Por que o avanço da ômicron traz um janeiro preocupante no Brasil

Variante mais contagiosa do coronavírus tem feito países da Europa e dos Estados Unidos baterem recordes de casos de covid-19. Redes privadas brasileiras já registram alta em atendimento

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    A variante ômicron do novo coronavírus, considerada quatro vezes mais transmissível do que a delta nos estágios iniciais da covid-19, preocupa autoridades de saúde desde sua identificação, em novembro. Ela se alastrou rapidamente pelo planeta em poucas semanas e tem elevado o número de infectados em países da Europa e nos Estados Unidos. No final de dezembro, pela primeira vez durante a pandemia, mais de 1 milhão de casos foram registrados num único dia em todo o mundo.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem classificado a disseminação do vírus como um “tsunami” e alerta para os riscos de colapsos nos sistemas de saúde. Por causa da proteção garantida pelas vacinas e das características da nova cepa, que causa sintomas mais brandos, o número de mortes não tem crescido no mesmo ritmo.

    No Brasil, a chegada da variante tem sido acompanhada por um apagão de dados. Devido a um ataque hacker aos sistemas do Ministério da Saúde, as informações sobre a evolução da covid-19 no país apresentam falhas desde o começo de dezembro. Dados das redes privadas de saúde, porém, já apontam para um avanço da ômicron e para um aumento nas internações nos hospitais por causa da doença.

    Neste texto, o Nexo mostra por que a trajetória da nova variante no mundo é preocupante para o Brasil e o que dizem as pesquisas sobre os efeitos das vacinas em relação à mutação do vírus.

    O apagão de informações

    A divulgação de dados sobre a pandemia vem enfrentando problemas no Brasil desde ao menos 10 de dezembro, por causa de ataques aos sites e sistemas do Ministério da Saúde. A pasta diz que o e-SUS Notifica, que armazena informações sobre casos e mortes por covid-19, foi restabelecido em 21 de dezembro, mas os estados continuavam tendo dificuldades para acessar o sistema até a quinta-feira (30).

    Na sexta-feira (31), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que a previsão é que os dados voltem a ficar disponíveis normalmente até a primeira quinzena de janeiro. Ele negou que o país esteja “no escuro” em relação aos dados e disse que a pasta acompanha a situação de cada estado.

    Segundo o consórcio de veículos de imprensa, que coleta dados diretamente com os estados, a média móvel de mortes pela doença no Brasil na quinta-feira foi de 114. O país segue, aparentemente, uma tendência de redução no número de vítimas pela doença. Mesmo assim, a falta de dados precisos dificulta a análise do cenário da pandemia — mesmo os estados precisam acessar as plataformas do governo federal para apurar os dados dos municípios, que utilizam os mesmos sistemas.

    “Se a gente não monitora epidemiologicamente o problema, a gente só vai entender a gravidade quando os hospitais estiverem lotados. E aí já é tarde. A gente não pode pagar para ver o que vai acontecer e, sem dados, a gente está fazendo isso”, afirmou o pesquisador Diego Xavier, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ao Jornal Nacional, da TV Globo, na quarta-feira (29).

    Além disso, é difícil confiar nos dados oficiais sobre o número de casos de covid-19 no Brasil porque o país é um dos que menos testa no mundo. Apenas três brasileiros são testados a cada 100 mil habitantes. No Chile, essa taxa é de 279 testes pela mesma proporção da população. No Reino Unido, um dos países que mais aplica a política de monitoramento da doença, a população pode realizar os exames rápidos por conta própria, em casa. A taxa no país é de 2.233 testes aplicados para cada 100 mil britânicos.

    Os dados disponíveis

    Com o país às cegas em relação aos dados oficiais, os números das redes privadas podem servir de apoio no monitoramento da pandemia do coronavírus. E eles têm indicado um avanço da ômicron.

    Às vésperas do Natal, por exemplo, o hospital Albert Einstein, em São Paulo, havia atendido 215 pacientes com covid-19 entre 13 e 22 de dezembro. Nos 12 dias anteriores a esse período, foram apenas 31 atendimentos. O número de internações por causa da infecção também pulou de 5 para 12. E até às vésperas do Natal, já haviam sido registrados pelo hospital 246 casos de covid-19 em dezembro, contra apenas 63 ao longo do mês de novembro. A alta nos atendimentos a pacientes com covid-19 também foi observada em outros hospitais privados da capital paulista, como o Hospital Alemão Oswaldo Cruz e o Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or.

    No dia 26 de dezembro, o Einstein também atualizou o monitoramento que faz das cepas em circulação, e identificou que 62% das amostras do coronavírus sequenciadas eram da ômicron — o número tem como referência apenas os pacientes tratados nos hospitais. Na quarta-feira (29), um levantamento do Instituto Todos pela Saúde, em parceria com laboratórios privados, com base em 30 mil testes do tipo PCR feitos em 16 estados brasileiros em dezembro, apontou que 31,7% dos casos positivos de covid-19 tinham sido causados pela variante.

    Os números também mostram um aumento de internações por covid-19 no estado de São Paulo. Dados do Infotracker, um projeto da USP (Universidade de São Paulo) e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) que monitora a pandemia, mostram que, até a quinta-feira (30), 1.657 pessoas estavam internadas em leitos de enfermaria e 1.069 em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) por causa da infecção. Em comparação com um período de 14 dias antes, os números do final de dezembro eram 22,83% (para leitos de enfermaria) e 23,29% (para UTIs) superiores.

    A pandemia do coronavírus tem ocorrido simultaneamente a uma epidemia de gripe causada por uma cepa do H3N2, um subtipo do vírus Influenza A, que causa sintomas parecidos com os da covid-19. Mas para os especialistas, o Rio de Janeiro também passou pela epidemia de gripe sem grandes alterações nas internações por síndromes respiratórias. A alta de hospitalizações em São Paulo, portanto, poderia indicar um aumento na transmissão do coronavírus.

    “Tem uma subida muito forte que não pode ser explicada somente por gripe já no início de dezembro, e naquele momento ninguém fazia teste para gripe. E a gente sabe que a ômicron tá vindo, é só ver que ela vem de todos os lados, na Europa, nos Estados Unidos. Por que achar que aqui não vai ser assim também?”, afirmou o físico da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e membro do Observatório Covid-19 BR Roberto Kraenkel, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, na quinta-feira (30).

    O governo de São Paulo tem mantido cautela sobre o aumento de internações, alegando não haver discriminação na ocupação de leitos entre casos de gripe e covid-19, e dito que é “equivocado” associar as novas hospitalizações a um avanço do coronavírus. “A Secretaria de Estado de Saúde mantém o monitoramento do cenário epidemiológico em todas as regiões e reforça a queda de indicadores da pandemia”, afirmou o órgão em nota.

    O avanço no mundo

    O surgimento da ômicron não significa que ela necessariamente irá atingir o Brasil do mesmo modo como ocorre em outros países. A variante delta, que também era mais transmissível, por exemplo, não gerou um aumento de casos de covid-19 no país, como nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil já tinha sido duramente atingido pela variante gama, surgida no final de 2020, em Manaus, e havia conseguido avançar com a vacinação durante a chegada da delta. Essa proteção adquirida pela imunização e pelo contágio com o vírus foi considerada um fator que ajudou a segurar os efeitos da nova cepa.

    Por outro lado, os Estados Unidos e a Europa também foram devastados pela delta, conseguiram avançar na vacinação, e agora sofrem com a ômicron, que consegue escapar da proteção gerada pelos imunizantes. Na quarta-feira (29), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, pediu aos países que adotassem “medidas sociais de saúde pública” para proteger os trabalhadores e os sistemas de saúde.

    “No momento, delta e ômicron são ameaças gêmeas que estão levando casos a números recordes, o que novamente está levando a picos de hospitalizações e mortes por covid-19”

    Tedros Adhanom

    diretor-geral da OMS, na quarta-feira (29)

    O que preocupa os especialistas, no caso do Brasil, é que os cuidados com a transmissão não têm sido os mesmos por causa das flexibilizações nas medidas de prevenção. Em cidades como o Rio de Janeiro, por exemplo, o uso de máscara em espaços abertos não é mais exigido, e eventos com público voltaram a ser permitidos. As festas e viagens de fim de ano foram reincorporadas à rotina dos brasileiros.

    “Essa variante é muito transmissível. Então, tem que tomar o mesmo cuidado que a gente estava tomando antes, que é a máscara, que é o distanciamento, que é evitar aglomeração, principalmente sem máscara”, disse o virologista da rede Dasa José Eduardo Levi, ao Jornal Nacional, da TV Globo, na quarta-feira (29).

    Em dezembro, os Estados Unidos e o Reino Unido bateram recordes de casos de covid-19 por causa da ômicron. O imunologista Anthony Fauci, principal conselheiro de saúde do governo americano, afirmou na quarta-feira (29) que o país deve atingir um pico de casos de covid-19 no final de janeiro. Ele lembrou que, na África do Sul, apesar de uma explosão inicial de infecções pela ômicron, a curva de casos logo começou a cair, mas ressaltou ainda haver muitas incertezas sobre a doença.

    “O vírus já nos trapaceou antes. Nós achamos que as vacinas seriam suficientes para nos proteger, mas daí veio a delta e bagunçou tudo”, lembrou.

    O governo da África do Sul suspendeu nesta quinta-feira (30) algumas medidas restritivas, como o toque de recolher noturno. Segundo dados oficiais, divulgados em um comunicado no mesmo dia, os indicadores de saúde apontam que o país pode ter superado o pico da quarta onda de infecções.

    A ômicron e as vacinas

    O temor em relação ao avanço da ômicron no Brasil também diz respeito à vacinação. Estudos vêm demonstrando que a cepa mais contagiosa consegue escapar da proteção garantida pela imunização. Até o final de dezembro, o país tinha vacinado 77% da população com ao menos uma dose e 67% com o esquema completo, com duas doses. Ao menos 12,3% receberam uma terceira dose de reforço.

    Em comunicado publicado no final de dezembro, pesquisadores de Hong Kong divulgaram resultados de testes em laboratório dizendo que mesmo três doses da Coronavac, vacina amplamente usada no Brasil, não são suficientes para produzir níveis adequados de anticorpos para combater a variante ômicron.

    Outro estudo recente, conduzido por pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, aponta que nem duas doses da Coronavac seguidas por um reforço da Pfizer, como vem sendo aplicado no Brasil, garante uma resposta imunológica forte contra a ômicron. A pesquisa sugere a necessidade de duas doses de reforço com a Pfizer.

    Muitos pesquisadores, porém, ponderam que os estudos vêm sendo feitos em laboratórios e que a proteção do organismo contra o vírus não ocorre apenas com os anticorpos gerados pelo sistema imune, mas também com células de defesa que possuem memória contra infecções antigas. No mundo real, apesar do aumento de casos pela ômicron, não há um aumento significativo de mortes, o que demonstra que as vacinas, inclusive a Coronavac, vêm sendo efetivas para evitar óbitos. Mesmo assim, a dose de reforço continua sendo essencial para melhorar a resposta imunológica contra o vírus.

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