A terceira dose da vacina como aposta contra a ômicron

Pesquisas mostram que reforço tem melhorado resposta à covid-19, mas Organização Mundial da Saúde teme que mudança no regime de doses agrave desigualdade na distribuição de imunizantes

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A discussão sobre a adoção de uma terceira dose da vacina contra a covid-19 como estratégia de política pública voltou a ganhar força entre cientistas e autoridades de saúde depois do aparecimento, no final de novembro, da ômicron, uma variante do novo coronavírus mais transmissível e com potencial de escapar da proteção garantida pelas vacinas ou pelo contágio natural pela doença.

Estudos sobre os efeitos da dose de reforço e a experiência de alguns países, como Israel, vêm mostrando que há aumento na proteção e redução das chances de infecção e desenvolvimento de quadros graves da doença. Mesmo assim, a OMS (Organização Mundial da Saúde) ainda questiona a estratégia. Na quarta-feira (8), a entidade declarou ainda não ser possível afirmar que três doses da vacina são suficientes para neutralizar a ômicron, embora a Pfizer tenha divulgado um estudo mostrando ser possível controlar o vírus com o reforço vacinal.

Neste texto, o Nexo mostra qual vem sendo o impacto da terceira dose nos países que conseguiram avançar com a estratégia e por que a adoção do reforço no esquema vacinal ainda é questionada.

A proteção da terceira dose

O exemplo de Israel tem servido aos pesquisadores para defender o uso da terceira dose. O país foi um dos primeiros no mundo a aprovar uma dose de reforço em pessoas que haviam completado o esquema vacinal com duas doses ainda em julho de 2021, quando começou a observar um novo aumento de casos por causa do surgimento da variante delta e da queda na proteção das vacinas. Os piores picos da doença durante toda a pandemia foram registrados em Israel em setembro. Em meados daquele mês, o número de infectados voltou a cair significativamente.

Na quarta-feira (8), um estudo publicado por pesquisadores israelenses no The New England Journal of Medicine analisou os dados de 758.118 pessoas com 50 anos ou mais, das quais metade recebeu uma dose de reforço e a outra metade não. Todos haviam tomado duas doses da vacina cinco meses antes da pesquisa.

Entre as pessoas que receberam uma terceira dose, houve 65 mortes por covid-19. Já no grupo dos não vacinados com o reforço, o número de óbitos foi de 137. “Participantes que receberam um reforço pelo menos cinco meses depois da segunda dose da Pfizer tiveram uma queda de 90% na mortalidade por covid-19 em comparação com os participantes que não receberam o reforço”, concluíram os pesquisadores.

O resultado confirmou os achados de outro estudo, publicado na revista científica The Lancet, no final de outubro. Pesquisadores analisaram as informações de mais de 1 milhão de pacientes em Israel, e compararam dois grupos de cerca de 728 mil pessoas, um vacinado com o reforço; o outro não. O resultado foi que a terceira dose apresentou uma efetividade de 93% para prevenir internações, 92% para casos graves da doença e 81% para mortes relacionadas à covid-19.

Até o início de dezembro, Israel era um dos países com a maior taxa de aplicação da vacina adicional, com 45% da população imunizada, o que lhe garantia uma taxa de novos infectados relativamente baixa se comparada a outros países. Na Dinamarca e na Bélgica, que tinham 77% e 76%, respectivamente, da população com o esquema vacinal completo com duas doses, o número de casos havia explodido no começo de dezembro. Nesses países, apenas 18% e 21%, respectivamente, haviam se vacinado com a dose de reforço.

No Brasil, a aplicação da terceira dose para todos os adultos após cinco meses da segunda é indicada pelo Ministério da Saúde desde novembro. Até a quinta-feira (9), apenas 9% da população havia recebido o reforço. Ao todo, 77,1% tinham tomado ao menos uma dose, e 64,8%, as duas, segundo o consórcio de veículos de imprensa.

O país, entretanto, convive com desigualdades regionais, e apenas nove capitais tinham superado 70% dos habitantes com esquema vacinal completo com duas doses, segundo um levantamento do jornal Folha de S.Paulo publicado na quinta-feira (9). Em cidades como Macapá, menos de um terço da população recebeu as duas doses.

O reforço contra a ômicron

Os dados sobre a nova variante descoberta no final de novembro na África do Sul ainda são escassos, mas duas semanas depois, a mutação apresenta uma taxa de transmissão no país africano muito superior à da delta. Estima-se que uma pessoa infectada com a ômicron possa contaminar mais de três outras pessoas, enquanto com a delta um doente tem chances de infectar menos de uma pessoa (a taxa é de 0,8).

Acredita-se que a nova cepa é menos severa do que as anteriores, o que tem sido visto como positivo, embora as informações sobre isso ainda sejam muito preliminares. O epidemiologista Karl Lauterbach, escolhido para liderar o combate à covid-19 na Alemanha, chegou a dizer no começo de dezembro que a mutação seria um “presente de Natal”. A evolução do vírus para um estágio em que se tornou muito infecciosa, mas pouco letal, indicaria que a pandemia caminha para o fim, segundo ele.

Na terça-feira (7), o chefe de pesquisa de um laboratório do Africa Health Research Institute, na África do Sul, afirmou à agência de notícias Bloomberg News que a ômicron poderia escapar parcialmente da proteção fornecida pela vacina da Pfizer. No dia seguinte, o laboratório divulgou o resultado preliminar de um estudo dizendo que duas doses continuam induzindo proteção contra casos graves e que três doses são capazes de neutralizar a variante, por aumentarem em 25 vezes a concentração de anticorpos neutralizantes no organismo.

Segundo a Pfizer, uma vacina específica para combater a ômicron está sendo desenvolvida e deve estar disponível em março de 2022. O fundador da BioNTech, Ugur Sahin, que desenvolveu a vacina contra a covid-19 em parceria com a Pfizer, chegou a dizer que os dados deixam claro que, para combater a nova mutação, o regime de doses do imunizante deveria ser de três doses.

Em novembro, numa entrevista à agência de notícias Reuters, o imunologista Anthony Fauci, responsável pelo combate à pandemia nos Estados Unidos, chegou a dizer que o conceito de “totalmente vacinado” contra a covid-19 podia mudar e passar a considerar a aplicação de três doses.

A desigualdade na distribuição

No final de novembro, os professores americanos Eric Topol e Michael Osterholm publicaram um artigo no jornal The Washington Post em que destacam que o regime com três doses sempre esteve nos planos das autoridades de saúde, mas a dúvida era quando aplicar a terceira delas. “Originalmente, a expectativa era que isso poderia acontecer depois de um ou dois anos, mas mudou, e é necessária com cerca de seis meses”, escreveram.

Segundo eles, mais de dez grandes estudos já demonstraram que a proteção à infecção e à manifestação de casos sintomáticos da doença, em todas as idades, cai de 90% a 95% após dois meses da segunda dose para 60% (no caso da Pfizer) e 70% (no caso da Moderna) entre cinco e seis meses. “A boa notícia é que uma dose de reforço pode restaurar a eficácia inicial, como os dados deixam completamente claro”, afirmam os professores.

Apesar disso, quando os primeiros países começaram a aplicar as doses de reforço, em meados de 2021, a OMS criticou a iniciativa, dizendo que era como distribuir coletes salva-vidas para quem já estava usando o item de proteção, enquanto outras pessoas afundavam sem nenhum auxílio.

A preocupação da entidade diz respeito à desigualdade na distribuição de vacinas. Dados da organização do início de dezembro mostravam que cerca de 89% dos imunizantes disponíveis no mundo estavam concentrados nas 20 nações mais ricas, enquanto apenas 6,2% da população dos países pobres recebeu ao menos uma dose. A adoção de um regime padrão de três doses poderia agravar esse quadro.

Em setembro, peritos da OMS e da FDA (agência de medicamentos dos Estados Unidos) divulgaram um parecer dizendo que a aplicação do reforço em toda a população não era necessária e que o esquema com duas doses era suficientemente eficaz contra as formas graves da covid-19, inclusive se a doença fosse causada pela variante delta.

“Essas vacinas, que são limitadas, salvarão mais vidas se forem fornecidas às pessoas que têm um risco maior de desenvolverem uma forma grave [de covid] e que ainda não foram imunizadas”, afirmaram em artigo publicado na Lancet. Para eles, a queda de anticorpos não significa perda de eficácia contra formas graves da doença, porque também existe uma imunidade celular que garante proteção, e ela é mais difícil de ser medida. O reforço, defendem, deveria ocorrer apenas com vacinas desenvolvidas contra as novas variantes.

No final de novembro, ao abordar também a questão da vacinação de crianças e adultos, a OMS voltou a afirmar em nota que, num contexto de extrema desigualdade no acesso às vacinas, a prioridade de países com altas coberturas vacinais dos grupos de risco deveria ser a distribuição de vacinas por meio de mecanismos como o consórcio Covax Facility antes de vacinar crianças, adolescentes que apresentam baixo risco ou de aplicar uma dose de reforço, o que não vem ocorrendo nos países mais ricos.

Mesmo com o surgimento da ômicron, o órgão mantém cautela sobre o reforço. Na quarta-feira (8), apesar da declaração da Pfizer de que a nova cepa seria neutralizada com três doses, a entidade afirmou que não é possível ter certeza de que o esquema com reforço produza esse efeito. Segundo a OMS, ainda é necessário produzir melhores evidências sobre a eficácia das três doses contra a mutação.

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