A desigualdade paulistana durante a pandemia em 5 pontos 

Relatório traz dados de mortes pela covid-19, feminicídios, acesso à internet móvel, oferta de empregos e violência policial no primeiro ano da crise sanitária na maior cidade do Brasil

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Publicado nesta quinta-feira (21) pela Rede Nossa São Paulo, o Mapa da Desigualdade 2021 mostra o retrato das disparidades de acesso a serviços de saúde, educação, comunicação, moradia e segurança da capital paulista no primeiro ano da pandemia de covid-19, em 2020.

    Elaborado desde 2012, o mapa mostra que a cidade não encarou de frente a questão diante da eclosão da grave crise sanitária. Os indicadores apresentados pela Rede Nossa São Paulo são elaborados a partir de fontes de dados públicos e oficiais.

    Neste texto, o Nexo mostra cinco dados sobre a desigualdade paulistana apresentados pelo mapa, incluindo o de mortes por covid-19 nos 96 distritos da cidade.

    Mortes pelo novo coronavírus

    O Mapa da Desigualdade 2021 mostra que há disparidades na mortalidade por covid-19 nos distritos de São Paulo. No Parque do Carmo, na zona leste, 23,4% dos óbitos em 2020 foram pela doença, enquanto a Vila Leopoldina, com um dos menores índices, registrou 12,7%.

    Mapa mostra distribuição de mortes por covid-19 em São Paulo. Nas periferias há mais óbitos.

    É possível notar pelo mapa da cidade que os distritos que mais reuniram vítimas da doença estão nas periferias, onde também estão as populações mais afetadas pelas desigualdades, segundo Jorge Abrahão, coordenador geral da Rede Nossa São Paulo.

    “Foi nos lugares mais vulneráveis que morreu mais gente”, disse ao Nexo. “Não sabemos ainda se a pandemia agravou as desigualdades, mas as que já existiam tiveram grande impacto na crise. O lugar onde você mora define seu risco de morte. É como se fosse outra comorbidade.”

    Casos de feminicídio

    A publicação também mostra os dados sobre feminicídio, homicídio doloso qualificado praticado contra mulheres em razão do gênero. O distrito com mais casos desse crime é Guaianases, na zona leste, com 9,55 vítimas para cada dez mil mulheres de 20 a 59 anos. Enquanto isso, dezenas de outros distritos têm índice zero.

    Mapa mostra distribuição de feminicídios em São Paulo. Nas periferias há mais casos desse tipo de violência.

    Os registros de violência contra as mulheres têm aumentado nos últimos anos, disse Abrahão ao Nexo. Para ele, essa alta se deve em parte ao aumento de denúncias. Em 2020, porém, é possível que também tenha havido crescimento efetivo da violência por conta da pandemia.

    Outras publicações sobre a crise da covid-19 têm mostrado que a violência contra as mulheres aumentou nas quarentenas. Isoladas em casa, elas ficaram mais vulneráveis a conflitos com seus companheiros e tiveram menos condições de denunciar.

    Acesso à internet móvel

    Outro indicador que está entre os destaques do Mapa da Desigualdade sobre 2020 é o de acesso à internet móvel. O distrito onde há mais acesso é o Itaim Bibi, na zona oeste, onde há 49,8 antenas de internet a cada 10 mil habitantes. No Jardim Helena, na zona leste, essa taxa é de uma antena.

    Mapa mostra distribuição da oferta de antenas de internet móvel em São Paulo. No centro há mais acesso à internet.

    “Os distritos de periferia, via de regra, têm desigualdade muito grande no acesso à internet”, disse Abrahão ao Nexo. “Esse dado afeta trabalho, educação, saúde — consultas por teleatendimento, por exemplo. É uma falta que traz limitações para outras áreas da vida.”

    O acesso à internet se tornou ainda mais importante na pandemia, que exigiu medidas de distanciamento físico e aulas remotas. O dado do Mapa da Desigualdade, porém, considera apenas o acesso à internet móvel. Outros tipos de infraestrutura, como banda larga, estão de fora.

    Oferta de empregos formais

    O Mapa da Desigualdade mostra a distribuição da oferta de empregos formais no distritos. Na zona central, a Sé tem mais empregos do tipo: 112 para cada dez habitantes da população em idade ativa. Enquanto isso, no Iguatemi, na zona leste, a taxa é de 0,4 emprego.

    Mapa mostra distribuição da oferta de acesso a empregos formais em São Paulo. No centro há mais empregos.

    São Paulo tem em média cinco empregos formais para cada dez habitantes da população em idade ativa, segundo o texto. Grande parte deles, porém, está nos bairros centrais ou próximos do centro. O dado de população em idade ativa considera pessoas a partir de 15 anos.

    O indicador do Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo refere-se aos vínculos formais de emprego ativos no último dia de 2018. Os números mostram a situação do emprego na cidade nos meses anteriores à pandemia de covid-19, que teve início em março de 2020 e tem resultado em piora no quadro do desemprego no país.

    Mortes por violência policial

    O Mapa da Desigualdade sobre 2020 traz indicadores inéditos, como o de mortes por intervenção policial. A publicação afirma que essa violência é distribuída de forma significativamente desigual nos distritos, atingindo mais jovens, homens e pessoas pobres.

    Mapa mostra distribuição de mortes por intervenção policial em São Paulo. Nas periferias há mais óbitos.

    Na região leste de São Paulo, o distrito do Pari foi o que teve menos mortes desse tipo — a taxa de casos registrados a cada 100 mil habitantes foi zero. Os distritos com mais casos foram a Sé — com taxa de 13,98 —, no centro, seguida por Brás, Raposo Tavares, Marsilac e Jaguaré.

    O texto comenta que, mesmo com a queda expressiva nas taxas de homicídio na cidade nos últimos 20 anos, as mortes por violência policial não diminuíram, o que representa um indício de uso excessivo da força letal das polícias contra certos grupos da população.

    Colaboraram com os mapas Gabriel Zanlorenssi e Lucas Gomes.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.