Por que a Nova Zelândia desistiu da estratégia da ‘covid zero’

Governo neozelandês baixa a meta e abandona ambição, em aposta por controle das taxas de transmissão, como já fazem outros países

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    A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, anunciou nesta segunda-feira (4) ter desistido da estratégia da “covid zero”, que consistia em tentar eliminar completamente a presença do vírus da covid-19 no país. A partir de agora, a Nova Zelândia buscará apenas conviver com o vírus, mantendo as taxas de transmissão sob controle, como faz a maioria dos países do mundo.

    O anúncio representa uma mudança de rumo num dos países em que o combate à pandemia é mais exitoso – apenas 27 pessoas morreram de covid na Nova Zelândia desde o registro do primeiro caso, em janeiro de 2020. O país se tornou exemplo por ter adotado uma política sanitária transparente e baseada em consensos científicos. Apesar disso, a primeira-ministra neozelandesa admitiu que a meta de “covid zero” foi ambiciosa demais.

    Neste texto, o Nexo traz o anúncio de Ardern e explica a situação da pandemia na Nova Zelândia, com dados de contaminação, morte e vacinação. O texto fala ainda de outra experiência de “covid zero”, a da China, que continua de pé.

    Qual era a política em vigor

    O governo da Nova Zelândia acreditava ser possível fazer com que não existisse mais a transmissão local ou comunitária do coronavírus, dentro dos limites de seu território – que é quando a transmissão ocorre entre pessoas que não estiveram fora do país recentemente. A ideia era eliminar esse tipo de transmissão local e, ao mesmo tempo, estabelecer um controle rigoroso das fronteiras.

    A ideia de que essa meta ambiciosa poderia ser alcançada vinha do fato de a Nova Zelândia ser uma nação insular (ilha), onde o controle de entrada e saída é mais fácil, quando comparado a países que fazem fronteiras terrestres com seus vizinhos. Além disso, o governo da premiê Ardern contava com condições políticas e apoio popular que permitiam a adoção de medidas severas, como o “lockdown” para controlar o vírus.

    Na Nova Zelândia, a primeira morte por covid só foi registrada em julho de 2021 e o primeiro caso de transmissão local, em agosto do mesmo ano. Os bons números, o respaldo popular às políticas sanitárias e a condição geográfica do país encorajaram a busca da ambiciosa meta da “covid zero”.

    Qual a mudança de rumo

    A mudança de rumo, anunciada nesta segunda-feira (4), consiste em admitir que esse objetivo já não pode mais ser alcançado. A saída será, portanto, conviver com o vírus, tomando todas as medidas adequadas para manter as taxas de transmissão sob controle – algo que o país já demonstrou que consegue.

    O principal motivo para esse recuo nos planos é a chegada da variante Delta, que é mais contagiosa e difícil de ser contida do que as formas anteriores, pois sua carga viral é 300 vezes maior. As medidas necessárias para zerar os casos neste momento implicariam em políticas restritivas severas demais, por um tempo demasiadamente prolongado.

    Exemplo disso é o que está acontecendo em Auckland, a maior cidade do país. Em agosto, a cidade passou a conviver com um surto provocado pela variante Delta, que deixou mais de 1.300 infectados. O governo aplicou ali o receituário até então exitoso do lockdown severo, mas, depois de sete semanas, os casos não baixaram. Neste sábado (2), moradores de Auckland saíram às ruas para protestar contra as restrições prolongadas, o que fez o governo recuar.

    O que vem após o recuo

    O recuo na meta de “covid zero” não é um abandono das políticas sanitárias adotadas até aqui, mas uma adaptação. A causa dessa adaptação é a Delta, mas há um outro fator que torna essa mudança possível: a vacinação.

    A Nova Zelândia está entre os países desenvolvidos com a menor cobertura vacinal contra covid-19. Isso ocorreu porque o controle da pandemia foi exitoso com o uso de outras medidas sanitárias, diferentes da imunização. O governo não teve pressa em comprar e aplicar vacinas, porque o vírus estava controlado, com números muito baixos de infecção e morte. Agora, com a Delta e com a dificuldade de fazer quarentenas por períodos indefinidos, a primeira-ministra corre para recuperar o tempo perdido sem vacinação.

    “Com este surto e com a Delta, o retorno a zero é incrivelmente difícil. Essa é uma mudança que faríamos ao longo do tempo, e o surto da Delta acelerou a transição. As vacinas vão apoiar a nova política”

    Jacinda Ardern

    Primeira-ministra da Nova Zelândia, ao anunciar, nesta segunda-feira (4), o abandono da meta de “covid zero” no país

    Ardern disse ter pensado que a persistência dos casos de covid no país eram como uma “cauda longa”, numa referência ao fato de que, apesar do combate exitoso, os números demoravam a cair, pois refletiam momento anteriores. Só que, em vez disso, ela disse ter se dado conta de que “a cauda longa parece mais um tentáculo, incrivelmente difícil de ser rompido”.

    A premiê anunciou que as restrições impostas a Auckland e outras grandes cidades neozelandesas serão levantadas aos poucos, e os esforços de vacinação estão sendo redobrados.

    79%

    é o percentual dos maiores de 12 anos que tomaram a primeira dose na Nova Zelândia, até 4 de outubro de 2021

    48%

    é o percentual dos maiores de 12 anos que atingiram a imunização máxima, com duas doses ou dose única, até 4 de outubro de 2021

    80%

    é a meta de imunização total da população neozelandesa até o fim de outubro de 2021

    A imunização total deve levar meses para acontecer. Até lá, o que se constata é uma cobertura vacinal desigual – enquanto 80% dos brancos foram imunizados, esse percentual não passa de 57% entre a comunidade originária maori, que compõe 16,5% da população da Nova Zelândia.

    A ‘covid zero’ na China

    Antes de a Nova Zelândia anunciar a desistência da meta de “covid zero”, outro país da região, Singapura, tinha feito o mesmo. O governo local passou a tomar decisões com base na taxa de transmissão e de ocupação de leitos hospitalares para considerar a pandemia sob controle em níveis satisfatórios, esquecendo a ambição de zerar os casos completamente.

    Por outro lado, a China – país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes – ainda busca a meta de “covid zero”. As fronteiras do país estão fechadas para a maioria dos visitantes estrangeiros há 18 meses. Os poucos que entram ou regressam ao país são colocados sob quarentena.

    Em setembro, o governo chinês inaugurou em Guangzhou um complexo sanitário do tamanho de 46 campos de futebol, com 5.000 quartos, para abrigar pessoas que chegam de fora, numa tentativa de impedir a todo custo a entrada de pessoas contaminadas no país. Em março, esta cidade portuária recebia 90% das pessoas que chegavam à China, vindas do exterior, e mantinha 30 mil pessoas em quarentena.

    Ao contrário da Nova Zelândia, a China combina quarentenas com vacinação desde que os imunizantes foram descobertos. O gigante asiático já aplicou mais de 1 bilhão de doses, imunizando no nível máximo 71% da população, e aplicando apenas a primeira dose em outros 5,4%, até esta segunda-feira (4).

    Mesmo assim, o governo chinês mantém um severo controle de suas fronteiras. Enquanto americanos e europeus vivem um momento de reabertura, a China mantém suas fronteiras fechadas para a maioria dos estrangeiros, e cobertas por regras rigorosas para os poucos que são autorizados a entrar.

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