga pela seguradora contratada pela empresa para a qual o trabalhador estiver prestando serviço no momento do acidente.

    Outra exigência da nova lei é que, uma vez diagnosticado com covid-19, o entregador deverá receber uma assistência financeira por parte da empresa de aplicativo durante o período inicial de 15 dias. Esse prazo poderá ser prorrogado por mais dois períodos sucessivos de 15 dias, mediante apresentação de exame RT-PCR ou laudo médico que constate a persistência da doença. O valor a ser pago deve corresponder à média dos três últimos pagamentos mensais recebidos pelo entregador.

    No quesito prevenção, a lei prevê que a empresa de aplicativo de entrega deve fornecer ao entregador itens como máscaras, álcool em gel ou outro material higienizante para a proteção pessoal durante o trabalho. Isso poderá ocorrer por meio de repasse ou reembolso de despesas.

    Pelo descumprimento das regras, a nova lei estabelece punições que vão de advertência até o pagamento de multa administrativa de R$ 5.000 por infração cometida, em caso de reincidência.

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