O que pesa contra cada um dos filhos de Bolsonaro

Influentes no governo federal, membros da família presidencial são alvo de diferentes investigações

    Chefe de organização criminosa. Foi assim que o Ministério Público do Rio de Janeiro descreveu o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente, para pedir à Justiça estadual a quebra dos sigilos bancário e fiscal do parlamentar.

    Ele é investigado sob suspeita de fazer rachadinha em seu gabinete e, segundo o juiz do caso, há “indícios rotundos de atividade criminosa em regime organizado”, conforme revelado pela jornalista Juliana Dal Piva na quinta-feira (23), no portal UOL.

    O caso soma-se a diversas outras suspeitas criminais que recaem sobre o presidente Jair Bolsonaro e sua família, embora o chefe do Executivo federal tenha sido eleito com um discurso de combate à corrupção e amplo apoio de lavajatistas.

    Neste texto, o Nexo organiza as suspeitas sobre os quatro filhos adultos do presidente, mostra em que pé estão as investigações contra eles e explica a influência dos filhos no governo do pai.

    Rachadinha

    Rachadinha é o nome dado no meio político à prática ilegal de devolução de salários de assessores (pagos com recursos públicos) para determinado parlamentar ou secretário, a partir de um acordo ou como exigência para a função. Frequentemente esquemas do tipo envolvem a contratação de funcionários fantasmas.

    Desde 2018, investigações para apurar suspeitas de rachadinha rondam membros da família Bolsonaro e os ligam entre si. Em décadas da presença do clã na política, transitaram nos gabinetes de pai e filhos mais de uma centena de funcionários conectados por relações de parentesco, incluindo membros da família do miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2020 numa operação policial.

    Os nomes do ex-PM Fabrício Queiroz, amigo íntimo do presidente, e de Ana Cristina Valle, segunda mulher de Jair e chefe de gabinete do enteado Carlos de 2001 a 2008, também aparecem tanto na investigação contra o vereador quanto na denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), seu irmão. Queiroz já foi denunciado à Justiça.

    Reportagens revelaram também indícios de que a rachadinha também acontecia no gabinete de Jair, enquanto ele era deputado federal. A Constituição determina, porém, que um presidente só pode responder a processo por crimes cometidos no exercício do mandato.

    Flávio Bolsonaro

    Em novembro de 2020, o Ministério Público fluminense denunciou o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e assessores por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, sob a acusação de que seu gabinete como deputado estadual desviou pelo menos R$ 6 milhões de dinheiro público em um esquema de rachadinha. Segundo os procuradores, no esquema, funcionários contratados devolviam parte de seus salários, pagos com recursos públicos, para o parlamentar. Parentes do miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2020 numa operação policial na Bahia, fariam parte do arranjo.

    Flávio nega irregularidades e se diz perseguido pelo Ministério Público por ser filho do presidente. Em fevereiro de 2021, ele conseguiu no STJ (Superior Tribunal de Justiça) que parte das provas que fundamentam sua denúncia fosse anulada, porque a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador teria ocorrido fora dos critérios legais.

    Um recurso parado no Supremo Tribunal Federal discute em que instância o caso deve tramitar. Atualmente, o processo está no Tribunal de Justiça do Rio, que considerou que o senador faz jus ao foro privilegiado que tinha como deputado no tribunal.

    Carlos Bolsonaro

    O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também é alvo do Ministério Público do Rio de Janeiro. Promotores constataram que, entre os ex-funcionários que teriam assessorado o vereador de 2001 a 2019, estavam pessoas que na mesma época mantinham outros vínculos empregatícios formais, o que é proibido pelo regimento da Câmara carioca. Segundo o Ministério Público, há indícios de que os assessores “não cumpriam o regular expediente na Casa, podendo assim ser considerados ‘funcionários fantasmas’”, mostrou reportagem do jornal O Globo na terça-feira (21).

    Além disso, um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) revelou a movimentação de R$ 1,8 milhão para Carlos em uma conta bancária em nome de sua mãe, Rogéria Bolsonaro, primeira mulher do presidente. Segundo o juiz que cuida das investigações contra Carlos, existem “indícios de subfaturamento de compra de imóvel em 2009”.

    A defesa de Carlos Bolsonaro disse que não iria comentar o caso porque o processo corre sob sigilo.

    Tráfico de influência

    A família Bolsonaro passou a ser alvo de suspeitas sobre o crime de tráfico de influência, já que há indícios de que os filhos do presidente, ao servirem como ponte para empresários ao governo federal, podem ter obtido benefícios pessoais.

    Suspeitas do tipo também recaíram sobre os filhos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Michel Temer, para citar os presidentes mais recentes, mas nenhum foi punido.

    Jair Renan

    Em março de 2021, a Polícia Federal abriu um inquérito sobre os negócios do estudante de 23 anos Jair Renan, caçula entre os filhos homens de Bolsonaro, por suspeita de tráfico de influência.

    Representantes dos grupos WK e Gramazini Granitos e Mármores Thomazini, que doaram um carro elétrico avaliado em R$ 90 mil a um projeto parceiro da empresa de Renan, conseguiram reuniões com o presidente e com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Eles pretendem vender ao governo federal um projeto de construção de casas populares de pedra. O próprio Jair Renan já fez reuniões com ministros e recebeu serviços gratuitos de uma produtora que tem contratos milionários com o governo federal.

    Documentos da CPI da Covid mostram que Jair Renan Bolsonaro abriu sua empresa de eventos em outubro de 2020 com ajuda de Marconny Faria, lobista da Precisa Medicamentos – farmacêutica investigada pela comissão por ter intermediado as negociações suspeitas da vacina indiana Covaxin com o Ministério da Saúde.

    Segundo Marconny, sua relação com Jair Renan também levou a sua apresentação à mãe do jovem e ex-companheira de Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle. A CPI suspeita que ela interfere na indicação de cargos no governo federal, promovendo interesses de lobistas. Ao ser questionado se Ana Cristina agiu a seu pedido para facilitar a nomeação de pessoas para cargos no governo federal, Marconny escolheu ficar em silêncio. Ana Cristina foi convocada para prestar depoimento aos parlamentares.

    O advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, negou irregularidades e disse que Renan “não atuou para abrir porta para ninguém”. Segundo o empresário que doou o carro elétrico, o veículo “foi cedido, mas parece que [o projeto] não foi adiante e o mesmo foi devolvido”, sem dizer quando isso teria ocorrido.

    Flávio Bolsonaro

    Flávio também passou a ser mencionado nas investigações da CPI da Covid, por ter intermediado uma reunião de Francisco Maximiano, dono da Precisa, com o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Gustavo Montezano, em outubro de 2020.

    O Ministério da Saúde fechou um contrato com a Precisa e chegou a empenhar R$ 1,6 bilhão para comprar as doses das vacinas intermediadas pela empresa, mas cancelou a contratação após o Ministério Público Federal e a CPI terem detectado irregularidades na negociação. Para a comissão, a Precisa também realizou movimentações financeiras suspeitas por meio de empresas que seriam de fachada, como a Xis Internet Fibra.

    Flávio disse à CPI que a reunião no BNDES tratou exclusivamente de um pedido de financiamento à Xis Internet Fibra, sem que contratos da Precisa tenham sido discutidos.

    Crimes contra o ambiente democrático

    Dois inquéritos que correm em sigilo no Supremo Tribunal Federal, coincidentemente sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, investigam a atuação de comunicadores, empresários e parlamentares bolsonaristas, incluindo filhos do presidente, na erosão democrática que vive o país, conforme apontam diversos relatórios de organizações especializadas no tema.

    Uma das investigações começou em 2019 por iniciativa do então presidente do Supremo, o ministro Dias Toffoli, para investigar mentiras e ataques contra ministros. Normalmente inquéritos só são abertos a pedido dos investigadores, mas em meados de 2020, o plenário do tribunal decidiu, por 10 votos a 1, que a investigação é legal, pois o regimento do Supremo autoriza medidas do tipo no caso de ataques contra a instituição.

    Em julho de 2021, o próprio presidente Bolsonaro virou alvo do inquérito, depois de pedido dos ministros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O pedido aconteceu depois que reiteradas mentiras sobre o sistema eleitoral foram difundidas por Bolsonaro, que chegou a ameaçar mais de uma vez a realização das eleições de 2022.

    A outra investigação que também atinge a família Bolsonaro é um desdobramento do inquérito dos atos antidemocráticos, aberto em abril de 2020 a pedido da Procuradoria-Geral da República para descobrir a organização e o financiamento de atos golpistas que ocorriam pelo país. Em julho de 2021, Moraes acatou um pedido da Procuradoria para encerrar o referido inquérito no Supremo, mas atendeu também à Polícia Federal, que pediu a abertura de um novo procedimento.

    No novo inquérito, o objetivo é apurar, a partir das provas coletadas no primeiro, uma suposta organização voltada a atacar as instituições, sobretudo nos meios digitais, a fim de abalar a democracia. Estão em jogo crimes como organização criminosa e crimes da Lei de Segurança Nacional, contra o regime democrático vigente e as instituições de Estado.

    Eduardo Bolsonaro

    Na decisão que autoriza a investigação pedida pela Polícia Federal, que ficou conhecida como inquérito das milícias digitais, o nome do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) aparece mais de uma dezena de vezes. Os investigadores apuraram que Eduardo integra grupos que, juntando parlamentares e comunicadores bolsonaristas, promovem ideias de ruptura institucional.

    Um assessor de Eduardo também é apontado pela PF como uma pessoa que, de dentro da própria Câmara, gere uma página propagadora de notícias falsas contra adversários do bolsonarismo. O inquérito corre em sigilo e em muitos pontos se confunde com o inquérito das fake news.

    Segundo reportagem do UOL, Eduardo, que é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e tem contato com o estrategista político da extrema direita Steve Bannon, tem trabalhado para encontrar uma empresa estrangeira para fazer disparos de mensagens em massa durante as eleições de 2022 sem ser devidamente controlado pela Justiça Eleitoral brasileira.

    Eduardo nega ter cometido crimes e se diz alvo de uma perseguição orquestrada por uma milícia que envolve mídia e poderes.

    Carlos Bolsonaro

    Em abril de 2020, reportagens revelaram que a Polícia Federal, no âmbito do inquérito das fake news aberto pelo Supremo Tribunal Federal no ano anterior, havia identificado Carlos como um dos articuladores do chamado “gabinete do ódio”, uma estrutura paralela que funcionaria no Palácio do Planalto para inventar calúnias e difamações, atacar adversários do governo e intimidar autoridades, inclusive ministros do Supremo.

    Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, dentro da Polícia Federal não há dúvidas de que Bolsonaro exonerou o então diretor da corporação Maurício Valeixo (provocando a demissão do então ministro da Justiça Sergio Moro) porque sabia que Valeixo tinha chegado às ações criminosas de Carlos.

    Assim como o irmão, Carlos nega haver uma estrutura coordenada de desinformação.

    Jair Renan

    No dia 20 de setembro de 2021, Jair Renan fez uma publicação temporária no Instagram em que apareciam diversos revólveres. As imagens eram acompanhadas da legenda: “Aloooo CPI kkkkk”. Na gravação, o filho de Bolsonaro afirma estar numa loja de armas, chamadas por ele de “brinquedo”, de propriedade de um amigo.

    No dia seguinte, senadores da CPI da Covid se manifestaram sobre o caso, que consideraram ser uma tentativa de intimidação. O senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da comissão, disse que conversou com o presidente do Senado, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que se solidarizou com os colegas e prometeu tomar providências.

    O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, pediu que seja apresentada uma queixa-crime à Polícia Civil para que Jair Renan responda por ameaça. O filho do presidente não se manifestou mais sobre o caso.

    A relação dos filhos com o governo federal

    Filhos do capitão reformado do Exército que ao longo de três décadas na Câmara ganhou notoriedade com declarações classificadas à época como “polêmicas”, Flávio, Carlos e Eduardo entraram jovens na política e logo ganharam projeção. Carlos foi o vereador mais jovem da história do Rio, com 17 anos. Flávio chegou a ser o candidato do PSC à Prefeitura carioca (conseguiu 14% dos votos válidos) em 2016.

    Eduardo, por sua vez, foi reeleito como o deputado federal mais votado da história do país. Em 2019, ainda chegou a ser cogitado por Jair para ser o embaixador do Brasil em Washington (EUA), um dos cargos mais importantes para a diplomacia nacional. A possibilidade de indicação do deputado sofreu duras críticas do meio diplomático e de outros setores, que ressaltaram a falta de qualificação do filho do presidente para o cargo. O presidente acabou recuando da escolha.

    Mas, além da contribuição do pai para a carreira dos filhos, eles também influenciam diretamente a trajetória política do presidente e os rumos do governo federal – como mostram, inclusive, as suspeitas de tráfico de influência. O presidente já declarou, por exemplo, que Carlos, comandante de seu marketing político desde que era deputado federal, é responsável por sua chegada à Presidência.

    No governo federal, Carlos permanece influente. Em seu quinto mandato como vereador pelo Rio de Janeiro, se mantém como presença habitual no Palácio do Planalto, influenciando inclusive as relações políticas do pai. Rompimentos do presidente com pessoas como Gustavo Bebianno, que coordenou a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e comandou posteriormente a Secretaria-Geral da Presidência, e o general da reserva Santos Cruz, que ocupou a Secretaria de Governo, envolveram os embates do filho vereador com os então ministros.

    No Congresso Nacional, Flávio e Eduardo votam alinhados com os interesses do governo Bolsonaro e, como mostram as participações do senador na CPI da Covid, servem como tropa de choque do pai nos debates parlamentares sobre as mais variadas ações da administração federal, inclusive as iniciativas e omissões relacionadas à pandemia.

    Além do alinhamento ideológico, a família também é uniforme no comportamento financeiro. Todos os filhos políticos de Jair, além de ex-companheiras do presidente, já registraram compras de imóveis com dinheiro vivo e saltos expressivos de patrimônio em pouco tempo. Os negócios imobiliários também são frequentes no clã. Enquanto esteve casada com Bolsonaro, entre 1997 e 2008, Ana Cristina Valle adquiriu 14 imóveis, entre apartamentos, casas e terrenos, como mostrou reportagem da revista Época. Já Flávio negociou pelo menos 20 imóveis desde que entrou para a política, em 2003.

    Nos casos de Flávio e Carlos, operações de compra e venda de imóveis aparecem nas investigações sobre as rachadinhas como indícios de possível lavagem de dinheiro. No caso de Eduardo, a Procuradoria-Geral da República informou ao tribunal em dezembro de 2020 que tinha iniciado apurações preliminares para avaliar a necessidade de um inquérito formal contra o parlamentar. Desde então, não houve novos andamentos públicos do caso.

    As suspeitas envolvendo negócios imobiliários da família também integram Jair Renan. Em agosto de 2021, ele e sua mãe, Ana Cristina Valle, que recebe salário de R$ 8.000, se tornaram inquilinos de uma casa avaliada em R$ 3,2 milhões na capital federal. O proprietário da casa, que não tem outros imóveis em seu nome, mora numa casa simples, em outro bairro da cidade, conforme revelou reportagem do portal UOL.

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