O que se sabe sobre a ômicron um mês após sua descoberta 

Estudos sobre nova variante do coronavírus ainda são preliminares. Disseminação da cepa já levou países da Europa a retomar restrições e motivou autoridades do Brasil a exigir passaporte vacinal

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    Completa-se neste domingo (26) um mês desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou a ômicron como uma “variante de preocupação”. A cepa mais recente do novo coronavírus havia sido descoberta dias antes por cientistas da África do Sul.

    Espalhada por quase 90 países, a ômicron desafia as autoridades médicas. Neste texto, o Nexo explica o que se sabe sobre a variante, com base em estudos preliminares sobre os casos identificados até agora. Cientistas ressaltam que o conhecimento sobre a variante ainda está sendo construído.

    O que há na variante ômicron

    A ômicron é uma variante do novo coronavírus considerada preocupante pela grande quantidade de mutações, que poderia torná-la muito diferente das variantes conhecidas. São 50 — 32 delas na proteína Spike, usada pelo vírus para entrar nas células humanas.

    A ômicron é a quinta variante do coronavírus a ser classificada como preocupante pela OMS. Além dela, também são cepas de preocupação a alfa, a beta, a gama e a delta — esta até então responsável pela maioria dos novos casos de covid-19.

    É comum que vírus como o que causa a covid-19 tenham variantes. Quando encontra um hospedeiro, o coronavírus faz “cópias” de si mesmo, e nesse processo é possível que surjam versões com mutações. Quando uma mutação consegue se replicar em nível significativo, ela se torna uma variante.

    Embora seja considerada preocupante, a grande quantidade de mutações da ômicron não necessariamente indica que a cepa é mais grave que as anteriores. Cientistas ainda tentam entender as características da ômicron e suas consequências para a saúde pública.

    Depois de a África do Sul ter descoberto os primeiros casos da variante em 24 de novembro, cientistas na Holanda anunciaram que a ômicron já estava no país antes disso. A notícia levantou dúvidas sobre a origem da cepa. Ainda não há conclusão sobre onde e como ela se originou.

    O que se sabe sobre a transmissão

    Estudo preliminar divulgado na sexta-feira (17) pela Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong mostrou que, em comparação com a delta, a ômicron se multiplica 70 vezes mais rapidamente nos brônquios humanos (estruturas que ligam traqueia e pulmões).

    A pesquisa, ainda não analisada por pares e não publicada em revista científica, pode explicar por que a ômicron é provavelmente mais transmissível, como indicam evidências preliminares citadas pela OMS com base em dados da África do Sul e de outros países.

    Na África do Sul, a ômicron já respondia no fim de novembro por 88% dos novos casos de covid-19. Nos EUA, esse valor chegou a 73% na segunda-feira (20). Na quarta (22), o Reino Unido, também atingido pela variante, ultrapassou 100 mil novos casos de covid-19 pela primeira vez desde o início da pandemia.

    19 dias

    foi o tempo até que a ômicron se tornasse a variante dominante nos EUA

    Segundo a OMS, as primeiras evidências mostram que a ômicron é “muito transmissível”. Apesar disso, a agência diz que ainda é cedo para dizer se a variante é mais transmissível que a delta, que ainda é considerada dominante na maior parte dos países.

    Na quarta-feira (22), estudo do Imperial College London, no Reino Unido, mostrou que a ômicron também pode trazer mais risco de reinfecção para quem teve covid-19. O risco é 5,4 vezes maior do que o medido para outras cepas, como a delta. O estudo também é preliminar e não foi revisado por pares. Só depois disso, será possível dizer de forma mais categórica que o risco de reinfecção é maior.

    O que se sabe sobre a gravidade

    Apesar de indicar que a ômicron é mais transmissível, o estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong aponta que a ômicron é menos severa do que outras variantes, porque perde a capacidade de replicação quando chega aos pulmões.

    Estudo preliminar mais recente no Reino Unido sugere o mesmo. Na quarta-feira (22), cientistas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, apontaram que menos pessoas com a ômicron estão precisando de hospitalização na comparação com outras variantes. A pesquisa ainda não foi revisada por pares.

    66%

    foi quanto reduziu, em média, o número de pessoas que precisaram de cuidados hospitalares na Escócia com a ômicron em comparação com a delta, segundo o estudo

    Outro estudo preliminar divulgado na terça-feira (21) na África do Sul mostrou que pacientes com ômicron tiveram de 70% a 80% menos chances de precisar de cuidados hospitalares. Entre as pessoas hospitalizadas, porém, o desenrolar da doença foi o mesmo que de pessoas infectadas com outras variantes.

    Para os pesquisadores, mesmo com a severidade reduzida, o risco da ômicron ainda é significativo. Com o rápido espalhamento da variante, existe o risco de que muitas infecções ocorram ao mesmo tempo — o que, mesmo no caso de uma cepa mais branda, pode sobrecarregar os sistemas de saúde.

    No dia 13 de dezembro, o Reino Unido registrou a primeira morte conhecida pela variante ômicron. Na segunda-feira (20), o número havia subido para 12. Na terça (21), os EUA confirmaram a primeira morte pela variante em um homem de 50 anos que não havia se vacinado.

    O que se sabe sobre a vacinação

    Com o surgimento da ômicron, parte das farmacêuticas que criaram as principais vacinas usadas contra a covid-19, como a Pfizer, a AstraZeneca e a Moderna, têm investigado se a nova variante, que tem grande número de mutações, escapa da proteção conferida pelos imunizantes.

    A Pfizer afirmou no dia 8 de dezembro que uma série de três doses de sua vacina contra a covid-19 foi capaz de neutralizar a ômicron em testes de laboratório. Segundo a farmacêutica, duas doses resultaram em anticorpos significativamente mais baixos.

    Esse resultado corrobora o de um estudo preliminar divulgado por um laboratório na África do Sul na segunda semana de dezembro. A pesquisa indica que duas doses da Pfizer continuam induzindo proteção contra casos graves, mas três são capazes de neutralizar a variante.

    Na segunda-feira (20), a Moderna afirmou que sua terceira dose induziu um alto índice de proteção contra a ômicron — mais significativo que apenas a segunda. Nesta quinta (23), um estudo da Universidade de Oxford com a vacina da AstraZeneca indicou o mesmo.

    Segundo pesquisadores de Hong Kong, a terceira dose da Coronavac, uma das vacinas mais usadas no Brasil, não produziu níveis adequados de anticorpos contra a variante em testes preliminares. O grupo indica a terceira dose da Pfizer para maior eficácia.

    Apesar dos resultados, os estudos não sugerem que as vacinas perderam totalmente a efetividade contra a covid-19. A proteção do regime de duas doses para a maioria das vacinas diminui, mas não se anula. Farmacêuticas como a Pfizer também dizem estar testando uma nova vacina contra a ômicron.

    Em novembro, em entrevista à agência Reuters, o imunologista Anthony Fauci, responsável pelo combate à pandemia nos EUA, chegou a dizer o conceito de “totalmente vacinado” contra a covid-19 pode mudar e passar a considerar a terceira dose.

    A OMS questiona a estratégia do regime de três doses. No dia 8 de dezembro, a entidade declarou que ainda era cedo para afirmar se a dose de reforço é suficiente para neutralizar a ômicron e disse que aplicá-la poderia ampliar a desigualdade vacinal no mundo.

    Quais as medidas para conter a ômicron

    Apesar de ainda pouco se saber sobre a ômicron, as medidas de prevenção contra a infecção pelo coronavírus continuam as mesmas: vacinação, uso de máscaras, distanciamento físico e preferência por ambientes ventilados, entre outras.

    Com o surgimento da variante, países que haviam flexibilizado as medidas de restrição, como parte da Europa, voltaram a decretá-las neste mês. Enquanto, no Reino Unido, festas foram canceladas, a Holanda decretou lockdown e os EUA preparam uma ampla ação de testagem contra a variante.

    Diversos países também criaram restrições para viajantes do exterior, especialmente de países da África — medida que foi criticada pela OMS, por ter pouco impacto sobre a disseminação da variante e por, na prática, penalizar a África do Sul por ter descoberto a ômicron.

    “Com a variante ômicron já detectada em várias regiões do mundo, colocar o foco das restrições na África ataca a solidariedade global”

    Matshidiso Moeti

    diretora do escritório da OMS na África, em declaração em 28 de novembro

    Depois de uma série de episódios de resistência do governo federal, o Brasil passou a exigir o passaporte vacinal para a entrada de qualquer pessoa do exterior que chegue ao país. A medida atendeu a uma ordem do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal.

    Na quarta-feira (22), o país tinha 32 casos registrados da ômicron, segundo o Ministério da Saúde. Vinte dessas infecções estão no estado de São Paulo. Havia ainda 23 casos em investigação, a maioria no Rio Grande do Sul. Nenhuma morte havia sido registrada até o momento.

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