O impacto do apagão de dados em meio ao avanço da ômicron

Sistemas do Ministério da Saúde usados para o monitoramento da covid continuam com falhas. Levantamento de laboratórios indica que variante já representa 92% dos casos da doença no país

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    Enquanto parte da Europa e os Estados Unidos registram recordes de casos de covid-19 devido ao avanço da variante ômicron do novo coronavírus, o Brasil entra em 2022 sem saber a real dimensão da transmissão da doença em seu território. A situação se deve a um apagão de dados no Ministério da Saúde, causado por um ataque hacker no início de dezembro, e à ausência de políticas de testagem.

    Sem os dados dos estados que não estão conseguindo acessar os sistemas de notificação do governo federal, pesquisadores ficam impossibilitados de estimar a taxa de transmissão do vírus, calcular com precisão as médias móveis de casos e mortes e acompanhar a evolução da covid-19. As informações servem para que os gestores possam prever o impacto da doença nos hospitais e estudar a adoção de possíveis medidas restritivas.

    A seguir, o Nexo mostra como os problemas nas bases de informações federais deixaram o país no escuro ainda no final de 2021 e como alguns indicadores locais já apontam para a disseminação da variante ômicron no Brasil depois das festas de fim de ano.

    De onde vêm os dados

    Os números da pandemia no Brasil que chegam à população são baseados em boletins municipais e estaduais que depois são consolidados e disponibilizados pelo Ministério da Saúde. O governo federal usa dois principais sistemas de informação para isso:

    • O Sistema de Informação de Vigilância da Gripe, Sivep-Gripe
    • O e-SUS VE (Vigilância Epidemiológica)

    O Sivep-Gripe registra casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em pessoas que foram hospitalizadas em instituições públicas e privadas de todo o país — os hospitais são obrigados a fazer a notificação. As SRAGs são definidas pela combinação de febre alta (acima de 37,8ºC), tosse ou dor de garganta, dificuldade respiratória (ou saturação de oxigênio no sangue abaixo de 95%) e necessidade de hospitalização — ou morte pelos sintomas independentemente da hospitalização. Também são registrados casos de síndromes gripais para a vigilância da influenza e de outros vírus respiratórios.

    O Sivep-Gripe substituiu em 2019 o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), que registrava os casos de SRAG desde 2009, quando houve uma pandemia de H1N1. Inicialmente, era uma base de dados de casos de hospitalização e mortes pelos vírus influenza A e B, mas, desde 2012, também passou a receber informações sobre o vírus sincicial respiratório, adenovírus e parainfluenza 1, 2 e 3. Em 2020, com a pandemia de covid-19, incluiu os casos de infecção pelo novo coronavírus.

    O Sivep-Gripe é usado, por exemplo, pelo sistema Infogripe, uma parceria do Ministério da Saúde com o Programa de Computação Científica da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Escola de Matemática Aplicada da FGV (Fundação Getulio Vargas). Como há um intervalo que pode chegar a um mês entre a data dos primeiros sintomas da doença e a digitalização das informações no sistema, o Infogripe usa métodos estatísticos para corrigir esse atraso.

    Foi com base nos dados do Sivep-Gripe que o sistema Infogripe conseguiu perceber, em meados de março de 2020, que já havia um processo de transmissão comunitária de covid-19 no Brasil.

    Já o e-SUS VE começou a ser implantado de maneira gradativa durante a pandemia para receber notificações de casos suspeitos e confirmados apenas de covid-19. Por meio do sistema e-SUS Notifica, os casos de síndrome gripal são informados pelas unidades públicas e privadas de saúde. O governo determina, por exemplo, que todos os casos suspeitos e confirmados por testes rápidos feitos em farmácias sejam notificados por esse sistema dentro de um prazo de 24 horas.

    Eles, porém, não são 100% confiáveis. Ainda em agosto de 2020, uma nota técnica da Fiocruz apontou que havia uma diferença de 10% nos dados do e-SUS VE em relação aos boletins das secretarias estaduais de Saúde. Em alguns estados, os números de casos de covid-19 dos boletins eram muito maiores do que os filtrados pelos bancos de dados do Ministério da Saúde. Em outros, ocorria o contrário: os estados registravam menos casos do que o sistema federal.

    Por causa da defasagem entre os dados estaduais e o e-SUS VE, a nota sugeria que os gestores públicos adotassem medidas de intervenção na pandemia considerando apenas os boletins epidemiológicos locais. O documento lembra que, no estado do Rio de Janeiro, em determinado momento da pandemia, a população chegou a ser informada que a transmissão do novo coronavírus ainda era baixa, com base nos dados do Ministério da Saúde, enquanto, na realidade, o estado passava por seu “pior período epidêmico”.

    “É provável que, devido ao volume de casos extremamente alto, o próprio sistema epidemiológico de informação tenha colapsado e as informações foram adicionadas aos boletins posteriores”, afirma a nota.

    O apagão de informações

    Em 10 de dezembro de 2021, o Ministério da Saúde sofreu um ataque hacker que derrubou sites, aplicativos e sistemas de informação do governo federal. Embora a pasta diga que o e-SUS Notifica tenha sido restabelecido no dia 21 de dezembro, os dados disponíveis ainda são anteriores ao ataque. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, chegou a prever que os sistemas retornariam até 15 de janeiro.

    Por causa do ataque, estados deixaram de alimentar as bases de dados do ministério, devido à dificuldade de acesso aos sistemas. Até o início de janeiro de 2022, Roraima e Tocantins, por exemplo, não conseguiam atualizar todos os dados ou acessar os serviços, inclusive o SI-PNI (Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações).

    Em entrevista ao jornal O Globo, na quarta-feira (5), o secretário de Saúde da Paraíba, Geraldo Medeiros, afirmou que a atualização de dados da vacinação no estado não estava sendo feita desde dezembro. “A Paraíba está parada há 15 dias com 61,31% (na taxa de vacinação). As doses aplicadas e registradas estão totalmente desconexas”, afirmou. Segundo o governo federal, a instabilidade “prejudicou os estados na extração e publicação dos dados notificados pelos municípios”.

    O problema no Sivep-Gripe interrompeu os trabalhos do Infogripe, da Fiocruz. Seu coordenador, Marcelo Gomes, afirmou também em entrevista ao jornal O Globo que a queda no sistema impedia que se tirasse um “fotograma da covid-19 no país, sobretudo diante da ômicron”.

    “Se tivéssemos conseguido acompanhar semana após semana durante dezembro e identificado uma piora em relação a novembro, isso poderia ter influenciado a decisão individual de cada um de nós sobre o que fazer no Natal ou no Ano Novo, dado o cenário que teríamos naquele momento. E isso nós não tínhamos”, afirmou.

    No caso do e-SUS VE, sua queda leva a decisões feitas no “escuro” por gestores, segundo a infectologista do Grupo Fleury, Carolina Lázari, ao jornal O Globo. “Cada laboratório faz [a notificação pelo sistema] de uma maneira. Alguns municípios continuam exigindo notificações específicas locais. É muito complexo e quanto mais fragmentado, mais discrepância. Essa heterogeneidade atrapalha quem notifica, quem é notificado e quem precisa dos dados a tempo de formular políticas públicas”, disse.

    O impacto da falta de dados

    Na quinta-feira (6), pesquisadores da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), que analisam e divulgam os dados da pandemia por meio da plataforma JF Salvando Todos, publicaram uma nota dizendo que o apagão impede o combate à covid-19 no país.

    “Sem acesso às atualizações do número de casos e de vidas perdidas — além de estarmos testando pouco e fazendo pouca vigilância genômica — fica difícil nos planejarmos para as próximas semanas, visto que o impacto de um possível aumento do número de casos no sistema de saúde costuma levar entre duas ou mais semanas para ser sentido”, afirmou o pesquisador Marcel Vieira.

    Às vésperas das festas de fim de ano, dados das farmácias, laboratórios e hospitais privados indicavam alta de casos. Houve ainda em dezembro um aumento da:

    • Procura por testes rápidos de antígeno em farmácias.
    • Procura por atendimento por sintomas gripais em prontos-socorros.

    Segundo a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), o total de testes feitos entre 27 de dezembro e 2 de janeiro foi o maior desde que o serviço começou a ser oferecido no Brasil, em abril de 2020. Foram realizados 283.763 exames, 50% a mais do que na semana anterior. O número de resultados positivos de uma semana a outra saltou de 11,8% para 33% em todo o país.

    Informações das secretarias municipais de Saúde também corroboram um cenário de maior transmissão do vírus. No Rio de Janeiro, apenas nos primeiros cinco dias de 2022, o número de casos de covid-19 na cidade já correspondia a 80% do registrado ao longo de todo o mês de dezembro. Foram 2.485 casos entre os dias 1º e 5 de janeiro, contra 3.070 no último mês de 2021, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

    Em São Paulo, dados compilados pelo site UOL divulgados na quinta-feira (6) com base nos boletins epidemiológicos da cidade mostravam que, em duas semanas desde o final de dezembro, a quantidade de infecções por covid-19 aumentou 53%, e a ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) subiu de 21% para 38%.

    Um estudo coordenado pelo Instituto Todos pela Saúde em parceria com os laboratórios Dasa e DB Molecular divulgado na quinta-feira (6) aponta que 92,6% dos testes positivos para detecção de covid-19 feitos entre 26 de dezembro a 1º de janeiro no Brasil tiveram como causa a variante ômicron. O levantamento anterior, divulgado em 29 de dezembro, mostrava que a cepa correspondia a apenas a 31,7% dos casos, o que sinaliza uma rápida expansão do vírus.

    Na quinta-feira (6), a secretaria de saúde de Aparecida de Goiânia, em Goiás, confirmou a primeira morte causada pela ômicron no país. A vítima era um homem de 68 anos que era hipertenso e tinha doença pulmonar obstrutiva crônica. Ele já tinha recebido as três doses da vacina.

    O pesquisador Julio Croda, da Fiocruz, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, na terça-feira (4), que a regularização do sistema do governo federal deve vir acompanhada de uma “explosão de casos”. “Sabemos que em dezembro houve um aumento expressivo de casos por conta da ômicron, mas está tudo represado desde o dia 10 [de dezembro]”, disse.

    O total de casos registrados em 24 horas divulgado na quinta-feira (6) pelo consórcio de imprensa – criado para coletar dados diretamente de secretarias estaduais de Saúde durante outro apagão de dados do governo federal, em 2020 – foi de 45,7 mil casos, o maior número desde setembro de 2021. A alta é atribuída por especialistas, segundo o portal G1, tanto à ômicron quanto ao represamento de dados desde dezembro. O número de mortes se manteve estável.

    Ao site G1, o pesquisador Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biologia da USP (Universidade de São Paulo) e do Observatório Covid-19 BR, diz que a falta de dados é mais grave, neste momento, por causa da epidemia de gripe que atinge simultaneamente o país.

    “Estamos em um voo cego, e isso é gravíssimo porque a gente teve, ou está tendo ainda, um surto de influenza. Se a gente não souber quanto desses casos são covid-19, como que a gente coordena ações?”, disse.

    Pouco monitoramento

    Além do apagão de dados, pesquisadores também apontam como problema a falta de uma política de testagem em massa no país, não implantada pelo governo federal desde o começo da pandemia, apesar de ser uma das principais recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) para o enfrentamento da covid-19.

    Segundo o site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, o Brasil é um dos países que menos testa na América do Sul. No começo de janeiro, segundo uma média dos últimos sete dias, foram realizados apenas 23 testes para cada 100 mil habitantes no país. No mesmo período, a Argentina fez 215, e o Uruguai, 388, pela mesma proporção da população.

    O médico sanitarista Cláudio Maierovitch, que é ex-diretor da Anvisa, classificou a situação, ao jornal Folha de S.Paulo, na terça-feira (4) como um “subdiagnóstico”. “Há uma grande quantidade de pessoas com sintomas leves e que não vão ter acesso aos testes mesmo se procurassem os serviços de saúde”, disse.

    Outro problema apontado por especialistas é que o país sequencia amostras em quantidade muito baixa, o que dificulta o monitoramento do avanço das variantes. No Reino Unido, de cada 100 resultados positivos em testes para a covid-19, o sequenciamento genético é feito em dez deles. Nos Estados Unidos, cinco são sequenciadas. No Brasil, apenas 0,5%.

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