Os carnavais cancelados e a incerteza sobre a pandemia

Em poucos meses, gestores públicos foram de promessa de realizar maior festa da história à suspensão de eventos, o que aumenta confusão sobre situação da covid-19 no país

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    Com a melhora progressiva da situação epidemiológica no Brasil desde meados de 2021, alguns prefeitos anunciaram com meses de antecedência a realização do carnaval de 2022, previsto para ocorrer entre fevereiro e março.

    São Paulo chegou a falar da maior festa de rua de sua história. No Rio de Janeiro, o evento foi confirmado com declarações de autoridades de que a população não poderia se tornar “viúva da pandemia”.

    No final de novembro, porém, apesar de um cenário ainda favorável, dezenas de cidades brasileiras decidiram cancelar o carnaval, frustrando expectativas e reforçando as incertezas sobre a pandemia.

    Desde o início, especialistas apontam para o fato de que mensagens contraditórias vêm causando confusão na população. Discursos que sugerem não haver motivos para tanta preocupação com o vírus muitas vezes se misturam a anúncios de medidas mais drásticas para barrar sua transmissão.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) considera que declarações contraditórias produzem ansiedade, estresse e medo. Algumas entidades chegam a orientar a redução de tempo de exposição à cobertura midiática da covid-19 como forma de se proteger.

    Neste texto, o Nexo mostra como a realização do carnaval vem sendo tratada pelas autoridades, o que dizem os especialistas sobre os eventos e qual o impacto da incerteza gerada na população.

    Os anúncios precoces

    Ainda em julho de 2021, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou à imprensa que o carnaval do próximo ano na capital paulista deveria ser o “maior de sua história”. Meses depois, em outubro, disse que a festa não teria qualquer restrição se a situação sanitária continuasse a mesma. Ele justificou o planejamento antecipado do evento à necessidade de preparação prévia. “Não dá pra esperar até fevereiro para eles [organizadores] começarem a fazer toda a preparação”, afirmou.

    Entre 19 de outubro e 5 de novembro, a prefeitura abriu inscrições para os blocos de carnaval. Ao todo, foram 867 inscrições de desfiles de rua, o maior número já registrado. Os preparativos da capital, porém, contrastam com as demais cidades do estado.

    15 milhões

    foi a estimativa de público para o carnaval de rua de São Paulo em 2022 dada pela prefeitura em outubro de 2021

    No final de novembro, ao menos 58 prefeituras paulistas, como São Luiz do Paraitinga, Franca e Ubatuba, já haviam decidido cancelar a festa com medo de uma nova onda de covid-19. Os municípios alegaram dificuldade para controlar as aglomerações e fazer cumprir os protocolos sanitários, além da necessidade de respeitar as famílias em luto devido às perdas na pandemia.

    Depois do anúncio feito por diversas cidades, a prefeitura de São Paulo afirmou realizar estudos epidemiológicos para decidir como serão realizadas as festas de fim de ano e o carnaval. “Para o carnaval a gente deve fazer uma avaliação epidemiológica um pouco mais à frente, em janeiro”, afirmou à imprensa, na quinta-feira (25), o secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido.

    O prefeito Ricardo Nunes (MDB) mudou um pouco o tom do discurso dizendo que “não se trabalha na pandemia com futurologia” e ressaltou que o carnaval gera recursos para a cidade. “O nosso carnaval de rua vai ter o patrocínio de uma empresa, de R$ 23 milhões, bancado 100% pela iniciativa privada (...). Não dá para desconsiderar isso. É prematuro falar que não vai ter algo que eventualmente possa ser realizado”, disse.

    O governo do estado de São Paulo vem pregando maior cautela com as festas. Na quinta-feira (24), o coordenador-executivo do Comitê Científico para a Covid-19, Paulo Menezes, afirmou ser “precoce pensar em multidões na rua, mesmo que seja daqui a três meses”. Segundo ele, o carnaval gera uma movimentação muito grande de pessoas, inclusive vindas de outros países.

    No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (PSD) também havia confirmado a programação da festa em 2022 ainda em outubro, dizendo que a ciência permitia a reabertura das atividades e que não havia motivos para a população se tornar “viúva da pandemia”. Para ele, seria “ridículo” tentar impor distanciamento social durante o carnaval de rua.

    Preocupados com os anúncios e decisões da prefeitura, a Defensoria Pública e o Ministério Público do Rio pediram no final de novembro que o comitê científico de enfrentamento à covid-19, que auxilia a cidade na tomada de decisões, reveja as premissas para o relaxamento de medidas de combate à pandemia e os critérios usados para liberar o carnaval. Segundo os órgãos, as decisões da prefeitura estão em “sentido contrário às experiências internacionais e de amplas evidências técnicas e científicas”.

    Em outras capitais, a realização da festa ainda é incerta. A Prefeitura de Belo Horizonte decidiu não patrocinar o evento. Cidades como Salvador, Recife e Olinda ainda estudam o que fazer. Os secretários estaduais de Saúde já se manifestaram dizendo que, entre eles, a opinião unânime é pelo cancelamento do carnaval.

    A discussão entre os cientistas

    Grande parte dos especialistas diz ser uma temeridade organizar festas apesar da redução de casos, mortes e internações pela covid-19, devido ao avanço da vacinação, porque a doença ainda não foi embora. Em outubro, a infectologista Valéria Paes, que é professora da Universidade de Brasília, disse ao jornal Correio Braziliense que num prazo de poucos meses a situação epidemiológica pode “alterar muito”.

    “A gente lembra como foi no final do ano passado, tivemos um fim de ano em que estávamos em redução dos casos e quando foi no carnaval estávamos em uma situação crítica”, lembrou.

    Ela afirmou ainda que nem todas as regiões do país avançam no mesmo ritmo na vacinação e ressaltou que países que flexibilizaram as regras precocemente tiveram aumento na taxa de transmissão. Embora a situação do Brasil seja atualmente mais confortável do que nos meses anteriores, em países da Europa, apesar da disponibilidade das vacinas, o número de casos voltou a explodir e regras de isolamento tiveram de ser retomadas.

    A diretora-geral adjunta de acesso a medicamentos e produtos farmacêuticos da OMS, Mariângela Simão, afirmou na quarta-feira (24), durante um evento, que o mundo está entrando numa quarta onda de covid-19. Ela alertou para os riscos de relaxamento da população em relação aos cuidados devido à vacinação e à queda nas internações e lembrou que o vírus continua evoluindo. “Além disso, há desinformação e mensagens contraditórias, que são responsáveis por matar pessoas”, afirmou.

    Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo publicada na quarta-feira (24), a epidemiologista Glória Teixeira, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, disse que os riscos de transmissão aumentam muito no carnaval devido ao “contato físico e respiratório” de pessoas que seguem, por exemplo, um trio elétrico, com pessoas se beijando e se abraçando.

    “A cobertura vacinal tem crescido, mas não significa que o vacinado está completamente livre. Ele pode estar contaminado, assintomático e transmitir [o vírus]. É um risco enorme que não devemos correr, e não sou eu que penso isso, mas a grande maioria dos colegas acha que não tem cabimento [ter carnaval]”, disse ao jornal.

    Por outro lado, há epidemiologistas que consideram possível realizar a festa com alguns cuidados. Pedro Hallal disse também à Folha que um investimento sério na exigência do comprovante de vacinação e a criação de um aplicativo que monitorasse sintomas poderiam garantir a festa num quadro em que os casos estão quase zerados e em queda, “com 80% ou 90% da população com as duas doses da vacina”.

    No final de novembro, o Brasil tinha 61% da população com duas doses. Na quarta-feira (24), a cidade de São Paulo anunciou ter completado o ciclo vacinal com duas doses em todos os adultos (acima dos 18 anos), o que não significa o fim da pandemia.

    O consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia Renato Grinbaum também defendeu ao jornal a realização do carnaval num contexto favorável com o uso de máscaras, mesmo em espaços abertos.

    As mensagens contraditórias

    Desde o início da pandemia, especialistas alertam para a necessidade de informações concisas sobre os riscos da doença. Ao jornal O Estado de S. Paulo, o infectologista Sandro Cinti, professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, criticou ainda em março de 2020 a propagação de informações contraditórias dizendo que elas estavam deixando a população confusa.

    “Estamos tendo muito pânico porque, por um lado, estamos dizendo às pessoas que elas não devem se preocupar, que a situação não é muito grave. Mas, por outro lado, estamos anunciando medidas mais drásticas, como o isolamento de cidades, o cancelamento de eventos esportivos, o fechamento de escolas”, afirmou. Esse quadro parece não ter mudado tanto.

    Em entrevista ao Nexo, no começo de outubro, o epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), criticou o anúncio antecipado do carnaval no Rio, que ele classificou como “corrida pelo libera geral”, por passar à população a ideia de que a pandemia acabou.

    “Anunciar agora [em outubro] o carnaval já para o ano que vem é precipitado porque a gente não sabe como a doença vai se comportar. Vamos supor que, durante o Ano Novo, a gente tenha algum revés, por conta da movimentação das pessoas. O carnaval vai ter que ser cancelado e, até lá, as pessoas já fizeram programação, já gastaram, a gente já movimentou todo um setor econômico muito grande”, disse.

    A previsão de realização do carnaval de São Paulo, com recorde de público e blocos inscritos, é conflitante com a decisão das cidades do interior e com as notícias da pandemia na Europa, por exemplo, por passar a sensação de volta à normalidade quando o resto do estado — e do mundo — está em alerta, o que gera sensação de confusão e incerteza. Uma pesquisa de agosto de 2020 com 2.000 brasileiros mostrou que a população brasileira se sentia confusa em relação à pandemia devido à falta de clareza e segurança nas mensagens dadas à população.

    No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro tem contribuído para essa situação por atacar medidas de isolamento, o uso de máscaras e as vacinas. No final de 2020, ele chegou a dizer que a pandemia estava chegando ao fim. Em relação ao carnaval, o presidente passou a dizer na quinta-feira (25) ser contra a realização da festa — não pelos riscos da doença, mas para atacar prefeitos e governadores. Apoiadores do presidente passaram a criticar cidades que planejam o evento por elas terem fechado igrejas e comércios anteriormente, por precaução, mas por supostamente não se importarem agora com os riscos das festas.

    Um manual de 2009 da OMS sobre comunicação eficaz durante emergências de saúde pública, lembra que surtos epidêmicos são marcados por incerteza e confusão, e por isso é essencial exigir “perícia” na comunicação dos órgão de saúde pública e autoridade com a imprensa e com a população. Declarações contraditórias, segundo o documento, têm o risco de causar ansiedade, estresse e medo.

    Uma pesquisa publicada em outubro no periódico científico The Lancet mostrou que a pandemia provocou um aumento global de casos de depressão e ansiedade, com altas de 28% e de 26%, respectivamente. Como modo de se proteger, uma cartilha sobre saúde mental na pandemia preparada pela Fiocruz em 2020 orientava que as pessoas reduzissem o tempo que passam “assistindo ou ouvindo coberturas midiáticas”.

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