O Brasil colonial imaginado pela americana Gayl Jones

Considerada uma das mais importantes de sua geração, escritora que foi descoberta por Toni Morrison lança novo livro após hiato de 22 anos: um romance épico sobre o quilombo de Palmares

    A celebrada autora afro-americana Gayl Jones publicou, em 14 de setembro, o seu primeiro livro após um hiato de 22 anos. Intitulado “Palmares”, trata-se de um romance épico de 512 páginas ambientado no Brasil colonial do século 18. O enredo segue uma mulher negra que escapa de seus escravizadores para se juntar ao quilombo de Palmares, a maior comunidade de escravizados fugidos que já existiu no país.

    Jones ainda não teve suas obras editadas no Brasil, mas a temática da escravidão brasileira a acompanha desde o seu primeiro e mais elogiado romance, “Corregidora” (1975). Quando leu o manuscrito desse livro, a Nobel de literatura Toni Morrison — que então trabalhava na editora americana Random House — disse que “nenhum romance sobre uma mulher negra seria o mesmo” depois dele.

    Apesar da atenção que recebeu por sua escrita, Jones se manteve fora dos holofotes e há décadas recusa pedidos de entrevista, em parte devido a acontecimentos trágicos em sua vida pessoal. Neste texto, o Nexo apresenta a autora, seu lugar na literatura negra americana e como o Brasil se tornou uma fonte de inspiração para ela.

    A obra de Gayl Jones

    O romance de estreia de Jones conta a história de Ursa Corregidora, uma cantora de blues do Kentucky — estado americano onde a autora nasceu — que carrega consigo o trauma de suas antepassadas, mulheres negras escravizadas e estupradas pelo português-brasileiro Simon Corregidora.

    A memória dos abusos sofridos por essas mulheres era repassada “de geração a geração” para que nunca fosse esquecida. Ursa é impedida de continuar essa tradição quando, nas primeiras páginas do romance, é empurrada do topo de uma escada por um namorado ciumento e tem seu útero removido em uma cirurgia de emergência.

    “A crueza da violência e do sofrimento que marcaram a mulher, as relações e os tempos históricos” são temas recorrentes na obra de Jones, disse ao Nexo a pesquisadora Stelamaris Coser, professora aposentada da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) que estuda a literatura feminina negra dos EUA no Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Sua tese de doutorado, Bridging the Americas: The literature of Paule Marshall, Toni Morrison and Gayl Jones”, foi publicada em 1995.

    Em “Corregidora”, Jones narra o livro em primeira pessoa, empregando um inglês afro-americano marcado pela oralidade. Para a autora, essa escolha não foi puramente estilística, mas também política. Na coletânea de ensaios críticos “Liberating Voices: Oral Tradition in African American Literature” (1999), Jones afirma que escritores afro-americanos conquistaram “maior soberania artística" quando passaram a “confiar nas possibilidades literárias de suas próprias criações verbais e musicais”.

    Atuando na época como editora, Toni Morrison ficou totalmente impressionada pelo manuscrito de “Corregidora”, que publicou pela Random House e ajudou a divulgar em círculos literários.

    “Essa menina havia alterado os termos, as definições de toda a empreitada [literária]. Tão profundamente impressionada fiquei, que nem tive tempo de me ofender com o fato de que ela só tinha 24 anos e não tinha nenhum direito de conhecer tantas coisas tão bem”

    Toni Morrison

    escritora vencedora do Nobel de literatura, em um ensaio sobre Gayl Jones publicado na revista Mademoiselle e recuperado pelo jornal The New York Times

    O livro lançou a carreira de Jones, e recebeu elogios de outros escritores importantes do período. John Updike disse que autora tinha “uma noção poderosa de herança vital, de história que corre no sangue”, e James Baldwin escreveu que “Corregidora” era “a revelação mais brutal e honesta do que ocorreu, e continua ocorrendo, nas almas de homens e mulheres negros”.

    “Gayl Jones integra o ‘boom’ da literatura de autoria feminina-negra dos Estados Unidos nos anos 1970 e 1980”, disse Coser ao Nexo. Segundo a pesquisadora, sua influência pode ser reconhecida não apenas na escrita de gerações posteriores, como também na obra de autoras que foram suas contemporâneas e alcançaram maior visibilidade, como Toni Morrison, Alice Walker, Maya Angelou e Audre Lorde.

    No entanto, os livros de Jones também causaram incômodo em “pessoas que, após as bandeiras de luta e resistência do movimento Black Power nos anos 1960, esperavam histórias claramente afirmativas e redentoras” sobre personagens negros, segundo Coser. Os personagens de Jones são complicados e falhos, marcados por “paradoxos humanos, pela violência física — muitas vezes sexual —, pelas memórias e os legados atrozes da escravidão”.

    Essa característica aparece com ainda mais força em seu segundo romance, “Eva’s Man” (1976), que teve uma recepção menos positiva. O enredo é construído em torno de memórias dos relacionamentos da protagonista, Eva, uma mulher que foi presa após envenenar e castrar o seu parceiro abusivo.

    Em 1997, influenciada por debates em torno da literatura afro-americana, Jones tentou recuperar os direitos de publicação de seus dois primeiros livros, que haviam sido adquiridos pela editora Beacon Press, para retirá-los de circulação. Ela acreditava que os romances “retratavam homens negros muito negativamente”, segundo disse sua editora Helena Atwan à revista The Atlantic. Atwan negou o pedido e, em vez disso, sugeriu que Jones publicasse mais romances. A escritora já tinha dois manuscritos praticamente finalizados “The Healing” (1998) e “Mosquito” (1999) foram lançados em sequência.

    O Brasil de Gayl Jones

    “Palmares” é o primeiro livro publicado por Gayl Jones desde “Mosquito” e passou décadas em desenvolvimento. A sua história já havia sido introduzida pela escritora no conto “Almeyda” (1977) e no poema narrativo “Song for Anninho” (1986). Almeyda é a protagonista de “Palmares”, uma escravizada fugida em busca de seu parceiro, Martim Anninho, que desaparece após a destruição do quilombo de Palmares pelo governo colonial.

    Tanto “Almeyda” como “Song for Anninho” trazem como epígrafe o trecho de uma petição feita por Domingos Jorge Velho, bandeirante que liderou os ataques contra Palmares, solicitando reforços ao rei de Portugal mesmo após a morte do líder do quilombo, Zumbi.

    Jones “interessava-se muito pela história do Brasil e buscava explorar as relações entre história coletiva e experiência pessoal na sua literatura”, disse Stelamaris Coser ao Nexo. Ao explorar o passado escravista do Brasil, a escritora encontrou “maior liberdade para abordar a extrema violência contra a mulher” sem ser acusada de exagero, “além de um novo olhar sobre as mulheres negras” dos EUA.

    A autora nunca visitou o Brasil, mas, segundo Coser, “ela desenvolveu pesquisas sobre fatos históricos e sociais” do país na sua pós-graduação, o que permitiu que fizesse referência a figuras da história e folclore brasileiros. Por vezes, Jones toma liberdades artísticas com esses conhecimentos. O nome da protagonista de “Palmares”, por exemplo, foi extraído do sobrenome de D. Pedro de Almeida, governador da capitania de Pernambuco de 1675 a 1678.

    “Embora fincada na história, [a autora] buscou escapar do factual e do preciso, privilegiando a imaginação livre, sonhos, visões e delírios”, afirmou Coser. “Palmares” vem sendo comparado por críticos aos livros de realismo mágico do colombiano Gabriel García Marquez, de quem Jones é uma enorme admiradora.

    “Com suas lentes introspectivas e pessoais, Gayl Jones filtrou a história conhecida dos ciclos do período colonial sustentados pela exploração e violação de corpos negros pelos senhores — em especial os corpos femininos —, a desumanização dos escravizados, as fugas levando à formação de quilombos e, em especial, a República de Palmares e sua grandeza, apesar da união dos brancos para sua destruição”

    Stelamaris Coser

    Pesquisadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ e professora aposentada da Ufes

    O livro, que é o primeiro de cinco lançamentos de Jones previstos para os próximos dois anos, tem recebido elogios da crítica especializada. “É uma história tecida com complexidade extraordinária, profundidade e habilidade; em muitos sentidos: sagrada”, escreveu Robert Jones Jr. no The New York Times. Publicado nos EUA pela Beacon Press, “Palmares” deve receber edição brasileira pela Companhia das Letras, segundo informações do jornal O Globo.

    A vida de Gayl Jones

    Gayl Jones nasceu em 1949, em Lexington, município do estado interiorano de Kentucky, nos EUA. Seu pai era um cozinheiro e sua mãe era uma dona de casa, mas também uma escritora e contadora de histórias. A obra de Jones foi muito influenciada pela linguagem oral negra e pelas memórias de família que recebeu de sua mãe e sua avó. Em uma entrevista de 1977, ela disse que “aprendeu a escrever ouvindo as pessoas falarem” e que a melhor parte da sua escrita “vem de ter ouvido, e não lido”.

    Mesmo assim, ela foi uma jovem estudiosa e se destacou entre os alunos do colégio onde estudou nos anos 1960 — período em que ainda havia segregação racial no Kentucky. Por meio de sua professora de espanhol, ela foi apresentada à crítica literária Elizabeth Hardwick e a seu marido, o poeta Robert Lowell. O casal ajudou Jones a conseguir uma bolsa de estudos na faculdade Connecticut College.

    Com pesquisas no campo da literatura, Jones se dedicou à vida acadêmica, fazendo mestrado e doutorado na prestigiosa Universidade Brown. Lá conheceu o professor e poeta Michael Harper, que se tornaria seu amigo próximo e mentor. Foi ele quem enviou seus primeiros manuscritos a Toni Morrison.

    No mesmo ano de publicação de “Corregidora”, em 1975, Jones tornou-se palestrante e depois professora assistente na Universidade de Michigan. Conheceu lá o estudante Robert Higgins, com quem se casou. Ele era um homem excêntrico, que acreditava ser um gênio e tinha um “temperamento vulcânico”, segundo uma reportagem publicada em 1998 no The New York Times.

    Em 1983, Higgins tumultuou uma passeata de orgulho LGBTI, proclamando que ele próprio era Deus e que a aids era uma punição divina. Ele levou um soco de uma mulher que participava do evento, foi para casa e retornou portando uma arma de fogo. A polícia o prendeu temporariamente, e Higgins encarava uma pena de até quatro anos de prisão, mas não compareceu ao tribunal para receber a sentença.

    Em vez disso, Gayl Jones pediu demissão de seu cargo na universidade, e o casal fugiu para a França, de onde a autora continuou escrevendo e publicando livros. Após cinco anos, os dois voltaram à casa de infância de Jones para cuidar de sua mãe, Lucille, que havia sido diagnosticada com câncer na garganta.

    Devido a discordâncias quanto ao tratamento que sua sogra recebia, Higgins passou a escrever cartas ameaçadoras ao centro médico da Universidade de Kentucky. As ameaças se intensificaram e tornaram-se mais erráticas após a morte de Lucille, em 1997, com e-mails e faxes encaminhados à imprensa nacional, à polícia e até ao então presidente dos EUA, Bill Clinton.

    A polícia decidiu prender Higgins em fevereiro de 1998, após uma carta enviada ao presidente da Universidade de Kentucky levantar suspeitas de que ele estaria construindo uma bomba. Higgins cometeu suicídio quando os policiais entraram na sua casa, e Jones foi levada a um hospital psiquiátrico para acompanhamento. Ela nunca mais concedeu entrevistas e vive reclusa desde então, comunicando-se apenas com familiares e com sua editora.

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