O alinhamento da Prevent Senior ao foco de Bolsonaro na economia

Tratamento com cloroquina poderia dar esperança à população para sair às ruas, como queria o governo, segundo depoimento de advogada à CPI da Covid

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A advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos e ex-médicos da operadora de saúde Prevent Senior, prestou depoimento à CPI da Covid na terça-feira (28). Aos senadores, ela detalhou como a aposta na cloroquina levou a um alinhamento ideológico da operadora com o bolsonarismo e que a empresa se aproximou do governo por intermédio de médicos negacionistas que integravam o chamado gabinete paralelo.

Em sessão que durou quase oito horas, ela classificou a relação da Prevent Senior com o governo como um “pacto”. A empresa teria “segurança” para testar um protocolo experimental com hidroxicloroquina (antimalárico) e azitromicina (antibiótico) em pacientes com covid-19, sem sofrer fiscalização do Ministério da Saúde, de forma a reduzir custos com internações. Para o governo, a comprovação da existência de um tratamento precoce daria “esperança” e “coragem” às pessoas para que saíssem às ruas e não paralisassem a economia.

A operadora nega ter relação com o governo, acusa a advogada de ter tentado fechar um acordo milionário para não levar adiante as denúncias, as quais chama de “infundadas”, e diz ser vítima de uma “armação”. Neste texto, o Nexo mostra quais os detalhes revelados pela advogada no caso e lista os principais pontos de seu depoimento.

A aproximação com o governo

A denúncia contra a Prevent Senior surgiu em setembro de 2021 a partir de um dossiê produzido por médicos e ex-médicos da empresa que a acusam de fraudar um estudo para comprovar a eficácia da cloroquina. No documento entregue à CPI, eles dizem que mortes foram excluídas do levantamento e que ele fazia parte de um acordo com o governo federal para disseminar remédios ineficazes.

Em 18 de abril, o estudo foi divulgado nas redes sociais pelo presidente Jair Bolsonaro, antes mesmo de ter sido publicado. Os resultados também foram citados na internet pelos filhos do presidente. Em depoimento à CPI, em 22 de setembro, o diretor executivo médico da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior, afirmou que a operadora não tem nenhuma relação com Bolsonaro e negou que tenha passado o estudo a ele.

Fernando Parrillo, presidente-executivo da empresa, também negou conhecer Bolsonaro em entrevista ao Valor Econômico publicada na segunda-feira (27).

“Eu e meu irmão não acompanhamos política, nunca tivemos envolvimento. Nem com A nem com B. Eu nunca participei de jantares com políticos. Sempre evitei esta exposição. Eu nunca vi o presidente Bolsonaro nem falei com ele”

Fernando Parrillo

presidente da Prevent Senior, ao Valor Econômico

A advogada Bruna Morato afirmou, entretanto, que, segundo relatos de médicos, a operadora tentou se aproximar do governo ainda em março de 2020, por causa das críticas que o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez à empresa devido ao alto número de mortes de pacientes por covid-19 em seus hospitais. O contato teria sido mediado por um parente de Mandetta que trabalha na operadora, mas a tentativa acabou sendo infrutífera, segundo a advogada.

“O ministro Mandetta não deu essa abertura, fazendo com que eles [representantes da Prevent Senior] procurassem outras vias. Segundo informações, o dr. Pedro [Benedito Batista Júnior] foi informado de que existia um conjunto de médicos assessorando o governo federal e que esse conjunto de médicos estaria totalmente alinhado com os interesses do Ministério da Economia”

Bruna Morato

advogada, em depoimento à CPI

A ‘aliança’ via gabinete paralelo

Segundo a advogada, esse grupo de médicos procurado pela Prevent Senior formava o gabinete paralelo que assessorava informalmente o presidente Jair Bolsonaro. Mandetta foi demitido por contrariar o presidente em relação ao enfrentamento à pandemia em 16 de abril de 2020, às vésperas da divulgação do estudo sobre a eficácia da cloroquina conduzido pela operadora. Em seu livro, publicado no final daquele ano, o ex-ministro denunciou a existência do tal gabinete.

Teria sido por esse caminho que a operadora se aproximou do governo federal. Tanto a Prevent Senior quanto o governo Bolsonaro se alinhavam a um “interesse do Ministério da Economia” para que o país não parasse ou adotasse medidas como o lockdown, segundo Morato. A Prevent Senior teria se aproximado dos seguintes nomes que difundiam a cloroquina e integravam o gabinete paralelo — que é investigado pela CPI como parte da estratégia do governo de deixar a população se contaminar para se chegar à imunidade de rebanho:

  • Anthony Wong, médico toxicologista que ficou conhecido nas redes sociais por seu negacionismo na pandemia. Morreu de covid-19 em janeiro de 2021, num hospital da Prevent Senior, mas a doença foi omitida de seu atestado de óbito.
  • Nise Yamaguchi, médica oncologista que foi cogitada para assumir o Ministério da Saúde. Sugeriu em reunião com membros do governo a alteração da bula da cloroquina para que ela pudesse ser indicada contra a covid-19.
  • Paolo Zanotto, biólogo e virologista, sugeriu em encontro de médicos negacionistas com Bolsonaro em Brasília a criação de um “gabinete das sombras” para aconselhar o governo sobre vacinas que estavam em desenvolvimento.

Segundo Morato, havia uma colaboração da Prevent Senior com o governo para produzir informações a favor do tratamento precoce. “É como se fosse uma troca, a qual nós chamamos na denúncia de pacto, porque assim me foi dito. Alguns médicos descreveram como aliança”, disse.

Como funcionava o ‘pacto’

De um lado, a Prevent Senior não sofreria fiscalização do Ministério da Saúde e poderia “iniciar um protocolo experimental, cientes de que não seriam devidamente investigados ou averiguados pelo ministério”, segundo a advogada. Ela disse que a empresa “não tinha a quantidade de leitos necessários de UTI” para todos os pacientes com covid-19, por isso apostou na cloroquina.

Além disso, o uso de um medicamento preventivo “era uma estratégia para redução de custos, uma vez que é muito mais barato para a operadora de saúde disponibilizar determinados medicamentos do que efetivamente fazer a internação daqueles pacientes”, afirmou a advogada em seu depoimento.

Do lado do governo, a existência de um possível tratamento precoce se alinhava ao discurso do presidente — e de integrantes da equipe econômica e outras áreas do governo — contra a política de isolamento social decretada por governadores e prefeitos e dos lockdowns, com a paralisação de boa parte das atividades econômicas.

“A economia não podia parar, e o que eles [Prevent Senior] tinham que fazer era isto: conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas. E essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina. Então, no primeiro momento, eles queriam que as pessoas tivessem coragem de sair de casa”

Bruna Morato

advogada, em depoimento à CPI

Desde o início da pandemia, Bolsonaro defende priorizar a economia. Ele já pediu para que a população saia de casa e enfrente a doença, alegando que todos, um dia, vão ser infectados pelo vírus. Também propaga remédios ineficazes se apoiando na orientação do Conselho Federal de Medicina de que o médico tem autonomia para prescrever o remédio que achar mais adequado, com o consentimento do paciente.

Quando o estudo da Prevent Senior começou a ser feito, em março de 2020, o Ministério da Saúde havia acabado de divulgar uma nota considerando a cloroquina um possível tratamento auxiliar contra a covid-19, voltado para pacientes hospitalizados com quadros graves da doença. A substância só parou de ser testada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em julho de 2020, por não apresentar benefícios.

A pressão e de demissão de médicos

Os médicos denunciaram as pressões que sofreram para aderir ao kit covid. A Prevent Senior tem negado a acusação de que demitia profissionais que se opunham ao uso da cloroquina. Batista Júnior disse à comissão que ninguém foi constrangido a receitar medicamentos ineficazes.

“Esses médicos [denunciantes] foram excluídos da empresa por graves falhas éticas e morais, como invasão de prontuários e tratamento inadequado de pacientes, muitos deles com queixas em compliance”

Pedro Benedito Batista Júnior

diretor executivo médico da Prevent Senior, em depoimento à CPI

A advogada Bruna Morato alegou, porém, que a empresa costumava “fazer demissões em massa toda vez que algum médico ou alguma circunstância desagradava à instituição”.

Segundo ela, alguns médicos entregavam aos pacientes o kit covid completo, por serem obrigados a isso, mas alertavam que estavam fazendo aqui para não serem demitidos e recomendavam aos pacientes tomar apenas as proteínas e as vitaminas incluídas nos pacotes, porque os demais remédios, além de não terem efeito, eram nocivos à saúde.

De acordo com Morato, um lema usado internamente pela empresa (“lealdade e obediência”) também explicitava a falta de autonomia dos profissionais para receitar os medicamentos que considerassem mais adequados. “Essa sempre foi a ideologia da empresa; e onde existe uma ideologia de lealdade e obediência, não existe autonomia. Então, os médicos eram, sim, orientados à prescrição do kit”, afirmou.

A Prevent Senior disse que o lema foi usado por um único ex-diretor em mensagens internas até 2017, quando ele deixou a empresa. Desde então, ele foi abolido.

Morato também falou num “castigo” que diminuía os ganhos financeiros de quem não aceitasse a política da empresa em relação aos medicamentos ineficazes.

“Inúmeros profissionais foram coagidos. De alguns foi chamada a atenção, e era um modo muito complicado porque eles eram repreendidos na frente dos colegas. Outros profissionais foram demitidos. E existia um castigo estipulado dentro da rede, que era a redução de plantões”

Bruna Morato

advogada, em depoimento à CPI

Os senadores questionaram a advogada por que os médicos não denunciaram as irregularidades aos conselhos regional e federal de medicina. Ela alegou que eles tinham medo de se expor.

“Esses médicos recebiam a informação de que o Conselho Federal de Medicina e de que o Cremesp, de São Paulo, ou seja, o Conselho Regional de Medicina [do Estado] de São Paulo, teriam relação com a empresa, de modo que eles tinham muito medo de levar essas denúncias ao Cremesp”, disse.

Por causa de sua fala, a CPI aprovou o envio de um pedido para que a Procuradoria-Geral da República investigue as possíveis omissões do Conselho Federal de Medicina, do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo e da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) em relação às irregularidades cometidas pela Prevent Senior durante a pandemia.

A ANS autuou ontem a empresa, afirmando que identificou contradições na versão apresentada pela Prevent Senior em um procedimento aberto para apurar o caso assim que as denúncias vieram à tona. Segundo a agência, a operadora deixou de informar os pacientes que eles estavam recebendo medicamentos do tratamento precoce. O Conselho Federal de Medicina, por sua vez, vem se alinhando ao bolsonarismo e já criticou a CPI por “excesso e abusos” e por manter um suposto “ambiente tóxico”.

A adulteração de dados

A Prevent Senior tem dito que a denúncia feita por médicos e ex-médicos à CPI sobre uma suposta omissão de mortes num estudo para provar a eficácia da hidroxicloroquina e da azitromicina se baseia numa planilha com dados manipulados para comprometer a operadora.

Morato rebateu a alegação e disse que a estratégia de seu diretor executivo médico, Batista Júnior, em depoimento à comissão, foi a de desconstruir e desqualificar a denúncia.

“O fato é que nove pessoas faleceram durante o estudo. Esses nove atestados de óbito ficam à disposição porque são documentos públicos. Como ele não tem como contestar esse fato, ele tenta desqualificar a denúncia atribuindo crime ou culpa àqueles que tentaram fazer o que é certo, ou seja, dar notoriedade a um dado verdadeiro”, disse.

O estudo foi publicado num site de pré-prints (estudos sem revisão de outros cientistas) em 20 de abril de 2020. A Prevent Senior citou apenas duas mortes (de pacientes que tomaram o kit covid) no período analisado (de 26 de março a 4 de abril) e diz que as demais mortes citadas pelos denunciantes ocorreram depois da publicação do estudo — uma delas, descoberta pela GloboNews, de fato ocorreu em 25 de abril. A empresa afirma também que uma das mortes incluídas no dossiê sequer aconteceu.

A advogada não falou sobre a resposta da Prevent Senior sobre as datas das mortes e a inclusão de uma morte falsa no dossiê. Ela negou, porém, as alterações nos dados e afirmou que os prontuários incluídos na denúncia — que mostram a omissão de mortes por covid-19 nos atestados de óbito do médico Anthony Wong e de Regina Hang, mãe do empresário bolsonarista Luciano Hang — foram obtidos de um processo no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo).

“Se alguém fraudou esses documentos, foi a própria operadora de saúde ao entregar ao Cremesp documentos aos quais eu tive acesso. Meus clientes não me passaram nenhum prontuário médico. Na verdade, eu peguei esses prontuários no sistema do Cremesp”

Bruna Morato

advogada, em depoimento à CPI

O interesse dos denunciantes

A Prevent Senior tem questionado a motivação da denúncia. Em seu depoimento, Batista Júnior, diretor da empresa, acusou os denunciantes de não levarem os dados à Justiça e de tentarem “ferir a imagem” da operadora por meio de denúncias anônimas na imprensa.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, na segunda-feira (27), o presidente-executivo da Prevent Senior, Fernando Parrillo, também acusou os denunciantes de terem interesse econômico no caso.

“Fomos vítimas de uma armação de uma advogada que tentou, mas não conseguiu, fechar um acordo milionário. Claro que vamos processar todos que injustificadamente nos atacam. Exigiremos reparação judicial”

Fernando Parrillo

presidente-executivo da Prevent Senior, em entrevista ao Valor Econômico

Morato rebateu as acusações e reconheceu ter tentado um acordo com a empresa, mas não com interesses financeiros. “O dr. Pedro Batista veio aqui e disse que eu tentei um suposto acordo com a empresa antes de trazer essa denúncia à Comissão Parlamentar de Inquérito. Na verdade, não foi um suposto acordo: foi efetivamente um pedido de acordo. Esse acordo não foi um acordo financeiro, o que é muito importante que se esclareça neste momento”, disse.

Segundo ela, o interesse dos médicos era que a empresa reconhecesse publicamente que o estudo da Prevent Senior sobre a cloroquina foi inconclusivo, que os médicos não tinham autonomia sobre os medicamentos prescritos e que o tratamento precoce fosse assumido como protocolo institucional para resguardar os profissionais de possíveis ações movidas por pacientes ou familiares.

“Esses médicos estavam sendo ameaçados e hostilizados pelas famílias e estavam muito preocupados com a diretriz da empresa. Em julho, eles pediram que eu me aproximasse do jurídico da empresa, o que eu fiz, afinal é o meu trabalho, pedindo para que a empresa tomasse três atitudes para que essas denúncias não fossem feitas às autoridades competentes”

Bruna Morato

advogada, em depoimento à CPI

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