Como a reação à variante ômicron impacta a África do Sul

Nova cepa do coronavírus leva ao cancelamento de voos do país e golpeia o turismo, setor da economia que sonhava com a recuperação após o choque inicial da pandemia

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    O anúncio na quinta-feira (25) da descoberta de variante do coronavírus batizada de ômicron desatou uma onda de alarde mundial, com suspensão de voos e outras medidas que, com a intenção de barrar o vírus, resultaram no isolamento da África do Sul e de países vizinhos, na região da África Austral.

    O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, disse que seu país está sendo injustamente castigado por essa reação e pelo estigma que ela provoca, quando deveria, na verdade, ser alvo de uma campanha de solidariedade para a distribuição de vacinas.

    Neste texto, o Nexo mostra como as medidas de isolamento castigam uma África do Sul que ainda patina na vacinação e foi impactada pelos efeitos internacionais da ômicron, justamente quando vinha tentando reerguer a própria economia após o choque inicial da pandemia.

    A suspensão de voos

    A primeira reação tomada por diversos países, em face da descoberta da ômicron, foi a suspensão dos voos que tinham origem na África do Sul e em países vizinhos. Essa medida traz impactos econômicos imediatos para o país que é um dos grandes pontos de conexão do continente africano com as demais regiões do mundo.

    A decisão de cortar a conexão de transportes com a África Austral foi puxada por um grupo de países formado, entre outros, por EUA, Reino Unido, Alemanha, Itália, França, República Tcheca, Israel, Cingapura e Japão. Em seguida, a União Europeia, como um bloco, resolveu também aderir à medida.

    No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendou a restrição dos voos na sexta-feira (26). No dia seguinte, o governo federal publicou portaria proibindo voos com origem na África do Sul, Botsuana, Eswatini (ex-Suazilândia), Lesoto, Namíbia e Zimbábue, a partir desta segunda-feira (29).

    Na sexta-feira (26), a reação da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a nova variante era ainda cautelosa, pois pouco se sabia sobre as características da ômicron. Na segunda-feira (29), a organização mudou o tom e passou a dizer claramente que a nova variante traz “risco muito elevado”.

    O risco diz respeito ao potencial de maior capacidade de disseminação da nova variante. Porém, questões como a efetividade das vacinas já existentes ainda permanecem nebulosas. Cientistas dizem que serão necessárias semanas até entender toda a complexidade da nova variante e como ela reage aos imunizantes existentes.

    A reação sul-africana

    O presidente sul-africano reagiu neste domingo (28) por meio de um pronunciamento, no qual afirmou que “o veto às viagens não é guiado pela ciência e nem será eficaz em prevenir a disseminação dessa variante”.

    A fala de Ramaphosa ecoa pronunciamento semelhante que havia sido feito dois dias antes, na sexta-feira (26), pelo porta-voz da OMS (Organização Mundial da Saúde), Christian Lindmeier.

    Tanto autoridades políticas quanto cientistas sul-africanos destacam dois fatores especialmente cruéis: o primeiro é que o país estaria sendo penalizado por não conseguir avançar na vacinação, quando, na verdade, isso seria efeito da distribuição injusta das doses no mundo. Essa visão é expressa principalmente por Túlio de Oliveira, diretor do Ceri (Centro de Resposta a Pandemias e Inovação) da África do Sul, que é uma das autoridades máximas da questão no país.

    O gráfico abaixo ilustra a disparidade mencionada por Oliveira. Os percentuais mostrados nas barras trazem uma fotografia dos dados no dia em que a ômicron foi batizada pela OMS, de acordo com o site Our World in Data, da Universidade de Oxford.

    Desigualdade

    Gráfico ilustra a baixa vacinação na África, na comparação com outros países. Só 7% receberam duas doses no continente africano

    “O mundo deveria dar apoio à África do Sul e à África como um todo, em vez de discriminar ou isolar o continente! Ao proteger e apoiar a África do Sul, protegerão o mundo! Faço um apelo aos bilionários e às instituições financeiras”

    Túlio de Oliveira

    diretor do Ceri (Centro de Resposta a Pandemias e Inovação) da África do Sul, em mensagem postada em suas redes sociais, no dia 25 de novembro de 2021

    A agência de notícias Reuters diz que o programa de imunização na África do Sul teve ritmo reduzido no início de 2021, por falta de suprimento. Mas, no decorrer do ano, o governo sul-africano fez um apelo por doses, e foi atendido. As remessas, feitas pela Pfizer e pela Johnson & Johnson, teriam sido tantas que o país teve dificuldade de estocar, entregar e aplicar as doses na sequência.

    Além da questão da imunização, outro fator citado como injusto pelos sul-africanos é o fato de o país ter descoberto essa variante justamente porque vinha realizando um trabalho criterioso de sequenciamento do genoma do vírus. Ou seja: foi o empenho e o avanço nas pesquisas científicas que, ironicamente, terminaram por castigar o país.

    O mais provável é que o vírus tenha surgido em Botsuana, – onde só 20% tomaram duas doses ou dose única – mas só foi detectado na África do Sul. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, se solidarizou com os sul-africanos e fez um mea culpa: “Nosso sistema atual desincentiva países a alertarem outros sobre ameaças que inevitavelmente vão atingi-los.”

    O impacto econômico

    Até esta segunda-feira (29), a ômicron havia sido detectada não apenas na África do Sul e em Botsuana, mas também em Austrália, Áustria, Bélgica, Reino Unido, Canadá, República Tcheca, Dinamarca, Alemanha, Israel, Itália, Países Baixos, Portugal e Hong Kong.

    As restrições, no entanto, são impostas apenas aos países africanos. As rotas que ligam os demais países – europeus, em sua maioria – seguem intactas. A diferença é que os países africanos têm casos decorrentes de transmissão local, enquanto os demais países têm casos importados de viajantes que estiveram recentemente no epicentro da ômicron.

    Diante do fechamento, o jornal americano The New York Times referiu-se a uma “reação visceral” dos empresários sul-africanos, que se sentem “ultrajados” por uma penalização que deve trazer impactos negativos sobretudo nos setores aeroviário e de turismo.

    7%

    é o percentual do PIB sul-africano movimentado pelo turismo internacional

    A própria implementação das medidas restritivas foi caótica. Em Amsterdã, mais de 600 passageiros de um voo proveniente da África do Sul foram confinados por 30 horas em salas sem ventilação, antes de passarem por triagem sanitária.

    O país é um grande exportador de minérios, mas o turismo também é importante na economia sul-africana, e dezembro é um dos períodos de maior movimento internacional no país. “Isso é devastador. Muitas empresas estavam penduradas pela pontinha dos dedos, tentando não cair, e isso agora vai acabar com elas de vez”, disse ao New York Times David Frost, diretor da associação local de agências de turismo, ao referir-se às restrições de viagem impostas por causa da nova variante.

    A África do Sul estava tentando se recuperar do que a agência de notícias econômicas Bloomberg chama de “a mais profunda contração de sua economia dos últimos 30 anos”. Essa retração está ligada à pandemia, e às medidas de contenção a ela, como as quarentenas, com fechamento do comércio. O anúncio sobre a variante acerta o país em cheio, justamente quando os empresários projetavam uma chance de recuperação.

    Britânicos, alemães e americanos, além de franceses e holandeses, lideram, nesta ordem, a lista de turistas internacionais que mais visitam a África do Sul, nos dados de 2019 e 2020. Esses países estão entre os que, agora, impuseram restrições à conexão aérea. O índice de desemprego na África do Sul é de 34%, e o turismo internacional responde pela geração de 1,5 milhão de postos de trabalho.

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