​​Como a testagem ainda pode ser essencial contra a covid-19 

Plano para distribuir testes que podem ser feitos em casa é aposta dos Estados Unidos para conter ômicron. No Brasil, procura por exames em farmácias tem alta em meio a festas de fim de ano e epidemia de gripe

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    Estratégia defendida por epidemiologistas desde o início da pandemia, a testagem em larga escala voltou a ganhar destaque no mundo em dezembro depois que o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou um plano para distribuir gratuitamente, a partir de janeiro, 500 milhões de exames que podem ser realizados em casa. Às vésperas do Natal e em meio à preocupação com a variante ômicron, os americanos tiveram dificuldades para encontrar os testes nas farmácias devido à alta demanda, mesmo problema enfrentado pelos brasileiros.

    Segundo um levantamento divulgado pela plataforma de gestão de serviços clínicos Clinicarx, com base em informações de 700 farmácias espalhadas pelo Brasil, a procura por testes até 23 de dezembro aumentou 380% em apenas uma semana, devido à preocupação com a transmissão da covid nas festas de fim de ano e à epidemia de gripe causada pelo vírus influenza. Na terça-feira (28), muitas redes só tinham horário disponível para os exames em São Paulo a partir de 2 de janeiro.

    Em setembro, o Ministério da Saúde chegou a lançar um programa para ampliar a testagem da população, prevendo distribuir aos estados cerca de 60 milhões de testes até o final de 2021, número muito abaixo do que o previsto pelos Estados Unidos. O Brasil nunca conseguiu implementar uma ampla política do tipo, testa menos que seus vizinhos da América do Sul, e não disponibiliza exames para serem feitos em casa, como ocorre em países como Portugal e Reino Unido.

    A seguir, o Nexo mostra como a estratégia de testagem é uma aposta em muitos países para tentar quebrar a cadeia de transmissão do vírus, alinhada à expansão da cobertura vacinal e à exigência de apresentação do comprovante de imunização.

    Por que os testes importam

    Definir uma estratégia nacional de testagem é uma recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para todos os países que buscam controlar a pandemia de covid-19. Os exames são essenciais para identificar os doentes e isolá-los. As pessoas que tiverem contato com os infectados devem ser identificadas, por meio da estratégia de rastreamento de contatos, e ficar em quarentena. Com isso, a cadeia de transmissão é interrompida, reduzindo casos, internações e mortes.

    No Brasil, o governo federal gastou cerca de R$ 1,7 bilhão desde o início da pandemia para adquirir 57,7 milhões de testes, dos quais 47,6% foram do tipo PCR. Apesar de ser considerado o padrão-ouro, por ser mais preciso, esse exame (feito a partir da coleta de secreção nasal e oral com uma espécie de cotonete) leva mais tempo para dar o diagnóstico, devido à necessidade de processamento em laboratório.

    A estratégia recebeu críticas devido aos problemas de logística num país de proporções continentais como o Brasil. Em junho de 2021, a infectologista Luana Araújo, indicada para comandar uma secretaria de combate à covid-19 no Ministério da Saúde, mas barrada antes de assumir o cargo por se opor ao uso de remédios ineficazes no tratamento à doença, disse à CPI da Covid no Senado que o país não conseguiu executar um plano de testagem pelo tempo que levava da realização do exame até o recebimento do resultado.

    “Na hora em que o paciente recebe de volta esse resultado, a gente já perdeu a oportunidade de interrupção da cadeia de transmissão da doença, que é o que a gente precisa”, afirmou. Desde o final de 2020, porém, começaram a ser disponibilizados os testes rápidos de antígeno, também feitos por meio de um swab (cotonete) nasal. Embora menos sensível que o PCR, ele mostra o resultado apenas 15 minutos depois.

    Em junho de 2021, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já falava de uma grande campanha de testagem no Brasil. “No momento, nós temos testes chamados testes rápidos de antígeno, e esse teste rápido de antígeno permite não só a identificação dos pacientes que são contaminados, mas também o adequado tratamento, como, por exemplo, o isolamento desses pacientes, bem como o dos seus contactantes”, afirmou à época também em depoimento à CPI da Covid.

    O programa só foi lançado em setembro. Dados do ministério mostram, porém, que o governo chegou a distribuir, no máximo, cerca de 5,8 milhões de testes por mês aos estados, nos meses de outubro e novembro — o Brasil tem mais de 210 milhões de habitantes. Além dos exames distribuídos pelo governo, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde), os brasileiros têm como opção, em caso de suspeita de covid-19, a possibilidade de fazer testes em hospitais privados, pagos por planos de saúde, ou em farmácias, por cerca de R$ 100.

    12,2 milhões

    de testes, de vários tipos, foram feitos em farmácias de abril de 2020 a dezembro de 2021, segundo a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias)

    Mesmo assim, o Brasil é um dos países que menos testa proporcionalmente a sua população. Segundo dados do Our World in Data, até meados de dezembro, a taxa era de 0,03 testes para cada mil habitantes. Vizinhos como Uruguai e Chile têm taxas de 2,52 e 2,79 pela mesma proporção da população, respectivamente.

    Nos Estados Unidos, o índice é de 4,46. Já no Reino Unido, um dos líderes em testagem, a taxa é de 22,33. Os britânicos podem solicitar ao governo, pela internet, o envio de um pacote com sete exames rápidos de antígeno para realizar em casa — a retirada presencial em farmácias dá direito a dois pacotes, com 14 testes. A estratégia de autotestagem é realizada no país desde 2020.

    As dificuldades de fim de ano

    No Brasil, onde ainda não se discute a distribuição ou venda de testes que poderiam ser feitos em casa, houve uma corrida às farmácias às vésperas do Natal. A procura pelos exames aumentou porque, além da pandemia de covid-19 no país, que já registra a transmissão comunitária da variante ômicron, há simultaneamente uma epidemia de gripe causada por uma cepa do H3N2 (subtipo do vírus influenza A) identificada originalmente na cidade de Darwin, no norte da Austrália.

    A vacina contra a gripe aplicada no Brasil em 2021, embora traga em sua composição o subtipo H3N2, não protege especificamente contra a mutação em circulação no país. Essas vacinas só devem estar disponíveis no país em março de 2022, o que agravou a situação.

    Na cidade de São Paulo, os casos de gripe dispararam desde o início de dezembro. Um levantamento da GloboNews com base nos números da Secretaria Municipal da Saúde mostraram que mais de 20% das internações por síndromes respiratórias de 12 a 18 de dezembro eram causadas pelo vírus Influenza, enquanto apenas 4% se deviam à covid.

    A distinção entre as duas doenças, que apresentam alguns sintomas comuns, tem sido feita com a realização de testes de covid, que são mais acessíveis. Apenas no Distrito Federal, por exemplo, a procura por testes nas farmácias aumentou 60% na semana do Natal, segundo o Sindicato das Farmácias. Em São Paulo, a alta foi de 106% entre 6 e 12 de dezembro, em comparação com a semana anterior.

    Em entrevista à rádio CBN, na sexta-feira (24), a diretora farmacêutica da rede Clinicarx, Fernanda Alcântara, afirmou que o aumento da procura se deveu também à preocupação com a transmissão durante as festas. “As festas e confraternizações de fim de ano parecem ter levado mais pessoas às farmácias, em busca de realizar o teste, para que as comemorações aconteçam de uma forma mais segura”, afirmou.

    A escassez de testes no Natal, devido ao aumento da procura, não é exclusividade do Brasil, e também ocorreu em países como Estados Unidos, Portugal (onde a população tem acesso a quatro testes mensais gratuitos) e Espanha.

    Como os testes devem ser usados

    Para pessoas que tiveram contatos com infectados, apresentam sintomas gripais ou vão encontrar familiares considerados vulneráveis, os testes feitos em casas são um instrumento importante que pode evitar a transmissão — sua distribuição poderia ainda reduzir a sobrecarga nas farmácias, por exemplo.

    Existe, porém, o momento correto de realizar o exame. Em entrevista ao Nexo, em junho, o médico Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, que preside a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, lembrou que o teste de antígeno funciona bem para identificar quem está com o quadro bem agudo da doença. “Se o teste der positivo, é positivo mesmo. O paciente está com a doença e está transmitindo bastante o vírus”, disse.

    Em artigo publicado no jornal americano The New York Times, em 23 de dezembro, o professor da Universidade de Birmingham Alan McNally, que ajudou a liderar um dos primeiros centros de testagem do governo no Reino Unido, lembra que um resultado negativo não significa um aval para a pessoa sair de casa como se tivesse 100% de certeza de estar livre do vírus. “Os testes nem sempre detectam os primeiros estágios da infecção, antes da pessoa desenvolver os sintomas, ou os estágios posteriores, quando os sintomas passaram”, escreve.

    Segundo ele, um resultado negativo significa que a pessoa não tem níveis de vírus no organismo que a faça transmitir a doença no exato momento em que o teste é feito, mas essa situação pode mudar em questão de horas. “Você pode não estar infeccioso naquele momento, mas ainda está infectado e pode ficar contagioso depois. Isso significa que você ainda deve manter a cautela sobre prevenir a transmissão do coronavírus. Se quiser aumentar os benefícios dos testes rápidos, faça ele imediatamente antes de sair [de casa], não um dia antes”, afirmou.

    A validade da estratégia

    Muitos países têm apostado apenas nas vacinas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, mas o surgimento de novas variantes mais transmissíveis, como a ômicron, que pode escapar da proteção garantida pela imunização, e a estagnação de campanhas, emperradas em muitos países devido à hesitação de parte para população em se imunizar, tem levado alguns governos a incluir a testagem em massa na estratégia.

    No final de dezembro, a ômicron já era responsável pela maioria dos novos casos de covid-19 nos Estados Unidos. Às vésperas do Natal, o presidente Joe Biden anunciou uma política agressiva de testagem, com a distribuição gratuita dos itens a partir de janeiro de 2022.

    Em entrevista ao jornal The New York Times, a epidemiologista Jennifer Nuzzo, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, afirmou que a testagem em massa terá um impacto para conter a pandemia se todos os 500 milhões de testes forem distribuídos entre janeiro e fevereiro, para cortar a cadeia de transmissão de maneira significativa por meio de uma estratégia em larga escala. Caso essa quantidade seja entregue aos poucos, em pequenas levas ao longo de um ano, não seria tão efetiva.

    Não há certeza de que as indústrias consigam produzir tantos testes em tão pouco tempo. A estratégia da testagem, porém, continua sendo defendida por especialistas, aliada a outras medidas de prevenção.

    Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em meados de dezembro, a chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard, Marcia Castro, afirmou ser inconcebível que a testagem em larga escala não seja adotada para controlar a pandemia, combinada com a expansão da cobertura vacinal e a adoção do passaporte da vacina, “especialmente com a proximidade do verão e das festas de fim ano”, afirmou.

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