Quem são os economistas que ganharam o Nobel em 2021

David Card, Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens são premiados por pesquisas usando experimentos naturais. Metodologia pode ser usada para entender causas e efeitos de políticas públicas

    O canadense David Card, o americano Joshua D. Angrist e o holandês Guido W. Imbens são os vencedores do prêmio Nobel de Economia de 2021. O anúncio foi feito pela Academia Real das Ciências da Suécia nesta segunda-feira (11).

    Os agraciados com o Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel (nome oficial do prêmio) foram laureados por seus trabalhos empíricos usando experimentos naturais, que ajudaram a avançar na compreensão de relações de causa e efeito entre diferentes variáveis – em especial no mercado de trabalho.

    Neste texto, o Nexo apresenta as contribuições dos vencedores de 2021 e explica a importância do prêmio.

    Angrist e Imbens: experimentos naturais

    Angrist (do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) e Imbens (da Universidade de Stanford, nos EUA) receberam, conjuntamente, metade da recompensa de 10 milhões de coroas suecas (R$ 6,3 milhões, pela cotação de 11 de outubro). Segundo a Academia Real das Ciências da Suécia, a dupla foi premiada por demonstrar a precisão de conclusões que podem ser tomadas de experimentos naturais.

    É comum, na ciência, que relações de causa e efeitos sejam comprovadas via experimentos. É o caso, por exemplo, de testes clínicos de remédios.

    Para testar a eficácia de medicamentos, cientistas separam aleatoriamente dois grupos de pessoas: um deles irá receber o medicamento e o outro irá receber um placebo. Se, ao final do experimento, houver diferença significativa entre os resultados dos dois grupos, isso deverá apontar um efeito causado pelo remédio.

    É possível fazer experimentos semelhantes, os chamados experimentos randômicos, na área de economia. Em especial, para avaliação de políticas públicas. Por exemplo, é possível testar um novo método de ensino em escolas. Escolhe-se aleatoriamente algumas escolas para implementarem esse método por algum tempo, e se compara os resultados com outro grupo randomizado de escolas que não adotaram essa nova forma de ensino. Isso permite entender os impactos desse programa.

    No entanto, experimentos randômicos nem sempre são factíveis – seja por dificuldades metodológicas, pelo alto custo ou até mesmo por problemas éticos.

    Os experimentos naturais buscam driblar esse tipo de obstáculo. A ideia é encontrar relações de causas e efeito sem experimentos controlados. Ou seja, o pesquisador não tem controle sobre o experimento: é como se ele tivesse acontecido “naturalmente”.

    Resumidamente, experimentos naturais identificam eventos que tenham levado grupos semelhantes a serem tratados de maneiras diferentes – separando entre grupo de tratamento e grupo de controle, como nos experimentos randômicos. A diferença é que isso não foi feito seguindo o desenho de uma política ou de uma pesquisa, e sim “naturalmente”. É justamente por avanços nessa metodologia que Angrist e Imbens receberam o Nobel de Economia de 2021.

    Card: experimentos naturais no mercado de trabalho

    Card (da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA) recebeu a outra metade do prêmio também por sua pesquisa com experimentos naturais. Usando essa metodologia, o economista canadense conseguiu oferecer respostas sobre algumas das mais antigas perguntas sobre o mercado de trabalho.

    Em um famoso estudo publicado em 1994 com o economista Alan Krueger – falecido em 2019 –, Card buscou entender os efeitos do salário mínimo sobre o desemprego. Nesse artigo, os economistas compararam restaurantes de cadeias de fast food em dois estados vizinhos nos EUA: Pensilvânia e Nova Jersey.

    Em abril de 1992, o estado de Nova Jersey, aumentou o salário mínimo. Card e Krueger identificaram que o grupo de tratamento (no qual a política foi aplicada) seriam os restaurantes de Nova Jersey; os restaurantes da Pensilvânia seriam o grupo de controle, já que não houve mudança no salário mínimo nesse estado.

    Acompanhando centenas de restaurantes nos dois estados, os economistas concluíram que o aumento do salário mínimo não resultou em um aumento do desemprego em Nova Jersey. Essa conclusão – de que aumentar o salário mínimo não leva a uma diminuição do emprego – contraria alguns dos modelos teóricos mais difundidos na área de economia.

    Outras pesquisas de Card usando experimentos naturais também trataram dos efeitos da imigração e da educação sobre o mercado de trabalho.

    A importância do Nobel de Economia

    O Prêmio Nobel foi criado a partir de uma herança deixada em 1895 por Alfred Nobel, engenheiro e químico sueco conhecido pela invenção do dinamite. Em seu testamento, ele expressou o desejo de que sua fortuna fosse usada para premiar os maiores expoentes das seguintes áreas: física, química, biologia, medicina, literatura e, de forma mais abrangente, “paz”.

    Mais de 70 anos depois, em 1968, foi criada uma nova categoria de premiação, para ciências econômicas.

    A escolha do Nobel de Economia acontece por um longo processo. As tratativas começam em setembro do ano anterior, quando cerca de 3.000 indivíduos – professores universitários, vencedores de anos anteriores, membros da Academia Real das Ciências da Suécia, entre outros – indicam economistas para o prêmio. Entre 250 e 350 pessoas costumam compor a lista inicial de indicados.

    O número vai se reduzindo conforme o comitê responsável pelo prêmio consulta especialistas e elabora relatórios sobre os candidatos. Após a seleção dos indicados finais, a Academia faz uma votação. Vence a candidatura que obtiver maioria dos votos. Os resultados são anunciados em outubro, e a entrega do prêmio ocorre em dezembro.

    Ao longo dos anos, o Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel já laureou importantes economistas, muitas vezes por pesquisas que dialogam com questões relevantes da conjuntura do momento. Alguns dos vencedores mais famosos do prêmio foram Paul Samuelson, em 1970; Milton Friedman, em 1976; Robert Solow, em 1987; John Nash, em 1994; Robert Lucas, em 1995; Paul Krugman, em 2008; e Esther Duflo, em 2019.

    Duflo foi uma das duas economistas mulheres a receberem o prêmio até o momento. A outra laureada havia sido Elinor Ostrom, em 2009.

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