Covid: a busca de parâmetros para a volta da normalidade

Vacinação avança e governos anunciam flexibilização de uso de máscaras e realização de carnaval, enquanto especialistas pedem cautela. O ‘Nexo’ detalha quais indicadores e cenários tornariam possível falar em fim da pandemia 

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Capitais como Rio de Janeiro e São Paulo já anunciaram metas para flexibilizar nas próximas semanas o uso de máscaras em ambientes externos e voltaram a sinalizar que devem permitir a realização do carnaval em 2022. Os anúncios têm se baseado no avanço da vacinação e na queda das internações por covid-19. Duque de Caxias (RJ) aboliu as máscaras em qualquer situação a partir de quarta-feira (6).

Apesar da melhora na evolução da doença, muitos especialistas afirmam considerar imprudente retirar a exigência das máscaras no atual momento, com uma média de quase 500 mortes por dia no país, e anunciar a liberação das festas com tantos meses de antecedência. Entre os cientistas, há um consenso de que o novo coronavírus não irá desaparecer e continuará circulando em níveis baixos e previsíveis no futuro.

Esse estágio, que permitiria a volta a uma certa normalidade, porém, ainda não chegou. Neste texto, o Nexo traz análises de especialistas em saúde sobre os parâmetros que permitiram pensar nisso — e explica o desafio de defini-los.

O que duas cidades vislumbram

Rio de Janeiro

O prefeito Eduardo Paes (PSD) divulgou na terça-feira (5) que a cidade planeja flexibilizar o uso de máscaras ao ar livre a partir de 15 de outubro, quando a cobertura vacinal com duas doses alcançar 65% da população total. Paes também já confirmou a realização do carnaval de 2022 na cidade. Quando o anúncio foi feito, 56,5% dos cariocas estavam com a imunização completa — a taxa chegava a 72,2% entre os adultos.

São Paulo

Na capital paulista, a flexibilização do uso de máscaras também vem sendo estudada, como anunciado na segunda-feira (4). O item não seria mais exigido a partir de um índice de cobertura vacinal completa de 90% da população, além de 100% da população com mais de 60 anos com a terceira dose, e baixos índices de internações e mortes. Quando o anúncio foi feito, 81,75% da população com mais de 18 anos estava com as duas doses ou dose única. O carnaval também entrou na mira da prefeitura, que projetou a realização da festa em 2022 sem restrições e com a presença de 15 milhões de pessoas.

Dá para falar em carnaval?

Alguns pesquisadores concordam que, caso os indicadores atuais se mantenham e a vacinação atinja mais de 90% da população, é possível liberar festas e desobrigar o uso de máscaras em eventos ao ar livre.

“Se a gente conseguir até o final do ano ter essa cobertura de 90% e tiver vacinado todo esse grupo com maior risco para evoluir para hospitalização e óbitos, sim, a gente vai ter dias mais tranquilos, e, eventualmente, a gente pode liberar algumas atividades associadas à aglomeração, como o Réveillon e o carnaval”

Julio Croda

infectologista e pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em entrevista ao site Metrópoles, na segunda-feira (4)

Croda lembrou, porém, que a previsão se baseia num cenário em que não há o surgimento de uma nova variante que tenha impacto na proteção garantida pelas vacinas. Caso surja uma mutação mais infecciosa, será preciso regredir alguns passos.

Outros especialistas defendem que o carnaval não aconteça. O sanitarista Gonzalo Vecina, que presidiu a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de 1999 a 2003, afirmou em setembro de 2021 à revista Exame que a festa popular é um evento de massas que não se pode controlar ou evitar, por exemplo, a participação de não vacinados.

“Não vejo a possibilidade de ter carnaval em 2022. O São João, no meio do ano, é possível, mas difícil. Teremos espaço para jogos de futebol com torcida, teatro, eventos em que há controle”, afirmou.

O pesquisador Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, defendeu ao Nexo uma maior cautela e sensibilidade dos gestores públicos. Segundo ele, ao anunciar agora que haverá carnaval em 2022, as prefeituras movimentam uma enorme cadeia de negócios que se prepara para o evento e que dificilmente seria desmobilizada caso aconteça algo e a festa tenha que ser cancelada.

“Vamos fazer o carnaval no ano que vem com base no cenário atual? Mas esse cenário não é fixo. E se ele mudar?”, questiona. Para o pesquisador, os governos estão buscando ganhos políticos com os anúncios, mas deveriam focar em eventos testes para avaliar, antes, como a doença está evoluindo com a vacinação, e só então pensar em grandes aglomerações. “A gente está vendo uma corrida pra dizer que a doença acabou e isso é perigoso”, afirmou.

A médica epidemiologista Ana Maria de Brito, também pesquisadora da Fiocruz e professora aposentada da Universidade de Pernambuco, disse que nem a realização do Réveillon, que está mais próximo, deveria ser prevista no atual estágio da pandemia no Brasil, com quase 17 mil novos casos de infecção registrados todos os dias. A liberação das aglomerações, neste momento, segundo ela, coloca em risco, inclusive, outros países.

“Nós somos um laboratório favorável ao aparecimento de outras variantes virais. Inclusive variantes que sejam resistentes às vacinas até então disponíveis”

Ana Maria de Brito

pesquisadora da Fiocruz, em entrevista ao Nexo

Quais os cenários para a volta à normalidade

O jornal americano The Washington Post consultou na quarta-feira (6) sete especialistas para saber em que ponto o fim da emergência sanitária poderia ser declarado. As respostas ressaltaram a necessidade de redução drástica no número de casos, mortes e hospitalizações e a manutenção desses indicadores em níveis como o de outras doenças com que a humanidade convive.

A situação seria favorável também a partir do momento em que a doença parar de pressionar a capacidade dos hospitais e que novas variantes não façam o número de casos e mortes explodir. Mesmo assim, o uso de máscaras deveria ser mantido em espaços fechados, os prédios teriam que se adaptar para garantir boas condições de ventilação e a vacinação precisaria avançar ainda mais, inclusive entre as crianças pequenas.

Professor de medicina e saúde global na Universidade Emory, Carlos del Rio afirmou ao jornal americano que um cenário favorável, considerando a realidade dos Estados Unidos, seria que a taxa de novos casos de infecção caísse abaixo de 10 por 100 mil habitantes e que ocorressem menos de 100 mortes por dia por covid-19. A população americana é de cerca de 330 milhões, maior que a brasileira (que tem em torno de 210 milhões de habitantes).

Dados do Our World in Data mostravam que, na terça-feira (5), os Estados Unidos ainda tinham 31 novos casos por 100 mil habitantes (três vezes o que seria recomendado pelo professor) e uma média móvel de 1.808 mortes diárias (18 vezes o esperado). No Brasil, a taxa de novos casos é de 8 por 100 mil habitantes, mas a média móvel de mortes estava em 498, o que ainda é inaceitável.

“Acho que o uso da máscara deve permanecer no futuro próximo em algumas situações. Por exemplo, eu usaria máscara ao andar de metrô ou ao atender pacientes. Também acho que pedir uma comprovação de vacinação irá se tornar o novo normal”, afirmou del Rio ao jornal.

A especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em São Francisco, Monica Gandhi também afirmou ao The Washington Post que a situação melhoraria com menos de 5 internações diárias por covid-19 para cada 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, a taxa ainda era de 19 internações na terça-feira (5), segundo o Our World in Data. Não há dados sobre o Brasil.

Para o pesquisador Diego Xavier, da Fiocruz, estabelecer metas é importante, mas é preciso definir por quanto tempo essas metas devem se manter. “Vamos supor que a gente tenha que alcançar 10 casos por 100 mil habitantes. A gente chegou nisso e pronto, resolveu? Não. A gente tem que chegar num nível como esse e pelo menos por três ou quatro semanas manter esse nível”, afirmou.

Segundo ele, há outros parâmetros que podem ajudar, como a taxa de resultados positivos no total dos testes que estão sendo realizados. “A recomendação da OMS [Organização Mundial de Saúde] em 2020 era que, se a gente tivesse 5% desse número de testes sendo aplicados como positivos, a gente tinha o controle da transmissão”, disse. Segundo dados da Fiocruz, metade dos testes RT-PCR aplicados no país no início de outubro tinha resultado positivo.

Voltar a uma situação de normalidade só seria possível, de acordo com o pesquisador, quando a covid-19 atingir um processo endêmico a partir da manutenção dos indicadores por bastante tempo em níveis baixos, como aconteceu, por exemplo, com o vírus H1N1, que causa gripe comum. Isso permite que se saiba em qual período a doença mais ocorre, quantos casos são esperados e o que se vai fazer para lidar com ela, por exemplo. Esse cenário ainda não é observado para permitir a liberação de carnavais, segundo ele.

A epidemiologista Ana Maria de Brito ressalta que nem Portugal, que alcançou 85% da população totalmente vacinada até quarta-feira (6) considera estar vivendo uma endemia, porque o resto do mundo não alcançou a mesma cobertura — o que, de alguma forma, representa um risco de reintrodução da doença a partir de uma nova cepa mais contagiosa vinda de fora. No Brasil, apenas 44,3% da população estava totalmente imunizada até a mesma data — 71% havia recebido ao menos uma dose.

Desde o início de outubro, o uso de máscaras não é mais obrigatório na maioria dos espaços em Portugal, mas o item ainda era necessário em hospitais, asilos, lojas fechadas ou para crianças que participam de aglomerações durante as atividades escolares, por exemplo. Shows e eventos culturais foram liberados.

34%

da população mundial completou a imunização com duas doses até a terça-feira (5), segundo o Our World in Data

Brito lembra que para a covid-19 tornar-se endêmica também depende da resposta das vacinas, tanto do tempo de duração da proteção garantida por elas — que alguns estudos indicam que pode cair após seis meses — quanto do escape em relação às novas variantes. Esses temas ainda estão sem resposta da ciência. Por essas questões, os dois pesquisadores da Fiocruz dizem ser impossível prever quando a doença entrará nesse estágio de endemia.

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